OPINIÃO
04/07/2016 14:23 -03 | Atualizado 04/07/2016 14:23 -03

Um Nobel para o jornalismo ou por que você deveria ler Svetlana Alexievich

Natural da Bielorússia, Svetlana Alexievich dá voz às pessoas comuns que refletem sobre suas experiências em lutas épicas ou cotidianas, refletindo a respeito dos combates contra a Alemanha nazista, do desastre nuclear em Tchernóbil e do desmantelamento do Estado soviético. A Companhia das Letras começou a publicá-la no Brasil e a autora veio ao Brasil para participar da Festa Literária de Paraty.

JOEL SAGET via Getty Images
The laureate of the 2015 Nobel Literature Prize, Belarussian writer and dissident Svetlana Alexievich poses on November 2, 2015 in Paris. AFP PHOTO / JOEL SAGET (Photo credit should read JOEL SAGET/AFP/Getty Images)

O Nobel de Literatura de 2015 foi para uma jornalista nascida na antiga União Soviética, cujos livros de não-ficção são uma excelente crônica das guerras e catástrofes que marcaram o declínio do comunismo.

Natural da Bielorússia, Svetlana Alexievich dá voz às pessoas comuns que refletem sobre suas experiências em lutas épicas ou cotidianas, refletindo a respeito dos combates contra a Alemanha nazista, do desastre nuclear em Tchernóbil e do desmantelamento do Estado soviético. A Companhia das Letras começou a publicá-la no Brasil e a autora veio ao Brasil para participar da Festa Literária de Paraty.

Svetlana Alexievich escreve em russo e seu trabalho como jornalista ecoa a extraordinária tradição literária nesse idioma, com seus valores humanistas, olhar sensível para a vida diária e uma pungente avaliação dos destinos nacionais.

Sua obra-prima é Vozes de Tchernóbil, uma crônica da explosão de um reator nuclear na Ucrânia que se tornou a pior calamidade atômica depois das bombas contra Hiroshima e Nagasáki, e um símbolo do colapso soviético.

Svetlana narra essa história por meio de entrevistas com moradores locais que sobreviveram ao desastre, parentes das vítimas fatais e pessoas cujas vidas foram de algum modo alteradas pela tragédia - incluindo habitantes de países vizinhos, como a Bielo-Rússia, que tiveram que ser evacuados de suas casas por conta dos efeitos da radiação.

Svetlana não usa o estilo convencional das entrevistas com perguntas e respostas - ela dá voz a seus entrevistados por meio de monólogos ou declarações mais longas do que o habitualmente encontrado na imprensa. Naturalmente, as falas são editadas pela autora, mas a sensação geral é de escutarmos pessoas que em geral não aparecem nas narrativas oficiais. Romances corais ou polifônicos, como às vezes são definidos. Um exemplo:

"Não sou escritor. Não sou capaz de descrever isso. Minha mente não é capaz de entender. Nem meu diploma universitário. Aí está você: uma pessoa comum. Uma pequena pessoa. Você é exatamente como qualquer um - você vai trabalhar, você volta do trabalho. Você recebe um salário mediano. Uma vez por ano você sai de férias. Você é uma pessoa normal! E aí um dia você é subitamente transformado numa pessoa de Tchernóbil. Em um animal, alguma coisa na qual todos estão interessados, mas sobre a qual ninguém sabe nada."

Outra ilustração dessa abordagem é A Guerra não tem rosto de mulher, o outro livro de Svetlana Alexievich lançado no Brasil. Trata-se de um conjunto de entrevistas com veteranas soviéticas da II Guerra Mundial - o Exército Vermelho recrutou 1 milhão de integrantes femininas, inclusive em diversas posições de combate, de franco-atiradoras a pilotos de caças:

"A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram."

Elas contam à jornalista histórias de heroísmo, perdas, traumas e sacrifício, como a experiência de matar, a morte de amigos e parentes, o medo da violência sexual.

Mas narram também episódios de beleza ou humor, como casos de amor, o esforço por cuidar da aparência e por manter a capacidade de horror diante da brutalidade da guerra e de compaixão, mesmo diante dos inimigos alemães:

"Mas parece que, nesse território pequeno e cômodo para o olhar - o espaço de uma alma humana - tudo é ainda mais incompreensível, menos previsível do que na história."

Svetlana Alexievich é autora de outros livros ainda não publicados no Brasil, mas já disponíveis em diversas línguas, inclusive em português. O Fim do Homem Soviético é um tocante balanço do declínio e queda da URSS, identificando a guerra e a prisão como as duas experiências definidoras daquele Estado comunista. Zinky Boys é uma denúncia da invasão soviética do Afeganistão por meio de relatos dos veteranos daquele conflito, ou dos parentes e amigos dos que lá morreram.

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