OPINIÃO
20/03/2014 09:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Excelência científica no feminino

Tive muitas vezes a oportunidade de dizer que, como mulher, nunca me senti freada na carreira científica que segui no Brasil. Mas, infelizmente, essa não é a regra. Cerca de 45 anos depois, as mulheres cientistas ainda são objeto de discriminação na maioria dos países.

No ano passado, na primeira aula de um curso de genética dado para estudantes de medicina, antes mesmo que eu tivesse aberto a boca, uma bela garota de 18 anos sentada em uma das primeiras fileiras levantou a mão e tomou a palavra: "É verdade que a senhora ganhou o prêmio L'Oréal-Unesco para as Mulheres e a Ciência?" Sim, respondi, sorrindo. "Eu também quero ganhar esse prêmio", ela disse em seguida. Sua resposta me deixou feliz. Era o sinal de que o prêmio cumpre pouco a pouco sua razão de ser: estimular vocações científicas entre as jovens.

A Dupla Hélice, escrito por James Watson em 1968, foi recentemente traduzido para o português (fui convidada a me exprimir na época de seu lançamento nas colunas da Folha de S. Paulo). No fim da obra, Watson reconhece a contribuição fundamental de Rosalind Franklin para a descoberta da estrutura do DNA. Ele conta que seu grupo (os pesquisadores homens que ganharam o prêmio Nobel depois dessa descoberta) só percebeu anos depois a batalha que essa mulher inteligente teve de travar para ser aceita no meio científico, que costuma considerar as mulheres simples derivativos em uma reflexão séria.

Por sorte as coisas mudam. Tive muitas vezes a oportunidade de dizer que, como mulher, nunca me senti freada na carreira científica que segui no Brasil. Mas, infelizmente, essa não é a regra. Cerca de 45 anos depois, as mulheres cientistas ainda são objeto de discriminação na maioria dos países. É o motivo pelo qual os prêmios L'Oréal-Unesco, hoje em seu 16º ano, se revestem de tal importância. Reforçar o papel das mulheres na ciência e mostrar ao grande público os progressos alcançados pelo conhecimento científico graças a seus trabalhos certamente permitirá suscitar um maior número de vocações científicas entre as jovens.

Estou convencida de que essa formidável iniciativa, pouco a pouco, dá seus frutos. Como antiga premiada (para a América Latina em 2001) e hoje membro do júri, posso testemunhar que o número de candidatas talentosas torna o trabalho de seleção cada vez mais difícil. Salientemos também que neste ano as candidatas eram realmente jovens (cerca de 40 anos ou pouco menos). Mas quem são essas mulheres excepcionais que ganharam o prêmio L'Oréal-Unesco para as Mulheres e a Ciência nesta 16ª edição?

Segenet Kelemu, pela África e os países árabes, descobriu cogumelos e bactérias que vivem em plantas forrageiras tropicais essenciais para a população e contribuiu para esclarecer o papel desses microorganismos no crescimento dos vegetais e sua adaptação ao meio ambiente. Seus trabalhos contribuíram para melhorar o rendimento da erva, permitindo que os agricultores escolham espécies forrageiras que oferecem a melhor produtividade e têm maior resistência aos agentes patogênicos, uma questão absolutamente primordial nos países tropicais e subtropicais.

Laurie Glimcher, dos Estados Unidos, descobriu fatores chaves que controlam a resposta imunológica nas doenças alérgicas e autoimunes, abrindo caminho para novos tratamentos. A diabetes infantil, a poliartrite reumatoide, a esclerose em placas são exemplos de patologias nas quais o sistema imunológico ataca nossos próprios tecidos como se fossem corpos "inimigos" estranhos. Inútil falar sobre a importância de tratar essas doenças muito conhecidas por todos nós.

Cecilia Bouzat, da Argentina, é a mais jovem premiada em 2014. Ela havia recebido uma bolsa L'Oréal em 2007 e hoje colhe os frutos. Seus trabalhos tentam esclarecer os modos de comunicação entre as células do cérebro e entre estas e as dos músculos. Essas pesquisas contribuirão para o avanço de nosso conhecimento sobre os mecanismos que atuam na origem de problemas neuromusculares e neurológicos, como a doença de Alzheimer e a depressão.

Kayo Inaba, do Japão, também escolheu o sistema imunológico como objeto de estudo. Mas, à diferença de Laurie Glimcher, seu objetivo era compreender e depois estimular a reação imunológica contra células anormais, como as cancerosas. Seus trabalhos levaram à descoberta de um novo tratamento para o câncer. Kayo Inaba afirmou que sentiu grandes dificuldades, como mulher cientista, para evoluir em um universo essencialmente masculino e que teve de redobrar esforços para ser reconhecida.

Na França, Brigitte Kieffer foi recompensada pelos progressos alcançados no conhecimento dos mecanismos do cérebro que intervêm no controle da dor. Ela descobriu a proteína receptora do cérebro que permite que drogas como a morfina, a heroína e outras substâncias exerçam um efeito analgésico, mas também criem uma dependência. Seus trabalhos fizeram surgir novos campos de pesquisa para o aperfeiçoamento de medicamentos analgésicos e o tratamento de diversos distúrbios emocionais.

O que essas mulheres admiráveis têm em comum?

Elas são movidas por uma paixão e desejam comunicá-la às jovens estudantes para incitá-las a também abraçar o formidável universo das ciências, onde o questionamento, a curiosidade e a busca de respostas são o sal de nossa existência. Ao divulgar essas mulheres apaixonadas pela ciência, o prêmio L'Oréal-Unesco abre novas vias de comunicação, que incitarão um número crescente de jovens mulheres a envolver-se no universo prodigioso da ciência. Os germes semeados em 16 anos começam a dar seus frutos. Creio firmemente que ao longo dos anos esse prêmio terá efeitos cada vez mais palpáveis, em particular nos países em desenvolvimento ou nos países de cultura masculina, onde as mulheres cientistas continuam sendo alvo de discriminações.

(Texto publicado originalmente em inglês no site DiscovHer)