OPINIÃO
13/06/2014 16:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Juízes de futebol favorecem o time da casa?

É quase consensual que o juiz favoreceu o Brasil no jogo contra a Croácia. Mas será que isso foi algo localizado, ou há uma tendência geral de juízes de futebol favorecerem a equipe mandante?

MURILLO CONSTANTINO/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

É quase consensual que o juiz favoreceu o Brasil no jogo contra a Croácia. Hoje de manhã (13/06) vi um monte de gente dizendo que o árbitro japonês foi caseiro, ou seja, beneficiou o time da casa. Mas será que isso foi algo localizado, ou há uma tendência geral de juízes de futebol favorecerem a equipe mandante?

Na verdade, há produção acadêmica em economia buscando responder a essa pergunta. Em geral, a motivação vem da "Economia Comportamental" - o futebol seria apenas uma situação específica utilizada para estudar como as pessoas reagem quando estão sob pressão. Conheço dois artigos empíricos sobre o assunto, que estimam decisões de árbitros como função do número de torcedores no estádio.

O primeiro deles é mais antigo e melhor (Garicano, Palacios-Huerta & Prendergast, Review of Economics and Statistics, 2005). Os autores analisam dados do tempo extra concedido pelo juiz ao fim do segundo tempo, em partidas do Campeonato Espanhol. Encontram que, quando o time da casa está perdendo por 1 gol de diferença aos 45 minutos do segundo tempo, o tempo extra tende a ser significativamente maior. A ideia é que, com isso, o árbitro beneficia o time da casa, elevando a chance da partida terminar empatada. O inverso também vale: quando o time da casa está vencendo por 1 gol de diferença, o tempo extra médio tende a ser mais baixo. Nesse caso, há menos chance do resultado (vitória do mandante) ser revertido.

Mais importante: esses efeitos são mais fortes quanto maior o público presente no estádio. Ou seja, quanto maior a pressão da torcida, mais o árbitro favorece o time da casa por meio do tempo extra.

O interessante é que os autores não encontram esse efeito quando há diferença de dois ou mais gols ao fim da partida (nesses casos, o tempo extra pouco contribui para mudar o resultado do jogo). E o efeito não aparece também no tempo extra concedido ao fim do primeiro tempo, como esperado.

O outro artigo avalia uma situação particular que ocorreu no Campeonato Italiano (Pettersson-Lidbom & Priks, Economics Letters, 2010). Em 2007, uma briga feia entre torcedores de Catania e Palermo fez com que as autoridades determinassem que partidas seriam jogadas com portões fechados (sem público), caso não houvesse condições mínimas de segurança. Os autores utilizam essa situação para avaliar o efeito da pressão da torcida sobre o comportamento dos árbitros.

Para tanto, eles fazem um dif-in-dif: avaliam a diferença entre o número de faltas (e cartões) dadas em favor do time da casa e em favor do time de fora, tanto para jogos com torcida como para jogos sem torcida. E depois computam a diferença entre essas duas diferenças, o que seria o efeito da torcida no número relativo de faltas e cartões. Os autores encontram resultados fortes: a presença da torcida está associada a um aumento médio de 23% no número de faltas dadas contra o time visitante (relativamente ao mandante). Os efeitos estimados para cartões são ainda mais elevados, porém menos robustos em termos de significância estatística.

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