OPINIÃO
19/02/2015 16:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Machismo e Hollywood

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As opiniões a seguir não são dotadas de imparcialidade. Este texto contém spoilers de filmes.

Antes de começar, eu gostaria de contar uma história. Eu trabalho com cinema, e sempre quis ser uma grande diretora. Mas com o tempo e experiência, descobri em mim uma paixão com a direção de fotografia, e decidi seguir a área. E desde então, comecei a estudar, praticar, fui assistente de diretores de fotografia. Em grandes produções, era sempre a segunda assistente, nunca a primeira. E direção de fotografia é um trabalho que é dominado (mais de 95%) por homens. Muito antes de eu pensar em feminismo, lembro de ter conversado com um professor de fotografia da faculdade, durante um intervalo. Eu, cheia de sonhos, vontades e um mundo fotográfico para desbravar, contei dos meus desejos e ouvi que "eu não poderia usar shorts, saia ou calça legging dentro do set, ou então a equipe de fotografia e maquinária não ia me respeitar". Por quê? "Ora, vão olhar pra sua bunda, fazer piadinhas". Eu sabia que essas equipes eram compostas em sua maioria por homens, mas nunca imaginei que pelo fato de eu ser mulher, fosse enfrentar grandes barreiras no quesito profissional - ingenuidade a minha. E ainda ouvi que muitos diretores poderiam se aproveitar de mim, tentando oferecer trabalho em troca de outros favores. Posso dizer que na hora eu fiquei bem assustada. Até que eu fui trabalhar na área e, futuramente, encontrei o feminismo.

Voltando para o presente. Eu estive muito por fora do circuito de cinema nos últimos meses. 2014 pra mim foi um ano bem complicado: TCC, trabalho e projetos acabaram me deixando por fora dos lançamentos das telonas, coisa que eu, integrante da indústria audiovisual e cinematográfica não costumo deixar acontecer. Durante uma época, eu escrevi críticas de filmes e me divertia indo nas cabines de imprensa, porque eu era paga pra isso. Mas essa falta de tempo nos últimos meses compreendeu um certo buraco (ou melhor, abismo) entre um período que eu não tinha descoberto o feminismo ainda (insira o abismo aqui) e um tempo em que eu era "feminista demais" - no caso, hoje. E eu posso dizer que agora eu enxergo muitas coisas que eu antes não via.

Pois bem. Antes da cerimônia do Oscar 2015, aproveitei o feriado para me atualizar dos filmes todos e peguei a lista oficial das indicações. Deixo claro que a última vez que eu fiz isso, foi como alguém que não sabia nada sobre feminismo. E hoje, eu me tornei uma pessoa "chata" que problematiza tudo. Peguei a tal lista e assisti todos os indicados na categoria de Melhor Filme.

Dos oito filmes indicados, sete são protagonizados por personagens homens cisgêneros e brancos - apenas um deles é interpretado por um homem cis negro. Quatro deles são filmes biográficos, de homens cisgêneros importantes para a história da humanidade. Vi um vídeo no YouTube que fazia um levantamento: desde 2010, 150 cinebiografias foram feitas. Só 25% são baseadas na vida de mulheres. Desse número, apenas 25% são histórias de mulheres que marcaram a história. O resto, são cinebiografias de mulheres com traumas, doenças, problemas familiares ou se encontra em uma jornada de autoconhecimento. Inclusive, para este último caso, temos este ano um representante: "Livre", com a melhor atuação indicada para Reese Witherspoon. E sobrando com os 75% restantes dessa pesquisa, filmes de homens que mudaram o mundo.

Ainda nas listas. Na categoria de melhor atriz (que deveria eleger as melhores atrizes principais de um filme), temos Felicity Jones que interpreta a esposa de Stephen Hawking em "A teoria de tudo", como a mulher que ficou ao lado dele o tempo todo durante o desenvolvimento de sua doença, ofuscada pela grandeza e inteligência do marido, que tinha um temperamento um tanto quanto "difícil". Rosamund Pike em "Garota Exemplar", interpretando o papel que a sociedade enxerga a mulher, como louca, dissimulada, capaz de forjar o próprio estupro e sendo uma megera que faz de tudo para acabar com a vida do próprio e inocente marido, uma dose louca de gaslighting.

Reese Witherspoon em "Livre", uma feminista que parte em uma jornada incrível e grandiosa de... descobertas pessoais. Marion Cotillard em "Dois Dias, Uma Noite" é uma mulher que perde seu emprego porque a equipe preferiu ganhar um bônus do que mantê-la na equipe, e ela luta para ter seu espaço e emprego de volta. Julianne Moore em "Para Sempre Alice" é uma conceituada doutora que adoece por conta do Alzheimer, e vê suas relações pessoais serem desfeitas. A única mulher que está representada em um dos Melhores Filmes é Felicity Jones - a mulher de Stephen Hawking, a mulher por trás do "grande homem", e nunca o contrário, sendo que ela é a pessoa que segurou a barra toda no processo da doença do marido. Sem mulheres consideradas fortes o suficiente para protagonizarem, apenas servirem de muletas. Sem contar que mulheres protagonistas sempre passam por dramas pessoais, são histórias que atingem a vida delas, e a de mais ninguém. Já os homens mudam a história da humanidade, são sempre histórias grandiosas. Homens se destacam por suas profissões; as mulheres, por suas famílias, casamentos e vidas. Protagonistas mulheres estão cada vez mais escassas, enquanto vemos multiplicar vertiginosamente o protagonismo masculino nos filmes.

