OPINIÃO
02/06/2015 17:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Geopolítica da FIFA

A FIFA talvez seja a organização internacional mais relevante na qual os Estados Unidos não desfrutam da liderança e há especulações sobre os interesses políticos do governo Obama em remover Blatter e colocar no cargo alguém mais simpático a seus propósitos - que criasse, por exemplo, obstáculos para as ambições da Rússia.

VALERIANO DI DOMENICO via Getty Images
FIFA President Sepp Blatter leaves after a press conference at the headquarters of the world's football governing body in Zurich on June 2, 2015. Blatter resigned as president of FIFA as a mounting corruption scandal engulfed world football's governing body. The 79-year-old Swiss official, FIFA president for 17 years and only reelected days ago, said a special congress would be called to elect a successor. AFP PHOTO / VALERIANO DI DOMENICO (Photo credit should read VALERIANO DI DOMENICO/AFP/Getty Images)

Joseph Blatter anunciou sua renúncia nesta terça-feira, quatro dias após ser eleito pela 5ª vez presidente da FIFA em meio ao pior escândalo internacional da história da organização. Ele foi descrito pelo jornal britânico The Guardian como "o mais bem-sucedido ditador do mundo". O próprio Blatter tem uma autodefinição mais modesta: "Não sou perfeito."

No dia 27 de maio sete dirigentes da FIFA foram presos na Suíça por ordem da justiça dos Estados Unidos, em investigações sobre corrupção envolvendo grandes empresas e a realização de torneios globais. Há muito em jogo: o futebol soma mais de 40% da renda esportiva do planeta, o triplo do competidor mais próximo. E tem sido comandado por poucas pessoas: em 111 anos de existência, a FIFA teve apenas oito presidentes. Nesse período, a Igreja Católica foi liderada por 10 papas - e o cargo é vitalício!

Blatter comanda desde 1998 uma entidade que tem mais integrantes do que a ONU. Politicamente é um herdeiro do brasileiro João Havelange, que a partir da década de 1970 galgou o poder no mundo do futebol fazendo com que a FIFA deixasse de ser um clube europeu e latino-americano e incorporasse as nações que surgiam do processo de descolonização afro-asiático.

Havelange foi pioneiro em estabelecer relações comerciais com grandes empresas de material esportivo e redes de televisão. O impacto disso: a Copa do Mundo é o evento de esportes mais visto do planeta - sua final reúne a atenção de mais de 10% da humanidade! A natureza dos acordos da FIFA é exatamente o que está no cerne do processo judicial iniciado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Entre os dirigentes presos estão cartolas do futebol latino-americano, como o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e seus colegas na Costa Rica e no Paraguai.

Mega eventos, protestos e processos

Comprar um clube de futebol ou assumir o comando de uma federação nacional é um passaporte para a política, porque dá uma enorme visibilidade ao dirigente. Silvio Berlusconi na Itália e Maurício Macri na Argentina seguiram esses passos ao adquirirem o Milan e o Boca Juniors e há vários exemplos de parlamentares no Brasil eleitos a partir de sua experiência como jogadores ou cartolas. Nesse sentido, a FIFA é simplesmente o ápice de uma pirâmide de relações e acordos que começam no plano local.

Contudo, a vitrine crescente também tem se traduzido numa pressão popular cada vez maior por transparência e prestação de contas, inclusive com grandes protestos de rua. A Copa da África do Sul, em 2010, foi a primeira marcada por fortes manifestações questionando o modelo de mega eventos patrocinado pela FIFA, as prioridades para gastos com estádios e a desatenção para os problemas sociais dos países que sediam esses torneios, tais como a remoção de favelas por conta de obras de infraestrutura. Com poucas mudanças, esse foi também o roteiro dos protestos que aconteceram na Copa do Brasil em 2014. Os vários escândalos de corrupção relativos à organização desses eventos foram igualmente catalisadores poderosos.

Outro fator que tem alimentado as controvérsias são as relações estreitas entre a FIFA e governos de reputação duvidosa. Por exemplo, as Ilhas Cayman nunca disputaram uma Copa do Mundo, mas esse paraíso fiscal de menos de 60 mil habitantes virou uma grande potência dentro da organização, recebendo investimentos milionários para desenvolver sua infraestrutura esportiva.

As decisões de sediar as próximas Copas em países autoritários como Rússia e Catar também recebem muitas críticas, repetindo um cenário que havia acontecido em ocasiões como 1978, quando a ditadura militar da Argentina usou o torneio como um instrumento de propaganda política. Contudo, é mais difícil para a FIFA lidar com esse tipo de pressão atualmente, em um mundo com redes de direitos humanos mais interconectadas e ativas, que questionam abusos como a repressão aos opositores do governo russo, ou o uso de trabalho análogo ao escravo nas obras esportivas no Catar. Os processos que levaram a ambas as escolhas são alvo de uma investigação da justiça suíça, iniciada após as prisões dos dirigentes.

As Disputas Internacionais

A FIFA talvez seja a organização internacional mais relevante na qual os Estados Unidos não desfrutam da liderança e há especulações sobre os interesses políticos do governo Obama em remover Blatter e colocar no cargo alguém mais simpático a seus propósitos - que criasse, por exemplo, obstáculos para as ambições da Rússia.

O principal rival de Blatter é o príncipe Ali bin Hussein da Jordânia, país que é sólido aliado americano no Oriente Médio. Os europeus, por meio da UEFA, também foram cruciais para a renúncia do presidente da FIFA, ameaçando inclusive um boicote à Copa de 2018 na Rússia - país com o qual a União Europeia está em sério conflito por conta do conflito armado na Ucrânia e da anexação russa da Crimeia.

"O futebol não é sobre guerra e paz", disse o ex-presidente da Costa Rica, Oscar Arias, "É sobre algo muito mais importante." O esporte pelo qual centenas de milhões de pessoas são tão apaixonadas mobiliza forças políticas e econômicas. Ninguém dúvida de que merece uma estrutura de governança mais transparente, limpa e eficaz. Contudo, esses esforços não se darão em campo neutro, mas em meio à feroz disputa por poder e influência internacional.

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