OPINIÃO
17/11/2015 12:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Meu Batom Não Me Define (e a minha cara também não)

Não é sobre ser puta ou não ser puta; é sobre a sociedade inteira continuar se baseando em cima de tachações de homens que nos colocam como inferiores sendo puta ou não, sendo santa ou não, sendo pra casar ou não.

Reprodução/YouTube

Com certa frequência, vemos machismo, misoginia e preconceito explícitos em episódios da televisão aberta, em rede nacional. A última da vez foi Jô Sores entrevistando a vlogueira Julia Tolezano, do canal JoutJout Prazer no YouTube -- a jornalista de 24 anos acabou viralizando recentemente ao compartilhar suas opiniões sobre situações do cotidiano em seu canal.

Durante a entrevista, Jô faz diversas perguntas aleatórias, até que num determinado momento, acaba puxando assunto sobre um dos mais famosos vídeos de Julia, o "Não tira o batom vermelho": "Mas todos dizem que a moça tem 'cara de puta'? Mas não tem nenhuma que esteja realmente com 'cara de puta'?", questiona o apresentador.

Vamos combinar que "cara de puta" é um conceito misógino e que esse reforço de estereótipo não é engraçado?

Posted by Empodere Duas Mulheres on Friday, November 13, 2015

Julia, visivelmente incomodada e desconfortável com a situação, responde:

"O que é 'cara de puta', não é mesmo? Você olha para a cara da mulher e diz: 'Essa daí ganha um dinheiro para transar'. Você não fala isso, eu acho, né? Não sei se tem essa cara."

"A pessoa não precisa ser puta para ter cara de puta", continua Jô. "Então, mas qual é a cara da puta?", ela pergunta.

"Aliás, ao contrário: a boa puta não tem cara de puta. Não é verdade?", ele responde.

"Vai do gosto de cada um, né?", rebate Julia.

"Mas não é legal para a profissão sair toda fantasiada de puta. Não é mesmo", conclui o apresentador.

Depois disso, a plateia riu e Julia finaliza: "É, não sei".

Primeiro: Vamos combinar que "cara de puta" é um conceito misógino e que esse reforço de estereótipo não é engraçado?

"Fantasia de puta" e "cara de puta" não são piadas, não era pra ser engraçado, mas as pessoas riram.

Mas não tem nada de engraçado ou perspicaz nesse tipo de colocação, que só vem carregada de machismo e de preconceitos de uma sociedade que subjuga mulheres desde que o mundo é mundo.

Afinal, "puta" é usado com um tom sempre pejorativo quando usado para se referir a mulheres. E ah, é um conceito que é usado apenas para elas.

O que na verdade tem uma carga muito ruim e negativa mesmo é o fato de continuarem estereotipando mulheres, nos tachando de puta ou não-puta.

Acabamos ficando sempre dentro dessa roda de misoginia que nos baseia e nos reduz a condições criadas por homens machistas que querem que nossa existência seja reduzida a isso.

Não é sobre ser puta ou não ser puta; é sobre a sociedade inteira continuar se baseando em cima de tachações de homens que nos colocam como inferiores sendo puta ou não, sendo santa ou não, sendo pra casar ou não.

Somos sempre subjugadas e associadas a esses conceitos, não importa qual seja.

A redução a eles é onde mora o problema. Nem eu nem mulher nenhuma é um estereótipo, uma tachação.

E não merecemos uma etiqueta cujo responsável por determinar seu conceito seja o homem.

Vivemos numa sociedade que cria estereótipos de mulheres que ou "são pra casar" ou "são putas". Que nos classificam através da forma como agimos, como nos vestimos, como tomamos nossas decisões, como vivemos nossas próprias vidas. Meu batom, minha roupa, minhas escolhas não me classificam como mais ou menos digna. Que a sociedade pare de estereotipar mulheres, que pare de usar "puta" como um termo pejorativo, que pare de usar xingamentos misóginos para reduzir nossa existência. Puta, louca, vadia... não é sobre ser uma ou não, mas sim sobre lutar contra uma classificação misógina baseada no olhar dos homens sobre a forma como nos comportamos ou seguimos nossas vidas. #MeuBatomNãoMeDefine

Posted by Empodere Duas Mulheres on Friday, November 13, 2015

Vivemos numa sociedade que cria estereótipos de mulheres que ou "são pra casar" ou "são putas". Que nos classificam por meio da forma como agimos, como nos vestimos, como tomamos nossas decisões, como vivemos nossas próprias vidas.

Meu batom, minha roupa, minhas escolhas não me classificam como mais ou menos digna.

Que a sociedade pare de estereotipar mulheres, que pare de usar "puta" como um termo pejorativo, que pare de usar xingamentos misóginos para reduzir nossa existência.

Eu não tenho cara de puta porque quem determinou o que é ser puta ou não foram homens. Homens que viram pra mim e falam que sou puta porque usei saia curta, ou porque usei batom vermelho, ou porque transei antes do casamento.‪

Homens que reduzem a minha existência a objeto, homens que assediam, homens que são os agentes de manutenção de um sistema que violenta e mata mulheres.

Puta, louca, vadia... não é sobre ser uma ou não, mas sim sobre lutar contra uma classificação misógina baseada no olhar desses homens sobre a forma que eles nos veem, sobre a forma como nos comportamos ou seguimos nossas vidas.

#‎MeuBatomNãoMeDefine‬

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