OPINIÃO
17/02/2018 08:59 -02 | Atualizado 17/02/2018 08:59 -02

Bruna Marquezine e a alienação sobre a perfeição do corpo feminino

É certo que seremos sempre julgadas caso estejamos fora destes padrões inalcançáveis ou irreais.

Nos últimos dias, o que parecia impossível frente a minha humana ingenuidade (e entendimento) aconteceu: Bruna Marquezine, um dos grandes ícones brasileiros de beleza, recebeu diversas críticas na internet depois de postar uma imagem de seu look em seu Instagram, enquanto comemorava o Carnaval. Ela estava usando um sutiã que evidenciava nada mais do que o formato natural de seus seios, o que infelizmente causou uma repercussão negativa nas redes, mostrando o quão urgente é a discussão sobre o padrão de beleza que a mulher sofre.

Sabe, Bruna, você não me conhece, mas eu vi a sua foto e me reconheci nela. Não temos o mesmo corpo ou mesmo biotipo, tampouco temos uma vida parecida, mas os meus seios também são naturais como os seus. Eles não apontam para o alto ou são perfeitamente circulares ou milimetricamente redondos, como a sociedade talvez esperasse que eles fossem.

Eu na verdade não saberia exatamente qual forma eles tem porque, sabe, eles não são simétricos. Talvez eu precisasse de mais de uma definição para conseguir explicá-los. Mas eu não preciso explicar o meu corpo pra ninguém, na verdade. E nem você precisa.

Acho que a sociedade acabou se perdendo demais em imagens completamente retocadas ou corpos que beiram a "perfeição", seja com procedimentos estéticos, digitais ou cirúrgicos. Os cirurgiões plásticos são cada vez mais precisos, assim como o Photoshop.

Vemos a mídia representando mulheres com formas que certamente não fazem parte da realidade de mais de 99% das mulheres ao redor do mundo e, mesmo assim, almejamos a perfeição que nunca vai chegar. A propaganda, mídia e até mesmo a pornografia representam as mulheres de uma maneira absolutamente não condizente com a realidade de quem nós somos.

É certo que seremos sempre julgadas caso estejamos fora destes padrões inalcançáveis ou irreais, porque as pessoas se esqueceram como seios ou corpos naturais são, por mais que essas mesmas pessoas que nos criticam tenham um corpo e saibam como ele é quando se olham todos os dias no espelho.

Bruna Marquezine e os seis reais e naturais

Bruna, eu sei que você não sabe disso, mas ao mostrar seus seios naturais, ajudou muitas mulheres a se olharem no espelho com outros olhos para os seus próprios seios. Seios reais que, por razões óbvias (e físicas), são parte da nossa constituição biológica e que não foram feitos para serem julgados ou criticados e que sim, rendem-se à lei da gravidade, assim como toda e qualquer outra coisa que pertence a este planeta.

O corpo da mulher não é e nunca será público, apesar de a sociedade misógina estar sempre tentando nos convencer do contrário. O corpo da mulher pertence somente a ela, e ela faz com ele o que bem entender.

Eu quero gritar isto para o mundo ouvir: O CORPO DA MULHER NÃO É PÚBLICO, e se você só tem coisas negativas a dizer a respeito de um corpo alheio, não se manifeste. Fazer comentários ruins sobre o corpo de alguém é completamente desnecessário. Não é o seu corpo, não muda a sua vida, não te afeta e, principalmente, não é da sua conta.

Hoje, depois de anos tentando aceitar os meus seios naturais, eu talvez tenha entendido que este processo é algo extremamente pessoal, porque a sociedade não está pronta para mulheres que se aceitam como são ou não fazem de tudo para se encaixar dentro de um padrão. Hoje eu percebo que o meu padrão sou eu mesma, e os meus seios são únicos no mundo. Eu também recentemente parei de usar sutiã com bojo, porque meus seios nunca foram tão grandes a ponto de precisarem de sustentação, e eu não mais me reconhecia com "enchimentos" que os faziam parecer maiores do que eles eram.

Bruna, você nos mostrou que seios reais são possíveis e que, infelizmente, seremos julgadas por nossos corpos, mesmo quando ainda assim estivermos encaixadas em certos padrões. Eu hoje me olhei diferente no espelho — e preciso te agradecer por isso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.