OPINIÃO
16/02/2014 13:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

O verão do Batman

É o verão do descontentamento no Brasil e a indignação contra os governos que dominou as manifestações de 2013 transformou-se em ódio generalizado de vários grupos sociais contra outros, expresso em agressões verbais e violência física. Como e por que passamos em poucos meses da cultura de protestos para a de linchamentos?

As grandes manifestações de junho a outubro de 2013 apresentaram diversas demandas e reivindicações importantes que contribuem para o fortalecimento da democracia brasileira, mas também tiveram um componente sombrio, de violência latente que com frequência explodiu em agressões dos integrantes dos protestos contra seus próprios colegas que carregavam símbolos de partidos políticos, contra a imprensa e em muitos episódios de depredação de patrimônio público e privado. Todos esses incidentes preocupantes foram mais do que ocasionais e destoam do costume de protestos de massa pacíficos (Diretas Já, impeachment do presidente Fernando Collor, as paradas do orgulho LGBT) que caracterizam o Brasil contemporâneo.

As jornadas de junho tiveram sucessos pontuais como o cancelamento de aumentos em tarifas de ônibus e a aprovação ou repulsa de projetos de leis, mas em grande medida as demandas apresentadas nos protestos esbarraram na incapacidade do sistema político em incorporá-las a suas preocupações e na dificuldade de diálogo com os governos. A violência policial disseminada e impune contra as manifestações foi um fator decisivo para seu esvaziamento e o afastamento dos moderados, levando à radicalização dos ativistas. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo estima que a polícia foi responsável por 75% de 102 casos de agressão contra repórteres em protestos - episódios terríveis como a mutilação do fotógrafo Sérgio Silva. Mas tais atos também têm sido perpetrados pelos manifestantes, com a consequência trágica da morte do cinegrafista Santiago Andrade ao ser atingido por um rojão que as autoridades afirmam ter sido disparado por um rapaz que participava de um protesto.

Outra tendência preocupante é a proliferação de casos de linchamento e a ação de grupos de vigilantes, sobretudo na região metropolitana do Rio de Janeiro. Como nota a jornalista americana Rachel Glickhouse, atenta observadora da vida carioca, eles acontecem em cenário de deterioração da segurança pública e problemas crescentes no programa das Unidades de Polícia Pacificadora. O número de assaltos registrados no Parque do Flamengo -- área onde um rapaz acusado de roubos foi despido, espancado e acorrentado em um poste por uma gangue de moradores locais -- dobrou em um ano. Outros ataques terminaram em assassinato, como o do caseiro Marco Antônio Corrêa Vicente, linchado na cidade de São Gonçalo ao ser confundido com um ladrão.

A violência também está presente nas agressões verbais nos debates políticos no Brasil. O antológico vídeo da discussão entre um manifestante fantasiado de Batman e moradores de um bairro de classe média alta no Rio de Janeiro é divertidíssimo, mas também ilustra as polarizações ideológicas, visões de mundo confusas e dificuldade de discordância educada no país. O retrato do mal-estar pós-protestos, em cartaz também nas redes sociais.

O Batman que virou um dos símbolos dos protestos cariocas é Eron Morais de Melo, um auxiliar de dentista que vive no subúrbio de Marechal Hermes. Um exemplo da nova classe C que é a (super?) heroína dos sucessos brasileiros no combate à pobreza. É um manifestante pacífico que conquistou muitas simpatias por seu bom humor e criatividade. Mas é significativo que tenha escolhido como fantasia um vigilante que acredita em fazer justiça pelas próprias mãos, com métodos bastante violentos. Infelizmente, muitos têm vestido esse e outros disfarces com consequências sombrias neste verão do descontentamento.

Em um ano em que haverá também Copa do Mundo e eleições não faltarão oportunidades para a expressão de ódios. Os líderes políticos brasileiros, no governo e na oposição, têm se mostrado mais ágeis em condenar os que discordam de seus propósitos do que em apresentar maneiras de atender às demandas da população. A vontade de um país diferente saiu da garrafa com as manifestações de junho e não será contida tão cedo. A questão é se a resposta do Estado a esses anseios será parte da solução ou do problema.