OPINIÃO
25/03/2015 19:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Por que o Estado Islâmico cada vez mais usa crianças como 'escoteiros do califado'

Site Intelligence

Num vídeo chocante divulgado em 10 de março pelo Furqan, braço de mídia francês do ISIS, um menino parece matar a tiros um prisioneiro palestino acusado de espionar para o serviço de inteligência israelense Mossad.

O vídeo lembra outro divulgado pelo ISIS em janeiro, o que mostrava um garoto cazaque aparentemente executando dois russos também acusados de espionagem.

Os vídeos refletem duas tendências emergentes. A primeira é o papel cada vez mais importante desempenhado por crianças muito pequenas nas linhas de frente do ISIS. O grupo divulgou vários vídeos do seu campo de treinamento Farouk, em Raqqa, nos quais crianças ("escoteiros do califado") são treinadas para ser a próxima geração de combatentes. Mas os vídeos recentes dão a entender que as crianças podem ser usadas muito mais cedo do que se acreditava.

"Grupos terroristas tentam garantir sua sobrevivência preparando a próxima geração."

A segunda tendência é o aspecto multigeneracional e familiar da radicalização e da violência. Apesar de ser improvável que uma criança seja radicalizada ou tenha crenças políticas que possa compreender, é plausível que elas possam sofrer lavagem cerebral pelas mãos de adultos. Isso é um novo estágio no uso de crianças por grupos terroristas.

Já se sabe que grupos terroristas estão cheios de irmãos co-conspiradores (como os irmãos Tsarnaev e Kouachi e as irmãs Price e Berayeva), mas a evolução para pai e filhos está no limite do abuso infantil.

Além disso, a ameaça de que crianças imitem seus pais é um sinal desse ambiente. Crianças em Raqqa brincam de copiar seus pais. Nos campos de treinamento do ISIS, elas supostamente treinam decapitações de bonecos loiros de olhos azuis, vestindo macacões laranja (como aqueles usados por James Foley e Steve Sotloff, ambos vítimas de decapitação). E essa imitação não exige que as crianças tenham testemunhado massacres na Síria em primeira mão. Crianças egípcias vêm postando vídeos nas redes sociais nas quais realizam execuções de mentira, ao estilo do ISIS, baseadas no que veem no noticiário.

A literatura retrata crianças-soldado (na África e na América Latina) e crianças envolvidas com terrorismo como mais ou menos sinônimos. Mas um exame preliminar sugere diferenças significativas entre os dois casos - especialmente no que diz respeito ao nível de mobilização e ao papel desempenhado por pais, professores e comunidades. Recrutar crianças-soldado envolve coerção explícita, como sequestro e uso de narcóticos. Em contraste, a preparação de terroristas parece ser um processo gradual, orquestrado para dar a impressão de que a participação das crianças é, na realidade, consensual.

"O ISIS opera de acordo com o manual dos pedófilos."

Organizações terroristas historicamente doutrinam as crianças desde cedo. Muitos grupos no Oriente Médio, Europa e América do Norte criam movimentos infantis para assegurar a longevidade do grupo. Estudos conduzidos por Seth Jones e Martin Libiki (2008) mostram que todos os grupos terroristas acabam desaparecendo, e David Rapaport argumenta que a maioria das organizações de terror não sobrevive além do segundo ano. Por essa razão, grupos terroristas tentam garantir sua sobrevivência preparando a próxima geração.

Organizações terroristas estabelecem braços jovens, campos de treinamento e fazem uso da propaganda para alvejar crianças pequenas. A maioria dos grupos terroristas envolve crianças em papeis de apoio até que elas sejam "velhas o suficiente" para as linhas de frente. Braços jovens existem na Irlanda do Norte (Ogra Sinn Fein), no Líbano (acampamentos de verão do Hezbollah) e no Sri Lanka (a Ala Bakut dos Tigres de Libertação do Tamil Eelam). Em cada um desses casos, os grupos insistem que há uma idade mínima para que os integrantes participem de atividades na linha de frente (matar). A aderência a essa regra varia enormemente de grupo para grupo, mas poucos abraçam a ideia de crianças como máquinas mortíferas.

Na maioria dos grupos terroristas, as crianças começam como vigias, mensageiras ou transportadores de armas, e a partir daí vão subindo os degraus da organização. O ISIS esvazia esse processo ao ativar crianças desde muito cedo, colocando-as na linha de frente antes que elas completem seu "estágio" como terroristas em treinamento.

"Nos campos de treinamento do ISIS, as crianças supostamente treinam decapitações de bonecos loiros de olhos azuis, vestindo macacões laranja."

A narrativa dominante entre as crianças-soldado é que elas ficaram órfãs - em geral por culpa do grupo que depois a "adota". Já no caso do ISIS, as unidades familiares costumam estar intactas, e muitos homens que se juntam ao grupo levam suas famílias consigo. Sabe-se que alguns pais também incentivam seus filhos a se envolver com o ISIS.

O ISIS opera de acordo com o manual dos pedófilos.

Ao longo de semanas ou meses, eles gradualmente expõem as crianças a comportamentos que são aberrações - ou, no mínimo, inadequados para crianças. Os pedófilos podem começar o contato físico com toques casuais, que se tornam mais agressivos com o tempo, até chegar ao estupro. Pedófilos expõem crianças a materiais pornográficos, para dessensibilizá-las e levá-las ao comportamento sexual. O ISIS faz virtualmente a mesma coisa com a violência. Crianças que assistem decapitações em vídeo são levadas para presenciá-las ao vivo. É um pequeno passo até que as crianças estejam envolvidas nas execuções.

As crianças não são apenas alvo de recrutamento - elas são alvo para morrer. Segundo o livro ISIS: The State of Terror (ISIS: o estado do terror, em tradução livre), de Jessica Stern e J. M. Berger, as crianças são usadas como escudos humanos e forçadas a doar sangue. Um relatório de 2013 do Oxford Research Group indica que 11 000 crianças foram mortas nos primeiros dois anos da guerra civil na Síria. O maior número foi registrado em Aleppo, onde 2 000 crianças foram mortas. Muitas das crianças mortas e feridas foram vítimas de bombardeios.

"As crianças não são apenas alvo de recrutamento - elas são alvo para morrer."

Mas quase 400 crianças morreram pelas mãos de franco-atiradores pró-regime. Diferentemente de bombardeios aéreos, atiradores de elite não causam danos aleatoriamente. As crianças são especificamente alvejadas. A morte por um atirador de elite é uma forma íntima de morte, um dos atos mais deliberados que um soldado pode cometer - como mostra o retrato de Chris Kyle no filme Sniper Americano, de Clint Eastwood. As crianças sírias são deliberadamente alvejadas no conflito.

As sequelas psicológicas de longo prazo para essas crianças são desconhecidas. Crianças pequenas expostas a violência extrema sofrem de diversos problemas quando crescem, de transtornos de afeto à incapacidade de demonstrar empatia ou amor, até psicopatia. Ex-crianças-soldados na África que sofrem desses problemas costumam ser submetidas a programas de DDRR (desarmamento, desmobilização, reabilitação e reintegração), que usam uma combinação de abordagens psicossociais e treinamento vocacional.

Mas, para que essa abordagem funcione com o ISIS, essas crianças precisam ser separadas das comunidades que defendem valores perversos e as colocam em risco. Até que isso aconteça, não há como fugir da realidade de que o Estado Islâmico distorce o certo do errado e o bom do mau.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.