OPINIÃO
29/04/2014 09:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Hashtag: não falem por nós!

Embora a gente entenda que vocês até sejam capazes de criticar situações e fatos sociais através da observação e debate, não conseguimos respeitá-los enquanto voz das dores da comunidade preta.

Nas hashtags mais frequentes nos "tuíteres" e Facebooks da classe média nos últimos meses, vemos:

#CadêoAmarildo, #SomostodasClaudia, #Todossomosiguais. Foram casos que ganharam grandes proporções: o desaparecimento de um um homem preto, o tratamento desumano dispensado à uma mulher preta e o racismo.

Mas saiba "classe média leite com pêra batida com pouco açúcar": embora a gente entenda que vocês até sejam capazes de criticar situações e fatos sociais através da observação e debate, não conseguimos respeitá-los enquanto voz das dores da comunidade preta. Incapacidade nossa - confessamos! Nos sobe uma angústia em ver a bem criada da Carolina Dieckmann levantando plaquinha falando que não merece ser assassinada... Você não merece, e o primo da nossa companheira de luta também não merecia! A Regina Casé não merece ser assassinada, e o irmão da manicure aqui da nossa área também não merecia! A Claudia não merecia ser assassinada e arrastada, e nem a tia de consideração de uma de nossas irmãs de Coletivo merecia morrer de tristeza por ter tido seus 3 filhos assassinados.

É muita hashtag que está faltando aí... É hashtag pra sua empregada que tem crise de vesícula, mas não tem atendimento, porque na emergência do Miguel Couto não tem gastroenterologista, só ortopedia e cardiologia. É hashtag pras famílias, na sua maioria pretas, que não sabem o que fazer com seus doentes psiquiátricos. É hashtag pra depressão e a esquizofrenia que ataca a mulher preta (destacamos aqui um dado: as "malucas dos bairros" geralmente estão concentradas na Baixada, no Centro ou nas Zonas Oeste e Norte do Rio de Janeiro, porque no Leblon quase nem se vê morador de rua - pra não "sujar" o visual eles são devidamente varridos pra bem longe da esquina do ex-governador...). Tem hashtag faltando aí, Preta Gil! Está faltando hashtag pras mulheres pretas e gordas que são massacradas pela mídia perversa - somos todos iguais mesmo? É hashtag pros espaços de privação de liberdade que bestializam internos; pras instituições de correção de menores infratores que só fazem alimentar o ódio e a violência; pra escola que não sabe o que fazer com alunos dependentes químicos...

Quem está no olho do furacão sabe a dor da família do Amarildo e chora pela família de Claudia, mas sabe que só na sua rua mais de dez famílias foram devastadas por essa mesma dor. Quem milita na rua conhece essa dor na sua própria casa. Por isso não fazemos sensacionalismo com isto: essa dor já nos persegue desde 1500 e tal... Por isso não venha falar por nós, Neymar! Nos procure - somos muitas as companheiras e muitos companheiros de militância - pra conversarmos sobre nossa negritude. Busque entender a sua caminhada como homem preto. Descubra-se um homem preto primeiro e não reforce mais estereótipos.

Nossos mais velhos não sabem o que é hashtag. Eles só sabem da dor da perda e da força que vem dos ancestrais pra superar e resistir. Enquanto vocês lutam pelo #trendingtopics, nós lutamos para não morrer - falamos das mortes emocionais, intelectuais, sociais e factuais. Lutamos - ainda que de luto pelas tantas mortes nas NOSSAS FAMÍLIAS, NÃO NAS SUAS! - pra não morrer.

Texto publicado originalmente no blog das Meninas Black Power.