OPINIÃO
13/03/2014 17:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

'Cosmos' estreia sob ataques de criacionistas e caçadores de erros

A versão repaginada da iniciativa de Sagan tem efeitos especiais de grande impacto visual que não eram possíveis há 34 anos e um apresentador plenamente articulado com os recursos de novas tecnologias.

Lançada nos Estados Unidos no domingo (9.mar) e no Brasil nesta quinta-feira (13.mar) pelo canal National Geographic (22h30), a série Cosmos - Uma odisseia no espaço-tempo já começa sob críticas de caçadores de erros e ataques de contestadores da teoria da evolução. Inspirado na série Cosmos - Uma viagem pessoal, de 1980, idealizada e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996),  o novo programa tem como anfitrião o astrofísico e divulgador científico Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, do Museu Americano de História Natural, e personalidade muito atuante nos meios de comunicação.

A nova série tem tudo para conseguir sucesso em audiência. Além de contar com a parceria do NatGeo com o canal Fox e com a rede educativa de TV PBS , a versão repaginada da iniciativa de Sagan tem efeitos especiais de grande impacto visual que não eram possíveis há 34 anos e um apresentador plenamente articulado com os recursos das novas tecnologias de comunicação.

No momento em que este artigo foi concluído, Tyson já contava com cerca de 935 mil seguidores em sua página no Facebook e com mais de 1,74 milhão no seu perfil no Twitter. Outra participação de importância midiática na equipe do programa é o produtor executivo Seth MacFarlane, um dos criadores de Family Guy (Uma Família da Pesada), que é sucesso desde 1999.

Jogo dos cinco erros

Como acontece com grande parte das iniciativas de popularização da ciência, Cosmos não poderia deixar de receber acusações de imprecisão. A crítica mais recente foi publicada nesta quinta-feira por Hank Campbell, co-autor do best-seller "Science Left Behind" (A Ciência deixada para trás), de 2012. Ele postou "Cinco coisas que deram errado com Neil de Grasse Tyson", destacando no blog as frases "Qual é a precisão da ciência em Cosmos? Isso tem importância? Ela seria boa mesmo sendo ruim, como pizza?"

Ressalvando que reconhece em Tyson um espírito aberto a críticas como em Sagan, Campbell afirma que identifica quatro erros no o primeiro episódio da série, "De pé na Via Láctea": a comparação da quentíssima atmosfera de Vênus com o efeito estufa da Terra, a menção aos multiversos ou múltiplos universos como se sua existência fosse uma verdade científica, a propagação de sons da fictícia espaçonave pilotada pelo apresentador e que são impossíveis na imensidão do espaço e, finalmente, a apresentação do filósofo e teólogo Giordano Bruno (1548-1600) com uma importância para a ciência maior do que a do astrônomo, físico e matemático Galileu Galilei (1564-1642).

E Campbell acrescenta um problema que afirma ser de "estilo": não dá certo, segundo ele, apresentar os cerca de 14 bilhões de anos desde a explosão do Big Bang condensados nos 12 meses de um ano, fazendo com que cada dia nesse calendário seja equivalente a aproximadamente 40 milhões de anos.

Exageros

Campbell tem razão em suas quatro primeiras objeções, apesar de que podem até ser consideradas "licenças poéticas" as três escorregadelas iniciais sobre Vênus, os multiversos e o som que não se propaga no espaço. Mas ele exagera no que afirma ser uma objeção de estilo e parece procurar chifre em cabeça de cavalo quando afirma que escolha da explicação com a evolução Universo desde o Big Bang por meio da analogia com o calendário de 12 meses, onde a civilização humana aparece em uma fração do último segundo, se deve ao "ateísmo declarado" do produtor Seth MacFarlane.

Ou seja, o criador de Family Guy teria forçado a barra para usar um modelo que mal mostra o surgimento dos humanos para menosprezar o período que muitos interpretam como sendo  o da obra Criação de Deus. A menos que o objetivo não seja popularizar conhecimentos da ciência, não faz sentido rejeitar analogias como essa.

Galileu menosprezado

Mas, apesar de ter Tyson ter afirmado que Bruno não era cientista, o episódio tem uma longa animação dramatizada sobre o teólogo condenado à fogueira pela Inquisição e dá pouquíssima importância para Galileu, deixando de lado seus enfrentamentos científicos com as autoridades do saber eclesiástico de sua época. Nesse ponto Campbell está coberto de razão.

Em 1609, modificando um dispositivo óptico que aproximava a observação de objetos, construído no ano anterior por holandeses, Galileu construiu o telescópio, que teve esse nome a partir de 1611. Seu uso permitiu refutar a concepção de que a Terra estava no centro do mundo e de que todos os corpos celestes eram imutáveis e perfeitos, formados por éter, como havia afirmado Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, e também Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), em seus manuscritos Almagesto e Tetrabiblos.

