OPINIÃO
08/10/2014 10:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Lições da Alemanha sobre memória

reprodução

Uma mulher chora na Bebelplatz em Berlim, onde em 1933 estudantes nazistas queimaram livros de autores que criticavam sua ideologia totalitária - hoje há um monumento subterrâneo na praça, com estantes vazias simbolizando as obras destruídas. No antigo campo de concentração de Buchenwald, em Weimar, casais idosos depositam flores em homenagem às 56 mil pessoas assassinadas lá pela repressão nazista. No complexo de prisões outrora administrado pela Stasi (polícia secreta do regime comunista), um ex-preso político nos guia pelas celas e salas de interrogatório, e conta como um panfleto de cinco linhas que escreveu contra a ocupação soviética da Tchecoslováquia lhe custou a carreira como cientista e professor.

Na segunda semana de setembro de 2014 estive na Alemanha realizando um curso sobre memória e direitos humanos. Organizado pela Fundação Robert Bosch, reuniu ativistas e acadêmicos de 14 países que passaram por regimes autoritários ou conflitos armados e queriam aprender com a experiência germânica em lidar com os traumas do nazismo, da divisão nacional em dois Estados (1949-1990) e com os esforços da reunificação após a queda do muro de Berlim.

O resultado foram debates importantes para o Brasil, no contexto dos trabalhos das comissões da verdade que investigam as violações de direitos humanos da ditadura, e também na necessidade de refletir sobre o legado trágico de três décadas de níveis muito altos de violência cotidiana.

O que podemos aprender com a Alemanha e suas batalhas pela memória?

1. As iniciativas pela memória nasceram da sociedade civil e só depois foram apoiadas pelo Estado

A Alemanha é referência internacional em políticas de memória pelo modo como estabeleceu marcos para lembrar as atrocidades cometidas durante o nazismo, pelos processos contra autoridades do regime hitlerista que cometeram crimes contra a humanidade, e pelos esforços em educar as novas gerações para que tais calamidades nunca mais aconteçam.

Contudo, essas iniciativas foram frutos de longas mobilizações após 1945, propostas nascidas na sociedade civil - em movimentos sociais, em associações de vítimas e seus parentes - que aos poucos ganharam força até se consolidarem na construção de museus, memoriais e fundações. Às vezes elas foram criadas por iniciativas individuais, como a de Siegrid Falkenstein, que queria saber mais sobre a tia assassinada no programa de eliminação de pessoas com deficiências e lançou campanha para construir um memorial às vítimas.

O Muro de Berlim é provavelmente a construção mais odiada da história da cidade e houve pressões para que ele fosse completamente destruído, até por questões ligadas à especulação imobiliária, de empresas que queriam construir prédios nas áreas ocupadas por ele. Mas artistas conseguiram manter parte dele, usando cerca de 1,5Km para pinturas relacionadas a direitos humanos e memória, na chamada Galeria do Lado Oriental.

Em muitos casos, as lutas por memória foram a consequência de mudanças demográficas, com a ascensão de novas gerações que não viveram o nazismo e se sentiam incomodadas com os silêncios e omissões de seus parentes sobre o período. Isso aconteceu de maneira particularmente forte na década de 1960, em meio a protestos estudantis e questionamentos do papel da Alemanha Ocidental na Guerra Fria.

2. Processos judiciais e produções artísticas têm enorme impacto sobre a memória pública

A realização de grandes julgamentos de crimes contra a humanidade e o lançamento de filmes ou programas de TV sobre o nazismo deflagraram mobilizações e debates sobre memória. Na década de 1960, foram célebres os casos de Adolf Eichmann (oficial da SS que desempenhou papel-chave no Holocausto, foi sequestrado na Argentina por agentes secretos de Israel e julgado em Jerusalém) e os processos dos guardas do campo de concentração de Auschwitz. Na década seguinte teve forte repercussão a minissérie americana "Holocausto", que conta a saga trágica de uma família de judeus alemães durante o III Reich.

