OPINIÃO
23/09/2017 06:26 -03 | Atualizado 23/09/2017 06:26 -03

Qual o papel da arte em tempos de crise social e política?

Novas formas de ensinar e aprender a fazer cidade são urgentes.

Esta instalação faz parte do projeto de instalação urbana "Praças Impossíveis".
Divulgação
Esta instalação faz parte do projeto de instalação urbana "Praças Impossíveis".

Em um momento em que escorrem entre nossos dedos tantos dos direitos e desejos que julgávamos óbvios e inescapáveis – os cuidados com a vida coletiva e o meio ambiente, a mobilidade dentro do território urbano, os direitos fundamentais para todos e todas –, vamos falar de arte? Numa hora destas?

Acontece que não há outra possibilidade: estamos vendo tantas coisas que pareciam sólidas se desmancharem à nossa frente. O valor de uso das coisas (incluindo o espaço urbano) parece esquecido, substituído pelo valor de troca. A lógica especulativa se sobrepuja ao valor real enraizado no local e construído pela experiência vivida. Parece que esquecemos a realidade, de tão distraídos que estamos com essa ficção que inventamos.

Tudo aquilo que é público hoje é encarado com desconfiança, com medo até. É vigiado, controlado, de tempos em tempos usurpado por interesses privados, sufocado pelo braço armado do Estado, para prejuízo de todo mundo.

Qualquer iniciativa gestada de baixo pra cima, a partir da rua, fica marcada a ferro com a foice e o martelo, como se meramente ser livre fosse subversivo. Enquanto discutimos a monetização dos recursos, políticas de pertencimento local vão se erodindo, e a cidade já não é mais nossa ou sua, esvaziada de sua complexidade.

Cabe aos artistas e aos produtores culturais pensar estrategicamente e compreender que a fronteira se reconfigurou: o único campo de enfrentamento possível é a rua. É a vida.

A apropriação dos espaços públicos e a afirmação do direito à cidade nas metrópoles globais é uma ação bem mais do que simbólica. É política. É talvez a única política que nos restou fazer. E não deixa de ser arte, porque subverte os sentidos das coisas, reconfigura os imaginários.

Não há resposta possível se não for pela arte. Como ato de amor, é também ato de coragem.

O movimento dos estudantes secundaristas da rede pública que tomou escolas no Brasil todo no ano passado, em um momento de sucateamento do sistema público de ensino, e passou a desenvolver uma forma radical de pedagogia autônoma, aponta para um ativismo de resistência urbana fundamental.

Ao cavar uma trincheira em um território sequestrado, no qual mafiosos roubam até merenda, o movimento assume para si a responsabilidade de uma outra forma de apropriação. Reivindica o direito de ser gestor de si mesmo, prototipando maneiras de construção coletivas que servem de inspiração para outros equipamentos públicos da cidade.

Como artistas, educadores e produtores culturais devem interferir sobre fenômenos como esse? Como a arte pode ir além de alimentar a imaginação sobre a cidade e ser também uma ferramenta de costura de arranjos sociais, de fomento de práticas cidadãs, de produção e gestão de conhecimentos comuns, abertos e compartilhados, de construção de novos valores, vínculos e diversidades ao redesenhar novas tecnologias de escuta e de ação? De mudança concreta do significado das coisas – e das coisas em si.

Afinal, em metrópoles cada vez mais multiculturais, mas ao mesmo tempo opressivamente homogêneas, devemos considerar a cidadania em si um ato criativo. A arte, como exercício libertador, tem a obrigação de nos fazer lembrar da possibilidade de um encontro, de uma conversa, de um grito e de um suspiro.

Afinal, nem tudo está perdido. Na mesma medida em que diversas áreas do público se tornam reféns do privado, novos territórios de produção do comum são reconfigurados: coletivos que buscam resgatar a conexão com rios e nascentes, hortas urbanas autogeridas, grupos teatrais que escolhem espaços urbanos como palco, espaços de abrigo para comunidades da diversidade, designers urbanos criando equipamentos de convivência pra crianças e adultos, amigos de bairros que reformam equipamentos degradados, comunidades imigrantes promovendo feiras culturais, arquitetos projetando habitações de interesse popular e infinitas reticências...

É na micropolítica que a resistência continua operando, à margem da economia formal, invisível aos mercados de arte e das instituições de cultura. Um entre tantos exemplos é o artista americano Theaster Gates, com suas lindas e absurdas intervenções em Chicago. Seus projetos, como regra, envolvem comunidades (em geral negras), renovação urbana de bairros degradados e geração de fundos através da comercialização de obras de arte em feiras e galerias de alto quilate.

Em 2012, Gates convenceu o prefeito de Chicago a lhe vender por 1 dólar um majestoso e degradado edifício onde um dia funcionou um banco de investimentos, o falido Stony Island State Savings. Na negociata estava a promessa de Gates financiar os estimados 3,5 milhões de dólares necessários para transformar o imóvel num centro cultural multi-funcional para a comunidade local.

Para levantar o dinheiro, Gates criou o Bank Bond-2013 (ação do banco), uma edição de 100 peças de mármore retiradas do próprio interior do prédio. O valor unitário foi de 5.000 dólares, e nas peças foi gravada a frase: "In Art we Trust" (acreditamos em arte) como parte da campanha para arrecadar fundos para o projeto.

Atuando como catalisador entre necessidades locais e poder, entre políticas públicas e sistemas econômicos privados, Gates vem criando um curto-circuito entre arte, ativismo e urbanismo. E assim ele alavanca intervenções que enxergam, além das boas intenções, sonhos pragmáticos de sustentabilidade urbana.

É nessas circunstâncias e condições que um papel transformador da arte, do design, da arquitetura e do ativismo ambiental pode emergir. Um papel que vai além da mera representação simbólica para interferir na dimensão operativa e constitutiva dessas realidades físicas, sociais, culturais, políticas e econômicas.

Em um momento de crise, precisamos manter vivo o fluxo de conhecimento e ação entre as diferentes interfaces que configuram o público para transpor o vazio entre o visível e o invisível, o negociável e o inegociável, o individual e o comum.

Novas formas de ensinar e aprender a fazer cidade são urgentes, e essa prática se constitui ao mesmo tempo um desafio e um fértil terreno para a arte operar.

Só a arte salva!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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