OPINIÃO
03/12/2015 18:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Quem são os 'hackers comunitários' do Brasil

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Jovens aprendem e ensinam em meetup de BH: compartilhar é a regra

Eles são, em sua maioria, jovens entre 20 e 40 anos, e todos têm algo em comum: são ávidos por conhecimento e amam compartilhar com os outros. A solidariedade e o engajamento desses "hackers comunitários" têm melhorado vidas e colaborado com o crescimento do país. Reunidos em grupos de encontros presenciais sobre tecnologia, os chamados meetups, esse jovens líderes promovem palestras, organizam estudos em grupo e ajudam uns aos outros, em um ambiente de crescimento coletivo e pessoal.

Entre os hackers brasileiros, o conhecimento é carro-chefe e não há espaço para o excesso de formalidade e hierarquia.

O desenvolvedor web Pedro Chaves, 26 anos, organizador de um grupo de estudos de linguagem PHP em Minas Gerais, o PHPMG, explica:

"Seja em um curso, uma palestra ou apenas um encontro mais informal num bar, não existem restrições em relação a quem pode ou não pode palestrar e assistir. É só querer ensinar e aprender. (...) Essa troca de informações é extremamente benéfica não apenas para as pessoas envolvidas, mas para a sociedade e o mercado de trabalho como um todo."

Economia

Pedro está certo. Não à toa, o setor de tecnologia da informação (TI) do País vive um bom momento e deve crescer 7,3% em 2015, segundo projeção da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), índice superior aos 6,7% de 2014 e mais que o dobro da média mundial prevista para este ano, de 3,43%. Tudo isso em um cenário de retração e pessimismo vivido pela economia brasileira.

Com inspiração em movimentos internacionais como o Open Source (código aberto), nascido na década de 80, os hackers comunitários trocam conhecimento em diferentes áreas.

No Brasil, há meetups de tecnologia voltados ao aprendizado de distintas linguagens de programação, ferramentas de design, desenvolvimento de aplicativos móveis e novas tendências como a internet das coisas e o Big Data - grande armazenamento de dados em alta velocidade.

É o caso do São Paulo Big Data Meetup e Rio Big Data Meetup, organizados por Robson Ventura, 26, e Raul Magno, 27, fundadores da Prognoos. Ambos passam ao largo do pessimismo gerado pela crise econômica.

"É possível, cada vez mais, tornarmos o Brasil um exportador de tecnologia e conhecimento", projeta Robson.

"Temos que nos organizar e criar uma atmosfera forte de comunidade para trocar experiências, conhecer pessoas e aprender em conjunto", afirma Raul.

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Grupos brasileiros incluem tendências como a internet das coisas e o Big Data

Aprendizado

A vida do estudante de Ciência da Computação Yan Magalhães, 21, é um perfeito exemplo das histórias de crescimento pessoal que ocorrem em grupos de tecnologia. Antes de se envolver com a área, ele pensou até em ser jogador de futebol, mas as comunidades ajudaram-no a escrever uma nova história. Algo que, para ele, nem mesmo cursos formais teriam feito.

"Em qualquer área que você atue com tecnologia, o que você aprende hoje já estará ultrapassado amanhã."

Frustrado por ter investido em cursos pouco voltados para o mercado, ele decidiu aventurar-se em meetups de tech. "Graças a isso, consegui meu primeiro emprego na área", comemora. Hoje, ele realiza palestras e é um dos organizadores dos meetups do Google Development Group, em Belo Horizonte.

Professor universitário aos 29 e organizador do grupo paulistano Native Coders, Diego Carvalho endossa a tese de Yan. Para ele, grupos de tecnologia com hierarquia menos verticalizada têm se tornado, progressivamente, melhores ambientes de aprendizado.

"Hoje o Native Coders conta com palestrantes que foram meus ex-alunos", exemplifica. "Essa metodologia tem se tornado mais efetiva do que a sala de aula em um ambiente tradicional de ensino", diz.

Tales Pinheiro, desenvolvedor iOS e organizador dos grupos NSCoder Night e CocoaHeads, ressalta o clima de colaboração. "Vagas de trabalho são divulgadas, pessoas com interesses parecidos criam projetos e trocam dicas de como resolver problemas no trabalho", enumera.

'Novo sexy'

A analista de sistemas e mestranda Ana Paula Gomes, 27, organizadora do GDG-BH, destaca que o que ocorre no grupo é retrato do nosso tempo. "Hoje vivemos a era em que 'compartilhar é o novo sexy'. Quem compartilha sente bem-estar por ajudar os outros e quem aprende amplia possibilidades", diz Ana Paula. "Com isso temos mais empregos, mais projetos, mais ideias", acrescenta.

Essa solidariedade se estende a grupos com recortes sociais específicos, como os que promovem encontros de mulheres na tecnologia. É o caso do próprio GDG-BH, que realiza encontros com foco no público feminino, e da ONG Girls in Tech, cujos meetups têm Nayara Moia, 27, como uma das organizadoras.

Assim como Ana Paula, ela também destaca que os "hackers comunitários" e seus grupos simbolizam um novo tempo. "Esses grupos retratam uma nova era de empatia e pensamento coletivo", diz.

"Todos estão mais abertos a compartilhar seus conhecimentos, tempo e habilidades, tudo em troca de novas experiências. Cria-se uma rede de relacionamentos maior e positiva."

E nesse ambiente, belos casos como o de Yan se repetem por todas as partes. "Temos várias histórias legais nos grupos, desde uma empresa que se formou nos encontros; um garoto de 13 anos que programa bem e frequenta reuniões com o pai; até um casal que foi formado dentro do grupo!", conta o empresário Bruno Valente, CTO da Punch! e organizador do CocoaHeads Rio.

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Em sentido de leitura: Nayara, Ana Paula, Pedro e Yan

Apesar dos seus laços internacionais, esse movimento existente na comunidade tech brasileira tem no caráter local um dos seus pontos fortes.

"Esse movimento na criação de comunidades por gente local, e não empresas grandes com outros interesses, é fundamental para a engrenagem girar", diz o desenvolvedor Android Walmyr Carvalho, 25, coorganizador dos grupos Android Meetup RJ, CocoaHeads RJ, e Devbeers.

Para o professor Diego, do Native Coders, é preciso fortalecer os movimentos comunitários locais. "Em alguns contextos, o movimento comunitário existente nos grupos ainda é pouco efetivo. Temos medo que esta iniciativa se desvirtue e empresas procurem lucrar nas costas da comunidade", alerta.

Para Anderson Casimiro, coorganizador do PHPSP e CTO da Agrosmart, dar força à troca de experiências na vida real é uma forma de dar continuidade ao movimento.

"Apesar do conteúdo online ter proporções inimagináveis, o encontro presencial de interessados em tecnologia não pode ser substituído", afirma.

O perfil solidário e colaborativo dos hackers também é um ponto forte, como destaca Hudson Couto, 25, desenvolvedor Ruby e coorganizador do grupo RailsMG.

"As comunidades estão sempre de braços abertos para quem quiser, não importando seu nível de conhecimento."

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Hackers do CocoaHeads se reúne em meetup no Rio de Janeiro

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