A iniciativa de Galileu ultrapassou o âmbito da astronomia, não só por articular uma nova etapa na história do conhecimento, com a rejeição da autoridade da religião nas ciências naturais e a afirmação da autonomia do uso da observação, da experimentação e da superioridade do raciocínio demonstrativo matemático na busca da verdade sobre os fenômenos da natureza. Ele também superou a concepção teológica judaico-cristã de que o conhecimento era imutável e de que tudo o que existe e acontece já havia sido previsto por Deus no Gênesis. Nada seria novo, pois tudo o que se acrescentasse ao conhecimento somente confirmaria -- e jamais modificaria -- as eternas verdades bíblicas. Em outras palavras, acreditava-se que, aconteça o que acontecer, "não há nada de novo debaixo do sol" (Eclesiastes, 1,9).

Briga com criacionistas

No domingo, já antes da apresentação de seu primeiro episódio, a nova série já estava com os dias contados para não ter problemas com os criacionistas em geral e também com os adeptos do chamado design inteligente, que são opositores mais sofisticados à evolução das espécies por meio da seleção natural. Em entrevista à CNN, Tyson ouviu do jornalista Brian Stelter a pergunta sobre como intermediar a paz na "guerra contra a ciência", referindo-se principalmente aos contestadores do aquecimento global.

O astrofísico respondeu que a imprensa tem a vantagem de não se prender ao ethos da ciência, baseado na discussão interna na comunidade acadêmica, mas que os jornalistas agem errado quando, para "ouvir o outro lado", contrapõem afirmações científicas com opiniões não científicas. E, como destacou Jack Mirkinson noHuffington Post (10.mar), acrescentou:

Você não fala sobre a Terra esférica com a Nasa e, em seguida, diz "vamos dar tempo igual ao pessoal da Terra plana". Além disso, a ciência não existe para você agir como ao escolher cerejas. (...) O bom da ciência é que ela funciona com você acreditando ou não nela.

Não demorou para surgirem manifestações criacionistas, como o artigo "Neil deGrasse Tyson: velho produto, nova embalagem", no site do Instituto Discovery. Aqui no Brasil, defensores da teoria do design inteligente, inclusive membros da comunidade científica, já conversam por e-mails para articular uma reação.

Atuação da imprensa

Tyson tem razão quando afirma que não é correto tentar equilibrar posições científicas com opiniões religiosas, como fazem muitas vezes os meios de comunicação quando o contexto da notícia é o conhecimento. Por outro lado, jornalistas especializados em ciência muitas vezes agem como se não existissem pesquisadores que contestam a teoria da evolução e apresentam argumentos para isso. É o caso, no Brasil, de Marcos Eberlin, professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com um currículo respeitado internacionalmente na área de espectrometria de massas, que defende que a probabilidade de a vida ter surgido na Terra é um número que excede toda a probabilidade do universo.

Mesmo no âmbito das discussões com base em critérios científicos, as chances de algum diálogo entre darwinistas e antievolucionistas são praticamente nulas, pois muitos de ambos os lados já partiram há tempos para provocações e xingamentos. De minha parte, penso que sempre se deve aplicar o preceito do filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) destacado, em um contexto completamente diferente do tema presente, pelo jornalista Hélio Schwartsman em sua coluna na Folha de S. Paulo, na terça-feira (11.mar):

(...) mesmo os piores preconceitos precisam ter sua circulação assegurada, a fim de que as ideias verdadeiras sejam submetidas à contestação e triunfem. Se não for assim, elas próprias serão percebidas como simples preconceitos, sem base racional.

Seja como for, vale a pena assistir Cosmos.

*

PS - Acabo de ser informado (14h30) que a emissora afiliada da Fox em Oklahoma teria censurado, substituindo por uma inserção de publicidade própria, um trecho de aproximadamente 15 segundos no primeiro episódio. O trecho, que seria justamente aquele, acima mencionado, dos últimos segundos do calendário em que aparece a espécie humana, teria a seguinte fala de Nei deGrasse Tyson:

Somos recém-chegados ao Cosmos. Nossa própria história só começa na última noite do ano cósmico. Três milhões e meio de anos atrás, nossos ancestrais, o seu e o meu, deixaram esses rastros. Nós nos levantamos e nos separaramos deles. Uma vez que estávamos sobre dois pés, nossos olhos já não estavam mais fixados no chão. Agora, éramos livres para olhar para cima e para admirar.

A informação é do site de notícias The Raw Story com base em um vídeo postado no YouTube.

(Texto publicado originalmente no blog Universidade, Ciência e Ambiente)