OPINIÃO
08/01/2015 18:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

2015: o ano da reapropriação dos espaços públicos de São Paulo

A história da ocupação dos espaços públicos em São Paulo ajuda a entender porque 2015 será tão importante para a cidade.

Praça Roosevelt: um exemplo claro de reapropriação do espaço público de São Paulo

Nos primeiros séculos de São Paulo, desde a sua fundação, a vida corria ao acaso.

Os espaços públicos eram território dos escravos. As mulheres ficavam em casa, escondidas, até que fossem liberadas para as únicas funções públicas permitidas: as missas. A Igreja organizava as atividades públicas e as poucas multidões eram aquelas que acompanhavam suas procissões.

Tudo mudou no final do século XIX. A vida pública ganhou novos ares com o café, o desenvolvimento econômico, o fim da escravidão, a indústria e a imigração. A cidade descobriu as dores e a delícia da diversidade. No lugar de papéis sociais pré-estabelecidos, a negociação. No lugar da autoridade patriarcal absoluta, a civilidade, o comportamento que permite que estranhos possam conviver.

Os espaços públicos do início do século XX são a expressão do desejo de fruição da cidade, como o Vale do Anhangabaú, o Parque D.Pedro e a urbanização do centro novo.

A ilusão da urbanidade durou pouco.

A partir do Plano de Avenidas, o pedestre perdeu o protagonismo e o carro ganhou espaço até dominar por completo o imaginário coletivo. A cena da Catedral da Sé em construção enquanto milhares de carro estacionam em frente é emblemática.

A situação piorou na década de 1970, com a negação da cidade: os shoppings, os condomínios murados, os centros empresariais. A pretexto de fugir da violência, criaram-se enclaves de onde se chega e se sai sem precisar colocar o pé no chão da rua.

Chegamos ao fundo do poço na virada do século XXI: uma cidade que não permite a fruição da diversidade e onde quem pode se isola cada vez mais.

Mas, atenção, parece que a história não terminou e, ao contrário, pode estar prestes a virar de lado. Os sinais são claros: há pessoas nas ruas, há gente nas praças, há multidões em cada virada cultural, milhões na Paulista no Reveillon. No dia a dia, há mães comemorando aniversário de filho em espaços públicos, grafiteiros sendo convidados pelo poder público para decorar a cidade cinza.

A cada pequena intervenção, as pessoas respondem, entusiasmadas. Desde um singelo parklet que oferece um conforto na aridez até a Praça Roosevelt, uma tampa viária que, reformada, trouxe o saudável conflito entre grupos que querem ocupá-la.

Há um desejo evidente de reapropriação do espaço público.

2015 vai ser o ano em que a grande discussão será a cidade. As pessoas já se deram conta de que o que está sendo construído agora vai durar a sua vida inteira. Os planos de bairro, as mudanças climáticas (sim, a questão da água vai estar presente em todas as conversas sérias de 2015) o Zoneamento, as faixas de ônibus, a legislação das calçadas, tudo o que virá em 2015 vai ser mais discutido. Construtoras antenadas vão se abrir a essa discussão e talvez constatem que os muros altíssimos ao longo de um quarteirão inteiro prejudicam a experiência do andar e ainda contribuem para aumentar a insegurança.

Não basta falar de mobilidade, é preciso pensar na fruição. Já se chamou as estações de transportes de não-lugares, mas é lá que passamos grande parte do tempo, não há porque não ser um espaço agradável. Não bastam ciclovias, será preciso pensar em calçadas, espaços de permanência.

Não precisamos de mais espaços fechados, podemos fazer compras na rua, andar na rua, encontrar gente ao acaso na rua. A turma que trabalha nos condomínios empresariais já está saindo do ar condicionado para fazer seus almoços nos food truck parks, o happy-hour no centro e em bairros é um espetáculo de gente nas calçadas, há músicos e ciclistas na Paulista.

As novas intervenções devem buscar, obstinadamente, satisfazer esse desejo de ocupação. As novas praças vão ser rediscutidas e vão ganhar bancos e sombra em vez de projetos burocráticos. O Minhocão será rediscutido. Na pior das hipóteses, será um parque, na melhor, virá abaixo e alargará um pouco o horizonte.

Em 2015, o urbanismo serão as pessoas.

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