OPINIÃO
24/03/2014 16:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Uma caminhada até o outro lado do rio. A coxinha e uma regressão proustiana sobre os obstáculos históricos de São Paulo

Talvez tenha sido a coxinha deliciosa que despertou um processo de regressão proustiana, mas nos demos conta que as barreiras e obstáculos do nosso trajeto contavam algumas das decisões da história da cidade.

Num sábado desses, um amigo precisava ir até a Mooca e resolvemos ir a pé, para aproveitar o dia. Saímos da Paulista até o centro, descemos a Tabatinguera, passamos por um viaduto para passar por cima do rio Tamanduateí, andamos mais um pouco e tivemos que cruzar os trilhos do trem, para chegar onde queríamos.

Já na Mooca, resolvemos os assuntos e fomos à Di Cunto, ali, pertinho do Juventus. Talvez tenha sido a coxinha deliciosa que despertou um processo de regressão proustiana, mas nos demos conta que as barreiras e obstáculos do nosso trajeto contavam algumas das decisões da história da cidade.

Afinal, a descida abrupta da colina histórica até o rio era a primeira proteção do povoado que os jesuítas inventaram, que teve até barricadas durante a primeira fase de São Paulo.

O emaranhado de viadutos sobre a antiga várzea do Carmo já é uma barreira construída recentemente. Tem a ver com a opção de privilegiar transporte rodoviário na cidade, tomada lá na década de 1930, o que quer dizer na prática que qualquer coisa que não tenha rodas não é bem vinda. Nós não tínhamos e tivemos que passar rapidinho pelo feio viaduto.

Lá de cima, porém, deu para ver o que deve ter sido uma barreira tremenda nos primeiros séculos da cidade: o Rio Tamanduateí. Aquele quadro do Benedito Calixto, que mostra o rio numa cheia, me veio à mente.

O rio que já foi tão imponente, que já serviu de meio de transporte, de lazer para as crianças e local de trabalho para as lavadeiras que cuidavam da roupa dos paulistanos, está lá embaixo, preso e sujo, coitadinho. E o pior, cercado pelas ferozes pistas da Avenida do Estado.

Do outro lado, mais adiante, os trilhos do trem. Em 1867, a São Paulo Railway era inaugurada, e com ela, o caminho para o crescimento econômico da cidade, o escoamento do café, o financiamento para a indústria, o início da cisão geográfica entre os ricos e pobres...

A nostalgia passou com o fim da coxinha. No caminho de volta, porém, passamos pelos mesmos lugares em silêncio, pensando nas pessoas que andaram por aí em outras épocas, enfrentando colinas, águas, várzeas e e planejando que tipo de cidade construiriam para nós.

Fotos: Museu Paulista USP e Wikipedia