OPINIÃO
14/07/2015 17:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Eu tenho medo. E você?

É preciso ter muita força para confrontar o medo e não deixá-lo entrar. O medo serve de justificativa para não arriscarmos. Entramos no círculo vicioso: por medo, não nos arriscamos. Isso nos tranquiliza, pois justificamos nossa dificuldade de mudar, e, assim, retroalimentamos o medo. E como interromper esse ciclo?

Shutterstock / Andrew Lever

Tomar a decisão de romper com o "sistema" e mudar de vida não é fácil. Mais difícil ainda se essa decisão envolve mudar de país com um filho pequeno, e sem emprego fixo...

Muitas pessoas dizem que não se arriscam a largar tudo por questões financeiras. Na realidade, a meu ver, isso é mais uma desculpa do que qualquer outra coisa. Por duas razões: a primeira é de que não é preciso ter muito dinheiro guardado para inovar/arriscar. A segunda é que as pessoas têm medo. E é o medo do novo, do desconhecido, o medo do fracasso que faz com que as pessoas não arrisquem.

Ter medo, em alguma medida, é natural. É instinto de sobrevivência. No entanto, vivemos em uma sociedade pautada no medo, que fomenta o medo, e que nos controla pelo medo. Cotidianamente somos bombardeados por informações e histórias que nos atemorizam. Nos telejornais, por exemplo, notícias sobre assaltos, sequestros, assassinatos viraram o foco dos programas que, a princípio, existem para nos manter informados. Lá em casa, praticamente não ligamos mais a televisão e quando, por alguma razão, assisitmos algum noticiário, fico agoniada. A desgraça é pano de fundo do noticiário inteiro. Quando não há nenhuma desgraça "importante", alguma agressão em qualquer recanto no interior do país ganha repercussão nacional.

Muitas vezes, as crianças também são educadas pelo medo: "Não faz isso, olha que o policial vai ficar brabo." "O homem do saco vai vir te pegar (será que ainda existe isso?)". "Desse jeito mamãe fica muito triste com você (promovendo o medo da perda do amor)".

E nas eleições? Afirmar que os candidatos trarão dificuldades, problemas, atrasos etc é estratégia de "marketing político". Propostas concretas e dados coerentes ficam de lado...o medo é uma arma de controle muito poderosa! As pessoas têm medo de errar, de mudar, de sair da sua zona de conforto.

Tem dias em que o medo também me atinge. O medo da dificuldade, do desamparo, o medo do fracasso. E se o medo encontra uma frestinha da porta aberta, ele entra com tudo: medo de ficar sem dinheiro, sem emprego, medo de se expor, medo da velhice, medo de perder alguém que se ama....

Antes de me mudar para o Uruguai, tive muito medo. Pensava: - "Meu deus, que loucura que estamos fazendo?!". Minha sorte é que tenho, atualmente, mais medo de deixar de vivenciar uma vida diferente, do que medo do fracasso e do desamparo (risos).

Decisão tomada e vida organizada não é sinônimo de controle absoluto e fortaleza. É preciso ter muita força para confrontar o medo e não deixá-lo entrar. O medo serve de justificativa para não arriscarmos. Entramos no círculo vicioso: por medo, não nos arriscamos. Isso nos tranquiliza, pois justificamos nossa dificuldade de mudar, e, assim, retroalimentamos o medo.

E como interromper esse ciclo do medo? Como desintoxicar?

Sem dúvida, conectar-se com pessoas positivas, buscar experiências que nos vinculem à plenitude da vida ajuda muito. Nesse ponto, termos criado o blog Vida Borbulhante tem nos ajudado muito. Estamos conectados com mais e mais pessoas e descobrindo histórias de vida de dificuldade e superação. Não nos sentirmos sozinhos ajuda a reduzir o medo.

Prestar atenção na respiração, parar de dar ouvidos às bobagens, enxergar a benção da natureza e da vida ajuda muito, também. Para mim, funciona a meditação. Mentalizar momentos agradáveis, coisas boas, ler livros que te ajudem você a enxergar sua vida com outros olhos. Além disso, conversar, escutar música, se exercitar...tudo que ajude a oxigenação do corpo e da alma. Alguns encontram essa força na religião ou na espiritualidade. A idéia, em suma, é substituir os pensamentos negativos pelos positivos.

Gosto muito de fazer uma analogia entre o medo a andar de esqui. Quanto mais você inclina seu corpo em direção ao vazio, mais mantém a flexibilidade das pernas e braços, melhor será a descida: mais chances de sucesso e de curtição! Quanto mais você hesita, mais tenciona braços e pernas, tende a se proteger indo em direção à montanha, mais difícil fica se equilibrar, e maiores as quedas. O ponto de virada está justamente na confiança. Você só vai se dirigir ao vazio se tiver confiança em si, em sua capacidade de ser flexível, de administrar a velocidade. Você pode até não conhecer seus obstáculos com antecedência, mas conhece suas habilidades e fragilidades.

Não é fácil aprender, mas, depois que o medo é descartado, tudo flui, fica leve, e o ventinho no rosto é bom demais. Precisamos desfrutar mais das descidas...

Melissa largou tudo, foi morar no Uruguai como o Bruno e o Martin e criou o Blog Vida Borbulhante . Passe lá para conhecer. Curta o Blog no Facebook .

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