OPINIÃO
11/07/2014 15:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Quem pode falar mal da Luzinete?

Carlyle, como bom inglês, ama o futebol.

Esse ano, veio assistir a Copa no Brasil.

Nem a desclassificação da Inglaterra reduziu seu amor.

Sujeito viajado, nunca tinha estado na América do Sul.

Pensando bem, nunca esteve abaixo do Equador, veja você.

Se hospedou no Hyatt da Marginal.

Todo dia de manhã, lia um fac-símile da Folha, em inglês.

Carlyle gosta de conhecer o cotidiano dos países que visita.

Nessa manhã, uma manchete chamou sua atenção na página policial (que lia sempre, preocupado com a violência brasileira, alardeada nos jornais britânicos).

Era a história de Lúcio.

...

Lúcio entrou no boteco de cabeça baixa e foi direto para a mesa de snooker ao fundo.

No caminho gritou, sem olhar:

- Junior, manda um bauru e uma cerveja, faz favor.

Sentou-se ao lado de Airton, numa cadeira vermelha de metal.

Começou a falar sincopado, olhando para a mesa de snooker, como se estivesse seguindo um longo diálogo interrompido na véspera, ou lendo um script num monitor, enquanto alisava a barba no sentido oposto dos pelos.

- Um dia ainda dou na cara dessa mulher...juro por deus...puta que pariu rapaz...o que um homem tem que aguentar não é fácil nessa vida. Acordo às cinco da manhã, tomo uma bosta dum pingado de café enquanto ela tá lá dormindo feita uma filha duma puta. Pego ônibus lotado. Três. Chego na porra da firma e trabalho feito escravo. Almoço uma comidinha xexelenta...

No snooker, Wellington mata a marrom, prepara para a seis, mata a cinco e encaçapa a branca. Estica o taco no placar de madeira e desliza as contas de plástico branco:

- Somei oito. - anuncia.

- Sete na caçapa do fundo. - canta Merval.

- Próxima sou eu e o Lúcio. - anuncia Airton antes da tacada.

Lúcio continuou a ladainha:

-...passo a tarde fazendo conta pro porra do patrão ganhar dinheiro. Aí toca 3 condução de novo de volta pra casa. E compra leite. E compra pão e quando chego em casa ainda tem que ouvir merda? Isso é viver? Vamos pra praia no final de semana? - fala em falsete - Sabe o que a vizinha falou? Sabia que o noivo da fulana deu um colar pra ela?...tem que aguentar isso? - Lúcio pergunta sem olhar para o lado.

- Arran. - Airton respondeu automático atento ao jogo.

A bola sete caiu sem ruído. Volta para a mesa. Merval prepara a seis para a caçapa oposta, no fundo à esquerda.

- ...e eu abro a geladeira e o que que tem para comer? Nada. Não passou nem no hortifruti. Nem fez um arroz, um picadinho. Nada. Porra. Será que isso é viver? Trabalhar para escutar merda enquanto ela passa o dia no salão fazendo a unha das comadre e não faz nem uma porcaria dum picadinho?

Wellington e Merval terminam o jogo ao mesmo tempo que o bauru chega com a cerveja.

Airton se levanta e escolhe seu taco com cuidado. Rola-o sobre a mesa. Todos os tacos são imprestáveis. Tortos e sem ponta. Mas ele escolhe com atenção cirúrgica. Decide por um. Passa o giz na ponta de madeira gasta. Esfrega talco entre o polegar e o indicador esquerdos. Lúcio ainda não se levantou.

Wellington senta no lugar onde estava Airton e dá um gole na cerveja de Lúcio, sem pedir. Lúcio continua falando, sem se importar com o novo interlocutor.

- Aí, no tempo que eu levo para escovar os dentes, a filha da puta da Luzinete já pega no sono roncando alto. Vou te contar. E lá vou eu tudo de novo no dia seguinte. Porra. É de fuder essa vida. - dá a primeira mordida no bauru depois de uma breve pausa.

Wellington move a cabeça afirmativamente, como se estivesse concordando com tudo. É um rapaz de pouco mais de vinte anos. Assistente administrativo num escritório de contabilidade. A última frase, o fato de Lúcio se queixar de não fazer sexo com sua mulher, foi o que mais chamou sua atenção no desabafo do amigo. Pensou em como a vida de Lúcio é mesmo triste. Casado com um mulherão, mas incapaz de ser feliz.

Então acontece. Quase sem pensar, Wellington deixa escapar.

- É ... a Luzinete nunca me enganou. Safada.

Lúcio volta-se lentamente na direção do amigo.

Wellington não teve chance de ver de onde veio o golpe. Uma garrafada de cerveja seca, na cara. Não era para tanto, nem seria fatal se a garrafa não tivesse partido no momento do impacto. Morreu na ambulância do SAMU.

...

Carlyle fechou o jornal e olhou o trânsito na Marginal.

Justo nessa hora, trouxeram a conta.

Enquanto Carlyle entregava seu cartão de crédito Barclay's, o garçom perguntou simpático:

- Are you enjoying your stay in Brazil, sir?

Carlyle, então, fez um balanço mental da viagem até ali.

Lembrou do aeroporto inundado em Brasília.

Lembrou das malas que extraviaram e foram parar em Cuiabá.

Pensou nas duas horas que passou esperando o taxi em Cumbica.

Nas favelas que viu pela janela do trem a caminho do Itaquerão.

Na poluição do Pinheiros e do Tietê, cheios de detritos flutuando.

Mas quando ia responder, lembrou da sinceridade de Wellington.

- I'm loving it, my friend - respondeu sem pestanejar - Oh, yes indeed.

Melhor assim.

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