OPINIÃO
29/06/2014 16:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Confraternização nas arquibancadas de Colômbia e Uruguai

Mauro Segura

Entro no Maracanã exatamente quando o juiz apita o final da prorrogação entre Brasil e Chile. Subo a rampa e encontro um mar de torcedores acompanhando o jogo pelos telões e as inúmeras TVs localizadas dentro do estádio. A aglomeração é grande. Todos nervosos, angustiados. Brasileiros, uruguaios e colombianos estão atentos ao que se passa nas telas. O final todos já sabem, na disputa por pênaltis o Brasil vence e se classifica para as quartas de final da Copa do Mundo. Brasileiros comemoram aliviados.

O Maraca está muito mais amarelo do que azul para o jogo Colômbia e Uruguai. Confesso que as camisas canarinho dos brasileiros ajudam muito, mas é evidente que no estádio existem muito mais colombianos presentes do que os irmãos do Rio da Plata. A excitação é grande e os colombianos demonstram muita confiança e alegria.

Meia hora antes da partida, ao meu lado, na saída do túnel para o anel interno do estádio, uma gordita torcedora da Colômbia dança alucinadamente. Se aproxima um latino com um boné na cabeça que tem uma câmera presa na aba, ele veste a camisa do time dos Estados Unidos e uma mochila dizendo "Seleccion Nacional Guatemala". Tira o boné e se filma. Pensei: "Deve ser guatemalteco". Minutos depois chega um gringo com a camisa verde da Alemanha de 2013, do craque Schweinsteiger e fica do lado dele. O possível guatemalteco olha várias vezes para a bunda do gringo. "O que está se passando aqui?", pensei eu. Chega perto de nós um super herói colombiano, de máscara e capa, uma figuraça. Todos querem tirar foto com ele. Se encosta um possível brasileiro de camisa da seleção brasileira com uma peruca de canarinho. Pronto, o trio está formado. Tiro uma foto para registrar as peças. O cara sentado na cadeira atrás diz que time que tem super herói não perde e afirma que a vitória da Colômbia está garantida.

Os brasileiros presentes no Maraca adotam os colombianos. A torcida colombiana se multiplica. São poucas as manchas azuis no anel amarelo do estádio. Torcedores uruguaios aparecerem com máscaras do jogador mordedor Luiz Suarez, parecem gritar, mas são abafados pelos compatriotas da Shakira.

Minutos antes dos hinos, chega um uruguaio solitário e senta perto de mim. Entre eu e ele, apenas uma cadeira ainda vaga. Ele veste a camisa celeste e tem uma bandeira do seu país querido em mãos. Antes do jogo começar ele rói as unhas. O hino é cantado forte pelos colombianos. Na hora do hino do Uruguai o torcedor do meu lado canta forte, sério, com a mão no coração. Ele realmente veio sozinho ao estádio.

O jogo começa. Cantoria enorme da alegre torcida colombiana. Quinze minutos de jogo, um torcedor colombiano com a camisa de sua seleção chega perto e me pergunta se a cadeira ao meu lado está vazia. Respondo com um aceno de cabeça que sim. Ele se senta entre eu e o uruguaio, tem um chapéu na cabeça. O uruguaio olha o colombiano de cima para baixo e continua sério.

Aos 28 minutos de jogo, o Neymar colombiano, o camisa 10 James Rodriguez, recebe um passe no alto, está de costas para o gol, fora da grande área. Ele mata a bola no peito, vira o corpo e, sem deixar a bola tocar no chão, dispara um lindíssimo chute de esquerda. A bola sobe, desce, toca o travessão e entra no gol. Acho que foi gol mais bonito da Copa até agora. Um golaço. O estádio vem abaixo. Parece um sonho. A torcida canta "Olê, olê, olê, olá, Colômbia vamos ganhar". O estádio enlouquece. O torcedor colombiano vira para o uruguaio e diz que James Rodriguez é o craque da Copa. O uruguaio concorda com a cabeça e diz que Cavani não está jogando bem. Minutos se passam e o uruguaio fala que o time da Colômbia é o melhor da Copa, mas que o Uruguai vai virar o jogo. E sorri um sorriso contido, de quem não está convencido do que está falando.

Termina o primeiro tempo. O movimento é enorme e todos se levantam das cadeiras. Os dois continuam sentados, conversando mais do que nunca. Me agrada muito ver dois adversários conversando, aparentando interesse de um pelo outro, se conheceram ali naquele momento. Peço para tirar uma foto. O uruguaio pede para o colombiano segurar a bandeira do Uruguai como um regalo para ele. Os dois sorriem e click!

O jogo começa. Aos quatro minutos, de novo ele, James Rodriguez, faz o segundo gol da Colômbia. Festa no estádio. A virada do Uruguai parece impossível. Meus vizinhos de cadeira estão em silêncio. O uruguaio desolado se justifica, mas o colombiano parece contido em respeito ao novo amigo. A torcida canta sem parar. Aos trinta e cinco minutos o uruguaio dobra a sua bandeira e coloca na mochila. Aos quarenta minutos ele se despe da camisa da seleção uruguaia e veste uma camisa comum. Ele se vira para o amigo colombiano e diz: "Se foi". E complemento no meu pensamento: "Se foi a Copa". Os dois se abraçam, trocam sorrisos e um aperto de mão. Antes do apito final o uruguaio deseja "buena suerte", levanta-se e vai embora. Um minuto depois a partida termina. O colombiano grita alucinado dizendo que aquele era o dia mais feliz de sua vida. Coisas da Copa.

2014-06-29-IMG_4399.JPG

2014-06-29-IMG_8563.JPG

2014-06-29-IMG_8564.JPG

2014-06-29-IMG_8568.JPG

2014-06-29-IMG_8599.JPG

2014-06-29-IMG_8618.JPG

2014-06-29-IMG_8623.JPG

2014-06-29-IMG_8649.JPG

2014-06-29-IMG_8706.JPG