Um adendo: fora da lista de filmes indicados, temos "Grandes Olhos" de Tim Burton, que conta a história de Margaret Ulbrich, uma pintora que vê seu marido Walter Keane tomar publicamente a autoria por todas as suas obras. É um filme bem agonizante que mostra um relacionamento abusivo, onde ela se deixou levar por muito tempo nesta situação de ter suas obras creditadas pelo marido, por conta da sua insegurança pessoal. Amy Adams, que é uma protagonista majestosa que segurou muito bem o papel, não ganhou indicações. Voltemos para a lista de indicações.

Passei meus olhos pelos principais prêmios. Melhor direção, roteiro original, roteiro adaptado, direção de fotografia, edição. Bem, direção e edição temos duas mulheres, Ava DuVernay por "Selma" e Sandra Adair por "Boyhood", respectivamente. Mas de resto, nenhuma. Não só os filmes são carentes de protagonistas mulheres, mas as grandes funções dentro dos filmes e indicações também. E essa falta de representatividade, mata. Não preciso nem dizer que todas as mulheres indicadas são brancas, o que traz a questão da falta de representatividade da mulher negra. "Selma", a cinebiografia de Martin Luther King, traz personagens negros no enredo, mas nenhum foi indicado a nada. A diretora, mulher negra, não foi indicada. Pois bem.

Fui conversar sobre isso com um amigo muito querido, crítico de cinema. Expliquei meu ponto e minhas observações quanto ao machismo e a falta de representatividade de minorias no Oscar. Ele me perguntou se eu achava que a premiação precisava de cotas. Só o fato de ter que pensar que isso seria necessário pra inclusão, já me faz entender quanta desigualdade existe aí. É óbvio que o Oscar premia os filmes mais importantes daquele ano, e eu nunca discuti isso. E você pode até querer argumentar que "mulheres não fizeram filmes bons esse ano". Mas onde estão essas mulheres? Onde estão as mulheres incentivadas a serem grandes diretoras, a serem grandes roteiristas, a serem grandes diretoras de fotografia (eu grito aqui nesse momento)? Quando o produtor executivo vai escolher a equipe que vai integrar o filme, por que ele não pensa em uma mulher? Por que não escolhe, de uma cartela imensa de diretores, uma mulher? Você pode também argumentar que não exista uma mulher no mesmo calibre de Clint Eastwood, com o mesmo currículo, com a mesma experiência, ou com o mesmo estilo dele. E Clint Eastwood é um grande diretor fodão de Hollywood. Então eu te pergunto: quantas mulheres tiveram as mesmas oportunidades que Clint Eastwood? Quantas delas nem sequer foram cogitadas pelo simples fato de serem mulheres? Ou você acha que se uma mulher não tivesse as mesmas oportunidades que Clint Eastwood teve ao longo da vida, ela não seria tão ou mais capaz de realizar o mesmo trabalho que ele? E olha, eu falo isso com conhecimento de causa, como mulher e como pessoa que trabalha na área. E eu vejo e sinto o machismo gritando, cada vez que duvidam da minha capacidade artística. E isso me mata cada dia um pouquinho. E sei que mata outras mulheres, em diferentes profissões e espaços. A representatividade importa.

O que eu teria que fazer como homem pra provar meu trabalho, tenho que fazer duas vezes por ser mulher. Enquanto algumas são colocadas na produção, direção de arte e figurinos dos longas, outras funções que mulheres como eu vislumbram são lugares aparentemente dificílimos de se estar. Vou falar no sentido bem grosseiro das funções aqui. Eu não gosto de direção de arte, só porque alguém pressupõe que eu vá gostar mais de arte e decoração por ser mulher. Eu não gosto de figurino só porque acham que mulheres têm a "delicadeza" e o "feeling" pra escolher roupas e levamos mais jeito com cores e tecidos. Eu não quero ser maquiadora só porque eu lido com maquiagem na minha rotina. Eu quero ser a pessoa que opera a câmera de 30 quilos, e como qualquer ser humano, precise de uma certa preparação física pra isso, porque 30 quilos no ombro durante muitas horas tende a ser um trabalho que gera consequências físicas pra coluna, costas e braços. Não porque eu sou mulher, mas porque eu sou humana. Eu quero ter as mesmas chances que um homem, mas eu não tenho. É meio que a jornada da Mulan para salvar a China. O quanto ela precisou se esforçar para se equiparar a todos os homens, porque enquanto ninguém sabia que ela era uma mulher disfarçada no exército chinês, tava tudo bem, e ela desempenhava suas funções com maestria sem abaixar a cabeça. Parece besteira, mas não é.

A indústria de Hollywood e do cinema são apenas reflexos da nossa sociedade machista e patriarcal. E se tem uma coisa que eu quero concluir com isso tudo, é que representatividade importa, e muito. Importa porque dá esperança de mudanças reais. Importa porque faz outras mulheres enxergarem que é possível sim ser indicada ao Oscar como diretora. Importa porque mostra que protagonistas mulheres podem ser tão fortes quanto os homens, e sustentar o enredo inteiro em suas costas. Importa porque mostra que mulheres também mudam o mundo. Importa porque inclui minorias em espaços onde elas não se reconhecem, não se enxergam. Importa, porque é o mantra diário pra quem precisa ouvir todos os dias que não vai conseguir fazer alguma coisa porque é mulher. E abrir esse caminho para as futuras gerações, seja de cineastas, de CEOs, de empresárias, de engenheiras, de motoristas de ônibus ou de donas de seus próprios negócios, mostrando que minorias podem sim ocupar espaços importantes, é fundamental. Se as pessoas acham que o que os homens fazem é universal e o que as mulheres fazem é particular, a compreensão de que o contrário disso também é possível é urgente e necessária. O machismo tentou nos apagar e nos oprimir, mas a história e a sociedade também são feitas por mulheres.