OPINIÃO
23/02/2015 12:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Oscar 2015: 'o despertar para a consciência feminista é uma das coisas mais lindas que eu já vi'

Por mais difícil que a caminhada seja dentro do mundo machista e patriarcal, nós mulheres lutamos diariamente contra o machismo e celebramos pequenas vitórias no nosso cotidiano. A promoção no trabalho, o aumento salarial, a divisão justa de tarefas e da criação dos filhos, o direito sobre nossos próprios corpos, sobre nossas atitudes.

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Eu não ia escrever sobre isso, mas não podia deixar passar a oportunidade depois do que aconteceu. Patricia Arquette, com seu discurso no Oscar 2015, após ter sido premiada na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pela atuação em "Boyhood", me empoderou - e eu sei que fez isso com milhares de mulheres ao redor do mundo também. Depois de já ter falado anteriormente sobre o machismo em Hollywood e na indústria cinematográfica e sobre o sexismo que tende a refletir a objetificação das mulheres e o julgamento delas apenas pela aparência em outras esferas da sociedade, eu ontem vibrei e chorei ao ver o emocionante discurso de Arquette.

Ela, coincidentemente ou não, viveu uma mãe solteira no cinema, criando os filhos sozinha e com dificuldades. Um papel feminista no meio dos momentos machistas do filme, um respiro pra quem não aguenta mais conviver com esse sistema opressor e fica enjoada de ver a exaltação de um sistema que faz vítimas todos os dias. Qualquer semelhança da personagem com a história de mulheres reais, não é mera coincidência. A mulher que luta e batalha para criar seus filhos e conseguir uma vida melhor para eles poderia ser eu, poderia ser você, sua irmã, a sua colega de trabalho ou aquela mulher que pega o ônibus com você todos os dias. Pode inclusive ter sido a sua mãe - e talvez, tenha mesmo.

Ontem, ao subir no palco para receber o prêmio, ela dedicou sua vitória a "todas as mulheres que já deram a luz", dizendo que "é a vez de nós termos igualdade salarial e direitos iguais para todas as mulheres nos Estados Unidos da América". A atriz foi ovacionada pela plateia e pelas colegas Meryl Streep e Jennifer Lopez, que já viraram meme na internet com suas reações. Ela foi aplaudida e está sendo ovacionada também nas redes sociais, onde só se vê mulheres replicando o seu maravilhoso discurso, porque elas se sentiram empoderadas e representadas com ele.

Eu poderia falar mais uma vez o quanto representatividade é importante, que faltam mulheres em espaços importantes como o Oscar e na sociedade como um todo. Talvez para um homem, essa importância nunca fique suficientemente clara e eles nunca entendam o peso de um discurso desses em uma cerimônia transmitida ao vivo, principalmente quando o mundo tem seus olhos voltados para uma premiação tão importante como esta.

Mas eu queria falar especificamente do que eu vi acontecer nessa cerimônia. Não só por este maravilhoso momento que foi o discurso de Arquette, mas por também outros acontecimentos, posso dizer que esta edição do Oscar, apesar das reclamações e da falta de representatividade, teve alguns momentos feministas fundamentais e bem pontuados. No meio das entrevistas do tapete vermelho, atrizes levantaram suas vozes contra demonstrações de machismo. Cate Blanchett, Julianne Moore e Emma Stone se recusaram a exibir apenas seus caros vestidos, alegando que seus colegas homens recebem perguntas relacionadas à carreira e papeis no filmes, enquanto elas se limitam a responder perguntas machistas sobre aparência, cabelos, vestidos e dietas. A campanha encabeçada pelo grupo Representation Project lançou a hashtag #AskHerMore (Pergunte mais a ela) para pressionar a mídia a fazer perguntas menos machistas e mais inteligentes às mulheres das premiações.

E para os homens que menosprezam discursos como o de Arquette pedindo igualdade salarial, acredito que com suas contas bancárias gordas e mulheres ao seu redor ganhando mal, é bom refletir que Patrícia fez algo importante ontem: ela saiu do padrão "Obrigada à minha equipe, à mamãe e papai por este Oscar" e disse algo que ninguém esperava, nem mesmo nós mulheres, sinalizando que enxerga o problema, se importa e quer mudanças urgentes. Apesar das conquistas feministas ao longo dos anos, ainda falta muito chão a ser percorrido, já que homens recebem salários 30% maiores do que mulheres que executam as mesmas funções que eles.

Não é a primeira grande premiação que fala sobre feminismo. No VMA de 2014, Beyoncé mostrou um painel luminoso que pulsava com a palavra "FEMINISM" durante a apresentação da canção Flawless, cuja letra trazia a fala da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, falando sobre igualdade dos sexos. E isso, meus caros, não só significa uma maior disseminação do feminismo, como também uma maior consciência por parte das mulheres que querem sim todos os seus direitos e não vão se calar com a falta deles. Mudando o foco de premiações, tivemos mulheres impondo mudanças na publicidade, quando uma importante marca de cerveja lançou uma campanha desrespeitosa fazendo apologia ao assédio e estupro. Teve protesto nas redes sociais, teve demissão dos culpados, teve retirada da campanha das ruas. Eu vivi para ver uma marca de cerveja, constantemente culpada por objetificar mulheres em suas propagandas e peças publicitárias, fazendo uma retratação pública e tomando as devidas providências para corrigir seus erros.

Posso sentir o chão tremer cada vez que vejo manifestações feministas de pequeno ou grande porte, de mulheres empoderadas, reafirmando seu poder e dando voz a outras mulheres, como uma corrente de consciência de que nosso tempo está chegando, cada dia mais. Nós fazemos barulho, e muito. Meu coração se enche de esperança e de alegria por ver a força que as mulheres tem, mesmo quando não sabem disso. O despertar para a consciência feminista é uma das coisas mais lindas que eu já vi na minha vida, e cada um deles é muito único e especial. Por mais difícil que a caminhada seja dentro do mundo machista e patriarcal, nós mulheres lutamos diariamente contra o machismo e celebramos pequenas vitórias no nosso cotidiano. A promoção no trabalho, o aumento salarial, a divisão justa de tarefas e da criação dos filhos, o direito sobre nossos próprios corpos, sobre nossas atitudes.

O tremer do chão que eu posso sentir é o medo dos homens, que hoje vêem mulheres exigindo seus direitos, gritando nas ruas, nas redes sociais, não abaixando a cabeça quando ouvem um "não", ou quando são silenciadas. Isso é empoderamento feminino, isso é coletivo. Vai ter feminismo no Oscar, vai ter feminismo no VMA, vai ter feminismo no seu trabalho, e se reclamar, vai ter dentro da sua casa também.

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