OPINIÃO
31/01/2014 18:00 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Caminhadas urbanas

Mauro Calliari

O estranho desejo começou há anos. Sair por aí, andando pela cidade. No início, era uma atividade tímida, que necessitava de um destino e um pretexto. Ia até a padaria, tomava um café e voltava.

Aos poucos, os trajetos foram ficando maiores. Para comprar um jornal, por que não andar até aquela banca lá longe, no fim da rua? Ou, enquanto esperava uma reunião, por que não explorar a redondeza?

E pensando bem, por que precisaria ter o que fazer nesses lugares, para ir até eles?

Assim foi, até que não precisava mais de pretexto algum para ir andando longe. Bem longe. Afinal, um lugar vai levando a outro.

De Pinheiros, sem perceber, chega-se aos Jardins, Paulista, Bela Vista, Centro, Bom Retiro. Ou, em outra direção, começa a parecer natural atravessar o Itaim, cruzar o Brooklin, subir para Campo Belo, voltar para passar em frente ao Borba Gato, ver o pessoal do bairro numa praça linda na Granja Julieta e terminar a tarde no Largo Treze de Maio, a tempo de tomar um trem e voltar para casa. Cansado, vazio, feliz.

Afinal, em cada passeio desses, experimenta-se sensações fortes. Há o medo de se perder e o prazer de encontrar, há as surpresas das pessoas e dos lugares, há a chuva, o sol, mas também há o gosto do arais no Pari. Há o cansaço, mas há o banco desocupado na praça da Freguesia do Ó, de onde se pode ver alguns homens jogando dominó. Há os viadutos intransponíveis, mas há os que, em seus acessos, permitem que os meninos empinem suas pipas num domingo de manhã.

As caminhadas urbanas são o oposto das caminhadas nos matos e montanhas e praias e campos. Na cidade, encontra-se a multidão, talvez até para se perder de si. No mato, ao contrário, a solidão permite o encontro consigo mesmo. Em Ibitipoca, uma vez, subi horas para chegar ao topo do Pico do Pião, onde o único som era o do vento. Ninguém à vista, nem um animal, nem um avião. Em São Paulo, o barulho é tanto que oferece o mesmo efeito pelo caminho contrário. Carros, o 6262, o escapamento do entregador de pizza, a conversa interminável gritada no celular, a inevitável televisão ligada em todas as padarias, latidos, o avião que roça os tetos de Moema.

O flâneur de Baudelaire é o personagem que se perdia na recém inventada cidade burguesa, encantado com as vitrines, as calçadas dos boulevares e, principalmente, com a multidão. Na Paris de um milhão de habitantes, o prazer recém descoberto do anonimato invadia o poeta, a possibilidade do convívio furtivo com alguém que não sabe nada da sua família, da sua origem, de seus hábitos e suas perversões. Não precisar cumprimentar alguém na rua, levantar o chapéu e saudar, que deleite.

Mas, na cidade de 11 milhões de habitantes, onde a regra é o anonimato, há o impulso oposto. Às vezes, a vontade é de saudar o desconhecido do Ipiranga, contar-lhe que ele agora está diante de alguém que andou até lá, apenas para poder ter o prazer de cumprimentá-lo.

Assim são as ideias do caminhante. Como o escritor que achava ter tido as grandes ideias no sonho, o caminhante tem essa ilusão, de encontrar respostas para suas perguntas no barulho hipnótico dos seus passos, ou mesmo de encontrar as perguntas que ele julgava não ser capaz de formular.

Mas, como tudo, essas sensações eufóricas se desvanecem assim que são vividas. O que gera a compulsão inevitável de vivê-las de novo. Em outro fim de semana, em outro dia útil. Namorar o mapa, pensar num percurso, num destino, sair de casa, descobrir que o destino e o trajeto podem ser outros, infinitos e deixar-se levar nas bifurcações, um pouco pela aparência das ruas, um pouco pela prudência, um pouco pelo desejo de ver o que tinha do lado de lá.

Esse blog vai tentar falar da cidade, da experiência do caminhante, das idas e vindas da mente fatigada após quilômetros de calçadas, prédios, gente, desconhecidos, beleza, feiúra, espaços simbólicos.

Ele vai trazer o gosto das coisas que se viveu no percurso e que evocam minúsculas ideias incompletas. Encadeadas, talvez elas possam fazer sentido para um eventual leitor disposto a compartilhar reflexões imperfeitas.