OPINIÃO
07/11/2014 14:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Um muro no meio da história

No dia 7 de novembro se completam 25 anos da queda do muro de Berlim, o marco das revoluções quase sempre pacíficas que destruíram os regimes comunistas na Europa Oriental e União Soviética. Por que ele foi construído? Qual seu impacto?

Sean Gallup via Getty Images
BERLIN, GERMANY - NOVEMBER 05: A worker sets up lamps that will be used in an upcoming light installation to commemorate the 25th anniversary of the fall of the Berlin Wall along a still-standing portion of the original Wall called the East Side Gallery November 5, 2014 Berlin, Germany. The city of Berlin will commemorate the 25th anniversary of the fall of the Berlin Wall with an installation of 6,800 of the lamps coupled with illuminated balloons along a 15km route where the Wall once ran and divided the city into capitalist West and communist East. The fall of the Wall in 1989 was among the most powerful symbols of the revolutions that swept through the communist countries of Eastern Europe and heralded the end of the Cold War. (Photo by Sean Gallup/Getty Images)

"A fronteira passava por aqui". Ouvi a frase muitas vezes em minha estadia em Berlim, onde estive em setembro fazendo um curso sobre memória e direitos humanos na Fundação Robert Bosch. De historiadores a motoristas de táxi me apontavam um trecho da cidade - o portão de Brandenburgo, a estação da Friedrichstrasse - por onde vagavam suas lembranças da Alemanha dividida. Falavam como quem menciona uma casa mal-assombrada.

No dia 7 de novembro se completam 25 anos da queda do muro de Berlim, o marco das revoluções quase sempre pacíficas que destruíram os regimes comunistas na Europa Oriental e União Soviética. Por que ele foi construído? Qual seu impacto? Como a Alemanha reunificada lida com seu legado?

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, os Aliados temiam que a Alemanha voltasse a dominar a Europa e dividiram o país - e Berlim - em zonas de ocupação pelos Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França. A eclosão da Guerra Fria fez com que a separação fosse consolidada de acordo com o pertencimento aos blocos capitalista e comunista. Assim, em 1949 as zonas ocidentais foram unificadas na República Federal da Alemanha, com capital em Bonn, e a oriental tornou-se a República Democrática Alemã (RDA). Embora Berlim ficasse dentro da RDA, a cidade permaneceu cindida em duas partes, cada uma pertencendo a um dos Estados.

"Melhor um muro do que uma guerra"

Acordos entre os Aliados permitiam a suas tropas e diplomatas circularem livremente por qualquer parte de Berlim e entre 1949 e 1961 essa travessia também era fácil para cidadãos alemães dos dois Estados. Alguns trabalhavam no lado ocidental, onde os salários eram maiores, e moravam na RDA, para aproveitar o custo de vida mais baixo. Com a recuperação econômica acelerada da Europa capitalista na década de 1950, cada vez mais habitantes da Alemanha comunista passaram a emigrar - em torno de 200 mil por ano. Quase metade eram jovens com menos de 25 anos, muitos bastante instruídos.

A emigração em massa virou um problema econômico grave e um constrangimento político para o governo da RDA. O remédio encontrado pela liderança comunista foi fechar a fronteira, construindo barreiras para isolar o país da Alemanha Ocidental. A mais famosa foi o muro de Berlim, cuja primeira versão - uma tosca cerca de arame farpado - foi erguida nas horas iniciais do dia 13 de agosto de 1961.

A União Soviética havia fechado os acessos por terra a Berlim, em 1948, quase provocando uma guerra com os Estados Unidos. Mas nem Stalin havia ousado cercear o movimento dentro da antiga capital alemã. Os líderes da RDA foram além. A tensão atingiu níveis elevados, com tanques americanos e alemães de frente uns para os outros no Checkpoint Charlie. Os berlinenses temiam uma batalha feroz pelo controle da cidade. Contudo, o presidente John Kennedy suspirou aliviado: "Melhor um muro do que uma guerra". A divisão de Berlim era o preço a pagar pela estabilidade da Europa cindida em dois blocos rivais.

"Nós somos um povo"

E o muro levou estabilidade à RDA, ao preço de grandes injustiças. Pelo menos 130 pessoas foram mortas ao tentar atravessá-lo (o número pode ter sido tão alto quanto 250). Em torno de 5075 conseguiram fugir, pulando-o ou cavando túneis. Com o tempo, o muro foi transformado num conjunto de estruturas de 156,4 Km de comprimento, com várias camadas de cercas eletrificadas, concreto, fosso, guaritas, guardas e cachorros. No discurso oficial, era chamado de "barreira de proteção anti-fascista", suposta medida contra sabotagem ocidental.

O muro não impediu o declínio da RDA, apenas retardou o processo. Na década de 1980, os problemas econômicos e políticos eram intensos em todo o Leste da Europa e na própria União Soviética. Em 1989 as manifestações contra os regimes autoritários ganharam força e numa sequência espantosa provocaram mudanças como a convocação de eleições livres e a criação de partidos de oposição. Na Alemanha Oriental houve protestos gigantescos em Berlim e Leipzig: "Nós somos o povo", bradavam. Muitos cidadãos da RDA foram para vizinhos comunistas em liberalização, como Hungria e Tchecoslováquia, pedir asilo ou tentar emigrar.

Foi nesse contexto que em novembro as autoridades comunistas resolveram abrir a fronteira com a Alemanha Ocidental. A ideia era implementar a medida meses depois, mas por um erro do porta-voz na coletiva de imprensa a decisão foi anunciada como tendo validade imediata. Resultado: centenas de milhares correram ao muro de Berlim e os guardas, atônitos, abriram todas as cancelas, com confraternização de cidadãos das duas Alemanhas. O grito dos protestos virou "nós somos um povo!".

O Muro na Alemanha reunificada

O muro era odiado nas duas Alemanhas e foi quase imediatamente demolido. Mas restaram 34 trechos mantidos pelo interesse histórico. Por exemplo, cerca de 200 metros foram preservados no local conhecido como Topografia do Terror, que abriga as ruínas da SS, Gestapo e outros órgãos da repressão política nazista. Na Galeria do Lado Oriental, um pedaço do muro virou tela para artistas plásticos pintarem imagens que falam de direitos humanos, da Guerra Fria e da traumática história alemã.

Autoridades nacionais processaram 246 funcionários públicos da Alemanha Oriental - líderes comunistas, policiais, guardas de fronteira - pelos assassinatos de dissidentes que tentavam atravessar o muro de Berlim. Centro e trinta e dois foram condenados.

Berlim voltou a ser a capital da Alemanha e uma das metrópoles mais vibrantes do planetas mas uma geração não foi suficiente para reparar os estragos causados pela divisão do país. O lado oriental ainda tem indicadores sócio-econômicos substancialmente mais baixos do que o ocidental, e partidos extremistas se saem bem melhor junto a esse eleitorado. Os 3 milhões de habitantes de Berlim são bem menos do que os 4,5 milhões de 1939, antes de guerras quentes e frias, muros e barreiras. Há dificuldades em integrar os alemães e em Berlim muitos moradores mais velhos relutam em atravessar o antigo muro, ainda que hoje ele seja apenas uma linha imaginária, que já cruza dois séculos.

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