OPINIÃO
31/01/2014 19:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A geração da democracia

Pela primeira vez na história do Brasil há uma geração de jovens nascidos e criados sob a democracia. Têm mais educação formal, renda e acesso à informação do que seus pais e avós, com expectativas elevadas com relação às políticas públicas e serviços do Estado. Os grandes protestos ocorridos no segundo semestre de 2013 mostram a força de suas demandas, seu questionamento aos partidos e sua busca por novas formas de ação política, com o uso intenso e criativo das redes sociais. Essa inquietação renova a sociedade brasileira e terá destaque em um ano no qual o país viverá eleições gerais, Copa do Mundo e o aniversário de 50 anos do golpe de Estado.

Há uma lacuna entre os anseios e expectativas dos jovens da geração da democracia e a capacidade do sistema político em responder a eles, ou mesmo em compreendê-los. Com mais fontes de informação, são céticos com relação às visões de mundo tradicionais dos partidos e da grande imprensa. Para quem cresceu na polifonia da internet, as visões de mundo costumeiras na direita e esquerda soam com frequência como aquela velha opinião formada sobre tudo, em descompasso com o dinamismo da sociedade contemporânea.

As novas tecnologias fornecem aos jovens ferramentas para mobilização rápida e barata, permitindo encontrar com outras pessoas com interesses semelhantes, em um circuito de comunicação próprio, independente das instituições. Acabou o tempo em que passeatas eram convocadas por organizações e comandadas do alto de carros de som que seguiam à frente dos manifestantes. Os protestos atuais têm lideranças e agendas mais difusas, por vezes difíceis de compreender -- o que querem os Black Blocs? Os rolezinhos nos shoppings são uma forma de manifestação? Quem fala em nome dos que foram às ruas desde junho?

As inquietações da juventude brasileira vêm de muitas correntes e falharam as tentativas em encontrar um porta-voz ou símbolo desta geração. Mais interessantes são os esforços em descobrir os elos e continuidades das lutas contemporâneas com os movimentos do passado, sobretudo a geração de 1968 e seu embate contra a ditadura, como os escrachos contra pessoas acusadas por tortura são conduzidas por jovens que não aceitaram o pacto de impunidade que regeu a transição para a democracia.

Outros países nos quais regimes autoritários foram derrubados há poucas décadas enfrentam desafios semelhantes aos do Brasil. Participei da pesquisa "Juventudes Sul-Americanas: diálogos para a construção da democracia regional", coordenada pelo Ibase e pelo Instituto Pólis, que examinou movimentos sociais juvenis na região. Os jovens apontaram educação e emprego como suas principais preocupações, com uma análise bastante sofisticada de seus dilemas.

Essas metas são permeadas pela insatisfação com as oportunidades que lhes são oferecidas por governos, sindicatos e empresas: "Se sou jovem, perco", nos disse um ativista uruguaio, reclamando que seu partido o incentivava a participar de debates sobre sexualidade e drogas, mas lhe fechava as portas para discussões sobre economia. Jovens sindicalistas brasileiros se queixavam de que suas organizações os viam sobretudo como aqueles que tocariam festas e divertimentos.

Rapazes e moças da Bolívia e do Paraguai em busca da inserção no mercado de trabalho lamentavam a discrepância entre os currículos escolares e as necessidades da vida profissional, a distância dos professores e empresas que buscam neles mão de obra para tarefas difíceis, que exigem grande esforço físico ou horários irregulares. São preocupações compreensíveis: o percentual de jovens que não estudam nem trabalham tem crescido em dezenas de países e em geral oscila entre 20% e 25% e o problema é particularmente grave entre as mulheres.

Por fim, mas não menos importante, há a violência. No Brasil, nos trinta anos desde a redemocratização os homicídios de jovens cresceram 326%, e correspondem a cerca de dois terços dos mais de 50 mil assassinatos que ocorrem por ano no país. A maioria das vítimas é de rapazes negros e pobres, moradores de favelas e bairros de periferia das grandes cidades, sobretudo no Nordeste. É um grupo vulnerável, com pouco poder e visibilidade. Não foram protagonistas das manifestações de junho.

A geração da democracia vive em um país melhor do que aquele do passado recente, mas não é fácil ser jovem no Brasil. Os líderes políticos enfrentam o desafio de entender a nova juventude, incorporar suas demandas ao jogo institucional e oferecer respostas viáveis a seus problemas. Será o rito de passagem da fase juvenil para a maturidade do regime democrático brasileiro.