OPINIÃO
20/02/2015 17:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Chance para falar de dinheiro obscuro

É profundamente contraditório pretender reverenciar o povo pobre da Guiné Equatorial e, no mesmo ato, receber R$ 10 milhões da ditadura que controla o país há 35 anos. Quisesse um cidadão equato-guineense contestar a relevância do investimento em uma festa estrangeira, provavelmente terminaria preso, como muitos que decidiram criticar o regime.

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A member of the Beija-Flor samba school works on a float at 'Samba City' in Rio de Janeiro, Brazil on February 10, 2012, during the preparations for the traditional samba schools parades during carnival. AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDAs (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

A Beija-Flor encantou os jurados com um enredo que enaltece a superação da escravidão pela "chama da igualdade [que] não se apaga". Mas se o propósito era homenagear os povos que venceram a opressão, esse foi um tributo às avessas.

É profundamente contraditório pretender reverenciar o povo pobre da Guiné Equatorial e, no mesmo ato, receber R$ 10 milhões da ditadura que controla o país há 35 anos. Quisesse um cidadão equato-guineense contestar a relevância do investimento em uma festa estrangeira, provavelmente terminaria preso, como muitos que decidiram criticar o regime.

As ausências da liberdade de imprensa e da possibilidade de controle democrático dos atos do governo já deveriam ter sido suficientes para que qualquer escola de samba dissesse não. Mas se as próprias escolas ou a liga das escolas não têm interesse de por fim ao vale-tudo na busca de recursos, cabe à sociedade traçar os limites da ética para este e outros contextos.

Justamente por ser o Carnaval um momento especial para o Brasil, quando muita atenção, paixão e recursos públicos são investidos na festa, é que se deve esperar maior rigor na escolha de financiadores. Quando há aporte de recursos, as prefeituras devem estabelecer contrapartidas. Uma delas poderia ser a "condição democrática" do financiador, quando se tratar de um Estado.

Até que existam regras, nada impede que as escolas estabeleçam seus limites éticos. Afinal, tão bela quanto a história da Beija-Flor teria sido a recusa do patrocínio oferecido pelo ditador excêntrico. Se o brilho da 13ª taça de campeã foi ofuscado pelo dinheiro obscuro, ao menos a Beija-Flor nos dá a oportunidade de tratar abertamente do problema.

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