Na década de 2000, filmes como "Adeus Lênin" e "A Vida dos Outros" tiveram consequências semelhantes no debate sobre o regime comunista na Alemanha Oriental e as dificuldades de integração de seus habitantes no país reunificado, onde com frequência se sentem tratados como cidadãos de segunda classe.

Podemos traçar analogias no Brasil, com os debates sobre a ditadura militar provocados pela minissérie "Anos Rebeldes" ou o filme "O Que é isso, Companheiro?". Imaginem o impacto de processos judiciais sobre crimes emblemáticos do regime autoritário, como os assassinatos de Rubens Paiva e Vladimir Herzog, o extermínio da guerrilha do Araguaia ou os atentados do Riocentro e da OAB.

3. Novos movimentos sociais e mudanças de valores levam a olhares mais detalhados para entender atrocidades do passado

Outra marca dos anos recentes é o esforço em reconhecer os vários grupos que foram vítimas de perseguições na Alemanha nazista, com a construção de memoriais específicos. O novo olhar é o resultado da ascensão de movimentos sociais que passaram a questionar discriminações que antes eram consideradas como normais por boa parte da população, como preconceitos com relação a ciganos, homossexuais ou pessoas com deficiências. São iniciativas que ainda têm um longo caminho a percorrer. Pesquisadores que estudam o genocídio dos sinti e roma (ciganos) enfrentam muitas dificuldades para conseguir encontrar a documentação, dispersa por vários países. E há o problema do preconceito contra os ciganos na Europa contemporânea, que torna mais difícil valorizar sua herança.

A perseguição aos homossexuais também é marcada por essa ambiguidade. Por muitos anos não eram citados entre as vítimas do nazismo. Mas com a ascensão do movimento gay, a partir da década de 1960, a discriminação por orientação sexual também entrou na agenda da memória, e foi construído um memorial específico sobre o assunto, em Berlim. Contudo, ele tem sido alvo de constantes atos de vandalismo, como pichações, o que não costuma acontecer com outros monumentos.

O mais recente memorial inaugurado na Alemanha, em setembro de 2014, é dedicado às pessoas com deficiências assassinadas no programa nazista conhecido como Ação T4. Foi nele que por primeira vez as autoridades do III Reich mataram civis em larga escala (500 mil pessoas), usando gás venenoso. Vários comandantes dos campos de concentração haviam trabalhado inicialmente no T4.

Contudo, o assunto só ganhou proeminência quando mudaram as atitudes da sociedade com relação às deficiências. Na época de Hitler muitos se envergonhavam de ter na família um parente com essas características. Quando se passou a frisar seus direitos, fortaleceu-se o repúdio à ideologia de extermínio e pretensa eugenia dos nazistas. O memorial também destacou a participação de médicos, enfermeiros e profissionais de saúde nos assassinatos em massa, deixando claro que eles não foram cometidos apenas por integrantes dos órgãos de repressão política.

4. Educação é fundamental para a memória, é preciso pensá-la de modo criativo

A memória não é só um esforço pessoal de lembrar sobre uma experiência vivida no passado, é também um empreendimento coletivo sobre o que uma sociedade decidiu destacar como importante em sua história. Isso é particularmente importante para as novas gerações, que não viveram diretamente o período do conflito e das atrocidades. Na Alemanha, o repúdio ao nazismo é marcado em todo o currículo escolar, não só nas aulas de história, mas também nas de literatura, ética e outras disciplinas.

No entanto, há a preocupação de muitos pedagogos em trabalhar esses conteúdos de forma criativa, levando os jovens a debater e questionar, para que a nova geração não receba simplesmente uma mensagem pronta, descolada de sua realidade. Há iniciativas que misturam arte e educação em direitos humanos para provocar esse tipo de discussão, como a 7xjung em Berlim, uma exposição que parte de situações cotidianas envolvendo música, esporte ou gênero no contraponto com o totalitarismo das décadas de 1930-40.

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