OPINIÃO
02/01/2015 10:49 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Duas ou três coisas que sei sobre o futuro

Se aquele DeLorean passasse por minha rua, eu pediria uma carona. Mas sem tanta pressa assim. Do nosso próprio jeito, este futuro que inventamos em 2015 é tão interessante quanto o dos filmes e com frequência mais surpreendentes.

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Quando eu era criança na década de 1980, o futuro começava no distante 2015, na data em que o doutor Emmett Brown e Marty McFly desembarcavam da máquina do tempo e descobriam carros voadores, energia limpa movida a lixo e até skates flutuantes. E agora que o futuro chegou, vejo que ele é bem diferente - para melhor ou pior - do que o imaginado nos clássicos da minha infância.

Noves fora a ausência de máquinas do tempo embutidas, os carros não voam. Aliás, com os engarrafamentos de hoje em dia no Rio de Janeiro ou São Paulo, às vezes sequer andam. Tenho dúvidas se os modelos atuais são tão mais avançados do que o DeLorean da série "De Volta para o Futuro". Certamente, não chegam nem perto do charme e estilo. Qual o futuro que hoje sonhamos para o transporte? Talvez usar mais a bicicleta.

Contudo, quando eu era criança o século XXI não tinha passado pela revolução das telecomunicações e da informática. A internet não existia. Os celulares, tampouco. Meu smartphone, que nem é dos melhores, tem tecnologia mais avançada do que o computador de bordo da máquina do tempo do dr. Brown e podem filmar ou fotografar de modo mais sofisticado do que a câmera portátil que o fascinou no primeiro episódio da série. A bem da verdade, de vez em quando aplico todo esse potencial para brigar com desconhecidos nas redes sociais ou tirar selfies de gosto duvidoso.

Continuo em busca do Sr. Fusão, o aparelho que transforma lixo em energia de modo tão eficiente que substituiu em 2015 o plutônio que o dr. Brown roubou dos líbios em 1985. A nossa dependência dos combustíveis fósseis, mesmo à luz dos problemas do aquecimento global e das guerras no Oriente Médio é tão impressionante que eu não me espantaria se recebêssemos a visita de viajantes do tempo numa missão desesperada de impedir que acabemos com as baleias, que destruamos o Ártico ou transformemos a Terra numa versão piorada de um galpão de zinco no verão carioca.

Os três filmes da série "De Volta para o Futuro" são ambientados numa pequena cidade da Califórnia e acompanham, entre outras mudanças sociais, a ascensão dos negros e a emancipação das mulheres. "Quem é o presidente em 1985?", pergunta Brown (em 1955) para McFly, e se surpreende em saber que era o ator de filmes B Ronald Reagan. Imagine sua reação se descobrisse que em 2015 é um afro-americano chamado Barack Hussein Obama. Por outro lado, problemas retratados na série - como o desemprego de McFly e a violência no futuro alternativo no qual Biff é o prefeito - não seriam assim tão surpreendentes diante do quadro dos últimos anos, com a crise econômica, as grandes manifestações contra brutalidade policial e os próprios altos e baixos da política californiana, com dificuldades que vão de rombos fiscais a mau abastecimento de energia elétrica, passando pela eleição do Exterminador do Futuro, Arnold Swarzenegger (Reagan reloaded?), ao governo estadual.

Não há referências à exploração espacial em "De Volta para o Futuro", excetuando comentários sobre Júlio Verne e piadas sobre Guerra nas Estrelas, mas os fãs de ficção científica da década de 1980 provavelmente estão decepcionados com os avanços lentos na área e sucessivos cortes orçamentários em grandes programas da NASA e outras agências - por exemplo, o fim dos ônibus espaciais. Contudo, há uma Estação Espacial Internacional funcionando numa cooperação cosmopolita inimaginável na Guerra Fria, e uma missão europeia que pousou um robô num cometa. O dr. Brown tomaria nota, impressionado, e pensaria o mesmo sobre o projeto Genoma, a descoberta do Bóson de Higgs ou pessoas movendo membros artificiais apenas com a força do pensamento.

Se aquele DeLorean passasse por minha rua, eu pediria uma carona. Mas sem tanta pressa assim. Do nosso próprio jeito, este futuro que inventamos em 2015 é tão interessante quanto o dos filmes e com frequência mais surpreendente.

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