OPINIÃO
26/02/2014 14:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Depois de Chávez, o dilúvio?

As perspectivas para a Venezuela são preocupantes. Governo e oposição não têm a maioria do apoio da população, a economia enfrenta problemas sérios e as frágeis instituições do país sofrem novos revezes com as violações de direitos civis e políticos.

A política da Venezuela nos últimos 15 anos tem sido marcada pela polarização ideológica entre o chavismo e seus críticos. Os protestos de fevereiro de 2014 são os maiores desde a tentativa de golpe oposicionista de 2002. São impulsionados por vários fatores: a piora da situação econômica, a deterioração da segurança pública e a fragilidade e disputas internas no governo após a morte de Hugo Chávez.

O chavismo é um amálgama de movimentos sociais e pequenos partidos de esquerda que gravitavam em torno de um líder carismático e centralizador, oriundo do médio escalão das Forças Armadas. Só no fim da década de 2000 Chávez tentou aglutinar todas essas correntes numa só organização, o Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV). Ele permanece uma instituição frágil, marcada por tensões entre pessoas da confiança do presidente (muitos deles seus parentes ou militares) e ativistas de base.

Essas diferenças se expressam na luta pela herança do chavismo entre o presidente Nicolás Maduro e o deputado Diosdado Cabello. Maduro é um ex-motorista de ônibus que ascendeu politicamente no sindicalismo, como funcionário do metrô de Caracas, e foi ministro das Relações Exteriores. Cabello foi um militar que participou da tentativa de golpe de Chávez em 1992 e depois fez carreira como governador e parlamentar. O primeiro tem laços mais fortes com os movimentos sociais; o segundo, com as Forças Armadas e os empresários. Nenhum tem as extraordinárias habilidades de comunicação de Chávez ou sua capacidade de manejar a heterodoxa coalizão de seus apoiadores.

Um chavismo dividido enfrenta uma oposição fortalecida. Os dois partidos que dominaram a política da Venezuela entre as décadas de 1950-1990 -- Ação Democrática e Copei -- deixaram de contar como forças relevantes e foram substituídos por novas siglas, mais dinâmicas, algumas delas oriundas de organizações da sociedade civil (como o Primero Justicia) ou mesmo de ex-chavistas (como o Podemos). Desde 2008 a maior parte da oposição formou uma frente ampla, a Mesa da Unidade Democrática, que nas eleições presidenciais de 2012 e 2013 teve, respectivamente, 44,25% e 49,12% dos votos. Seus líderes mais destacados são políticos jovens na faixa dos 30 e 40 anos que se formaram no enfrentamento a Chávez em postos regionais ou municipais, como Henrique Capriles e Leopoldo López, ou no parlamento, como Maria Corina Machado.

A força eleitoral da oposição cresceu com a piora da situação econômica na Venezuela, sobretudo a inflação, que em 2013 foi 56,2%. O governo implementou controles de preços que levaram a problemas de abastecimento de gêneros básicos e longas filas. O crime, em particular o homicídio, também tem crescido -- o país sofre cerca de 30 mil assassinatos por ano, sendo considerado um dos mais violentos do mundo. Esse número foi multiplicado em aproximadamente seis vezes ao longo da presidência de Chávez. Em janeiro de 2014, a morte da ex-miss Venezuela Mônica Spears em uma tentativa de assalto comoveu o país e levou o tema ao primeiro plano dos debates.

Esses problemas sociais fizeram o chavismo perder apoio até em bastiões tradicionais do movimento, como o complexo de favelas de Petare, em Caracas, onde a oposição ganhou eleições e conseguiu adeptos nos protestos. Um lembrete importante de que a polarização política na Venezuela não corresponde, necessariamente, a uma divisão entre pobres chavistas e classe média/elite opositores. Os dados eleitorais mostram que isso aconteceu em parte somente na eleição presidencial de 1998, mas que nas disputas seguintes o quadro ficou mais misturado, até porque houve a ascensão de uma nova classe média e de um grupo de empresários bem conectados ao regime (a chamada "boliburguesia"). Chávez -- como Vargas ou Perón -- liderava uma coalizão multiclassista, com apoio em várias faixas de renda.

A eleição presidencial de 2013, realizada após a morte de Chávez, terminou com uma vitória de Maduro por 1,5% de diferença de Capriles. Em si mesmo, o número não impressiona, é semelhante à distância que separou a vitória de Barack Obama sobre Mitt Romney. Contudo, em um país polarizado como a Venezuela, levou ao questionamento do resultado, acusações de fraudes e à consolidação de um setor da oposição que recusa a legitimidade de Maduro e pede sua renúncia. Nos protestos, estão representados em López, ao passo que Capriles segue linha mais moderada e tem se reunido com o presidente para negociar.

O governo reagiu aos grandes protestos de fevereiro com violência e restrições à liberdade de expressão, censurando o Twitter para impedir divulgação de imagens e vídeos e cassando as credenciais da equipe da CNN na Venezuela. Diversos manifestantes foram mortos e López foi preso acusado de incitar agressões. Integrantes da oposição e jornalistas têm denunciado ataques -- inclusive a tiros -- de grupos armados vinculados ao chavismo. As ações das autoridades venezuelanas têm sido criticadas por várias organizações, como Anistia Internacional, Human Rights Watch e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O Mercosul divulgou nota condenando tentativas de "desestabilização democrática" -- presume-se que por parte dos opositores.

O presidente Maduro está enfraquecido com os protestos, mas o chavismo continua a ser uma grande força política -- a principal da Venezuela. Nas eleições municipais de dezembro 2013 o governo conquistou cerca de 70% das prefeituras, mas teve apenas 49,2% dos votos. A discrepância se explica porque o PSUV ganhou terreno nas pequenas cidades do interior, enquanto a oposição se fortaleceu nos maiores centros urbanos, como Caracas, Maracaibo e Valencia, que concentram as atividades petrolíferas e industriais do país e são também o epicentro das manifestações.

As perspectivas para a Venezuela são preocupantes. Governo e oposição não têm a maioria do apoio da população, a economia enfrenta problemas sérios e as frágeis instituições do país sofrem novos revezes com as violações de direitos civis e políticos. O país enfrentou em seu passado recente tentativas de golpe dos chavistas (1992) e da oposição (2002). Nos últimos anos os embates políticos se deram de modo acirrado, mas dentro do arcabouço eleitoral. Esperemos que a violência de janeiro não destrua esse arranjo democrático precário.

(Texto publicado originalmente na Revista de História da Bilbioteca Nacional)

Nota do editor

A repórter Gabriela Loureiro agregou neste link abaixo tudo de mais importante que você pode ler sobre a crise da Venezuela. Recomendo:

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Depois de Chávez, oLucas Pretti