OPINIÃO
29/06/2014 15:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Um tiro com muitos ecos: 100 anos da Primeira Guerra Mundial

Cem anos atrás, no dia 28 de junho de 1914, um militante nacionalista da Sérvia assassinou com um tiro o herdeiro do trono do império da Áustria-Hungria. De agosto daquele ano até novembro de 1918, mais de 15 milhões de pessoas morreram no conflito.

AP

Cem anos atrás, no dia 28 de junho de 1914, um militante nacionalista da Sérvia assassinou com um tiro o herdeiro do trono do império da Áustria-Hungria em represália à ocupação de territórios disputados por ambos os Estados. Esse foi o estopim que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. De agosto daquele ano até novembro de 1918, mais de 15 milhões de pessoas morreram no conflito. As monarquias da Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Turquia foram derrubadas por revoluções. O mapa da Europa e do Oriente Médio foi redesenhado com o (re)aparecimento de países como Iugoslávia, Líbano, Palestina, Polônia, Síria e Tchecoslováquia.

As causas da Primeira Guerra Mundial ainda são um tema controverso, sobretudo pelos debates sobre a responsabilidade germânica na deflagração do conflito. No início do século XX a Europa era dividida em duas grandes alianças militares, uma formada pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, outra pelo Reino Unido, França e Rússia. O ataque a um desses países provocaria o enfrentamento também com seus aliados.

Diversos fatores levaram à formação desses blocos rígidos: o medo do poderio crescente do império alemão, que havia anexado duas províncias francesas (Alsácia e Lorena) e iniciado a construção de uma marinha de guerra que desafiaria a supremacia naval britânica, os conflitos para colher os frutos do declínio do império otomano (turco) nos Bálcãs e no norte da África e a competição cada vez mais acirrada por territórios e mercados globais pelas potências europeias.

A guerra começou na Europa e logo se espalhou para o resto do planeta, pelas redes coloniais e imperiais ou pelos laços de comércio e investimento. Estados Unidos, Japão e Turquia e Brasil, entre outras nações, também participaram do conflito, unindo-se a uma das alianças. A Itália mudou de lado, seduzida por promessas de expansão territorial. Foi, de fato, uma guerra mundial, ainda que seu epicentro tenha sido as crises europeias.

A maior parte dos líderes políticos e militares que iniciaram a guerra acreditavam que ela seria de curta duração, de no máximo poucos meses, como haviam sido os conflitos entre Rússia e Japão (1905), França e Prússia (1870) e os combates pela unificação da Alemanha e da Itália (décadas de 1840-70). Essa era uma expectativa fora da realidade. O desenvolvimento de novas armas, como metralhadoras e fuzis mais eficientes e a mobilização melhor organizada do poder industrial de cada Estado criaram máquinas bélicas devastadoras, com todo o poderio de modernos Estados industriais.

Batalhas como Somme, Verdun e Ypres resultaram em centenas de milhares de mortes. Na Turquia, o governo lançou uma campanha de extermínio contra a minoria armênia, cristãos que auxiliaram a Rússia. Por toda a parte, os custos econômicos e sociais da guerra significaram inflação galopante, problemas de escassez de alimentos e a devastação emocional de tantas mortes, mutilações e ausências prolongadas dos homens de suas famílias.

Para os padrões atuais, os governos que lutaram a guerra não eram democracias plenas. Mesmo nos mais progressistas entre eles, as mulheres não podiam votar ou ser eleitas para cargos públicos. Rússia e Turquia eram regimes autoritários. O conflito foi popular nos meses iniciais e mesmo os partidos de oposição - como as siglas operárias, socialistas e sociais-democratas - apoiaram seus governos aprovando créditos extras para as Forças Armadas.

Com o decorrer das batalhas, a insatisfação aumentou, culminando com o motim do Exército francês em 1917 - uma espécie de "greve armada" contra as más condições a que estavam submetidos os militares, que levou a várias reformas. No mesmo, estouraram duas revoluções na Rússia. A primeira, em fevereiro, derrubou a monarquia e instituiu uma fragilíssima república. A de outubro estabeleceu o regime comunista, retirou o país da guerra e publicou documentos secretos que mostravam as manipulações oficiais, como acordos para trocas de território - o antecessor do Wikileaks.

Nos países derrotados (Alemanha, Áustria-Hungria, Turquia) o fim da guerra foi seguido de rebeliões, instabilidade e mudança de regime político. Os turcos ainda tiveram que lutar mais outro conflito, contra a Grécia, que cobiçava boa parte de seu território, e que resultou no massacre ou expulsão da maioria da população de origem grega que vivia no antigo império otomano.

A guerra na Europa acabou por exaustão dos alemães e austro-húngaros, e não por batalhas decisivas. Desde a entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1917, a aliança contra as potências centrais ganhou um fortíssimo afluxo de tropas e recursos econômicos. O presidente americano Woodrow Wilson propôs seus célebres 14 pontos como base de uma paz que não puniria ninguém, mas não foi isso o que aconteceu. Os vitoriosos exigiam recompensas para mostrar às suas populações que o sacrifício não fora em vão e impuseram pesadas indenizações financeiras e perdas territoriais à Alemanha. O país nunca pagou integralmente as reparações, mas elas contribuíram para o clima de ressentimento e ódio no qual o nazismo nasceu e cresceu.

No Oriente Médio, Reino Unido e França derrotaram militarmente o império otomano e dividiram entre si suas províncias árabes - Iraque, Palestina e Jordânia para os ingleses, Síria e Líbano para os franceses. A Arábia tornou-se independente sob a casa real dos Hashemitas, que haviam lançado uma guerrilha contra os turcos, organizada pelo coronel britânico Thomas Edward Lawrence. O ímpeto colonial na região enfureceu os nacionalistas árabes, ainda mais por que os britânicos se comprometeram por meio da Declaração Balfour a criar um lar para os judeus na Palestina, sem consultar os habitantes da Terra Santa.

A Primeira Guerra Mundial não resolveu os problemas da Europa e criou uma situação ainda mais instável no continente, que explodiria novamente em 1939, no segundo conflito de âmbito planetário. O Oriente Médio ainda vive os efeitos catastróficos dos resultados dos combates de um século atrás. Mas a rejeição aos massacres teve como consequência também a criação da Liga das Nações e os esforços importantes, mesmo que falhos e incompletos, de buscar soluções pacíficas para as controvérsias globais.

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