OPINIÃO
07/02/2014 17:24 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Beijinho no ombro, Putin: esporte e homofobia na Rússia e no Brasil

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SOCHI, RUSSIA - FEBRUARY 07: Russian President Vladimir Putin (R) enjoys the atmosphere during the Opening Ceremony of the Sochi 2014 Winter Olympics at Fisht Olympic Stadium on February 7, 2014 in Sochi, Russia. (Photo by Pascal Le Segretain/Getty Images)

As Olimpíadas de Inverno de 2014 que acontecem na cidade russa de Sochi entre 7 e 23 de fevereiro viraram o ponto focal de protestos globais contra a promulgação de recente legislação homofóbica e de violentos ataques contra homossexuais no país. O caso da Rússia tem lições importantes para outro país emergente que sediará mega evento esportivo neste ano: o Brasil. Como nações que aspiram a papel de liderança internacional devem lidar com os direitos de liberdade de expressão e de associação vinculados à orientação sexual?

A homossexualidade era crime na União Soviética e só deixou de sê-lo na Rússia em 1993. Apesar da Constituição do país proibir qualquer forma de discriminação, o cotidiano da comunidade LGBT tem sido marcado por agressões e medo (este vídeo da Human Rights Watch compila cenas impressionantes de ataques contra gays no país). A polícia com frequência se recusa a investigar casos de violência homofóbica ou mesmo a registrar queixas a respeito do tema. Em 2013 o governo russo promulgou lei que proíbe o que chamou de "propaganda de atividades sexuais não-tradicionais a menores de idade". A descrição vaga é usada para banir atividades públicas LGBTs, como as paradas do orgulho e para intimidar organizações da área por meio de multas ou investigações policiais.

A reação global à homofobia na Rússia tem sido intensa. A Corte Europeia de Direitos Humanos condenou o governo Putin por violar os tratados internacionais que proíbem discriminação. A Anistia Internacional lançou uma campanha pela revogação da legislação homofóbica e de leis russas que restringem outras liberdades civis, como tornar crime críticas à religião ou dificultar a captação de recursos no exterior por associações da sociedade civil. No Brasil, realizamos protestos em várias cidades e nos reunimos com o embaixador russo em Brasília para entregar-lhe abaixo-assinado e cartões postais com mensagens dos brasileiros a Putin.

Atletas e autoridades de vários países têm utilizado as Olimpíadas de Inverno como oportunidade para tornar público seu repúdio à intolerância. O Google alterou sua página inicial para ressaltar o princípio olímpico de não-discriminação. Beijinho no ombro, Putin, para usar gíria LGBT brasileira para desprezo, popularizada no funk.

Como o Brasil situa-se com relação ao tema, às vésperas da Copa do Mundo? O país não promulgou leis homofóbicas, mas tem políticos ativos na promoção do ódio -- alguns são parte da base governista e entraves à formulação de políticas públicas de combate à discriminação. É significativo que os principais avanços brasileiros na área de orientação sexual, como a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, tenham vindos do Poder Judiciário e não do Congresso.

Não há dados oficiais para a violência homofóbica no Brasil, mas levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia registrou mais de 300 assassinatos por ano. Em 2014, já foram 41. No Chile, o homicídio de um adolescente gay levou o presidente à cadeia nacional de TV para expressar sua oposição à violência. Quando veremos atitude parecida por parte de um líder político brasileiro?

Os frequentes assassinatos de gays acontecem no mesmo país que tem nas paradas do orgulho alguns de seus maiores eventos públicos, e que vibrou com o beijo entre dois homens na novela das 21h, em trama marcada pela aceitação da própria sexualidade por parte do protagonista e pela reconciliação com o pai e a sinalização para uma forma de família mais aberta e tolerante.

O esporte tem se mostrado particularmente difícil para o combate à discriminação por orientação sexual no Brasil. No futebol, nenhum atleta até agora se assumiu como homossexual. A provocação do jogador Emerson Sheik ao beijar um amigo deslanchou uma série de agressões e preconceitos, brilhantemente analisadas pelo jornalista David Butter. A criação de uma torcida organizada LGBT, a Gaivotas Fiéis, também provocou reações extremadas, mas ao mesmo tempo impulsionou o debate sobre a homofobia no futebol.

As Olimpíadas de Inverno são um problema político para a Rússia, por conta dos protestos internacionais contra a homofobia no país. A Copa do Mundo no Brasil é uma oportunidade para a sociedade brasileira enfrentar de maneira mais decidida suas contradições com relação à discriminação contra a comunidade LGBT. Em um país sedento de reconhecimento global por seu novo status de potência emergente, tomara que a pressão externa funcione também como incentivo para posições mais avançadas por parte do governo.