OPINIÃO
11/05/2015 14:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Matthieu Ricard: 'Nascemos para ser bons uns com os outros'

Matthieu Ricard

É inspirador ver como as pesquisas realizadas nos últimos anos demonstram que até quando somos bebês estamos programados para cooperarmos e sermos prestativos.

No Instituto Max Planck de Leipzig, Michael Tomasello e Felix Warneken determinaram que crianças a partir de um ano de idade, que é quando começam a andar e falar, exibem um comportamento de cooperação e ajuda mútua de forma espontânea, sem que eles fossem ensinados por adultos.

Em um experimento, crianças bem novas ofereceram ajuda, espontaneamente, ao pesquisador, quando ele realizava várias tarefas; elas o ajudaram a recolher objetos que tinham caído no chão. Em uma entrevista de Warneken à BBC, ele diz:

Os resultados foram impressionantes pois essas crianças são tão pequenas - elas ainda usam fraldas e mal conseguem se comunicar por meio da linguagem, mas já mostram uma predisposição para ajudar.

As crianças reconheceram, em uma situação específica, que um adulto realmente precisava de ajuda. Elas conseguiram distinguir se um adulto jogou um prendedor de roupa no chão propositalmente ou se ele o deixou cair acidentalmente. [1]

É bem interessante notar que se as crianças forem recompensadas ao ajudar, sua predisposição para ajudar não aumenta. Muito pelo contrário. As crianças que foram recompensadas ofereceram ajuda com menos frequência do que aquelas que não recebiam nada em retorno.

Warneken e Tomasello:

Esta surpreendente descoberta oferece ainda mais evidência para a hipótese de que a predisposição das crianças para ajudar é impulsionada por um motivo intrínseco em vez de extrínseco.

Os bebês preferem pessoas amigáveis

Também foi descoberto que bebês e recém-nascidos preferem pessoas que se comportam gentilmente com outras pessoas, em detrimento do que os tratam com hostilidade. No laboratório de Paul Bloom, na Universidade de Yale, Kiley Hamlin mostrou a bebês de seis a dez meses um vídeo em que uma bola vermelha com olhos grandes tentava subir uma colina. Em alguns casos, um quadrado amarelo ia atrás da bola empurrando-a gentilmente até o topo (ajudando); em outros, um triângulo verde passava na frente e empurrava a bola para baixo (impedindo).

Em seguida, o pesquisador colocava uma réplica do objeto que ajudava e do que atrapalhava em uma bandeja, para ver qual o bebê escolheria. A grande maioria dos bebês preferia quem ajudava. [2]Pesquisas mostraram que mesmo os bebês de três meses apresentam as mesmas preferências.[3]

Mais felizes em dar do que receber

Em Vancouver, as psicólogas Lara Aḳnin, Kiley Hamlin, e Elisabeth Dunn, demonstraram que crianças de dois anos de idade ficavam mais felizes quando davam uma guloseima para outra pessoa do que quando elas mesmas ganhavam uma.

No primeiro experimento, o pesquisador pegou um doce do bolso, deu para a criança e perguntou se ela queria para ela mesma ou se queria dá-lo a outra pessoa: a criança demonstrava mais felicidade no último caso. No segundo experimento, o pesquisador deu alguns doces para que as crianças colocassem na tigela. Um pouco mais tarde, ele sugeriu ao filho que desse uma guloseima a alguém, e a criança demonstrou mais felicidade nessa situação. [4]

A tendência de ajudar os outros é inata

Michael Tomasello concluiu que a predisposição para ajudar se manifesta muito cedo, bem antes dos pais inculcarem nos filhos regras de socialização, e que a pressão não determina esse comportamento. A descoberta de um comportamento semelhante entre os símios o leva a pensar que o comportamento de cooperação altruísta está profundamente ancorado na nossa natureza, e já estava presente no ancestral de humanos e chimpanzés, cerca de seis milhões de anos atrás. [5]

Quando as normas sociais moldam o altruísmo espontâneo

Depois dos cinco anos, as crianças começam a discriminar de acordo com graus de parentesco, comportamento recíproco e outras normas culturais inculcadas nela. O comportamento altruísta da criança torna-se portanto mais seletivo, já que, a fim de ser mantido por gerações, ele precisa estar associado a mecanismos que protejam os indivíduos contra o abuso feito por outros.

Entre as idades de dez e doze anos, a criança pensa mais sobre o que significa "ser uma boa pessoa" e como fazer com que suas ações estejam em harmonia com a moralidade, tanto as inatas, como as aprendidas com os coleguinhas. Isso leva a criança a compreender, por exemplo, que alguns sofrimentos resultam de pertencer a uma comunidade oprimida, e assim, sentir simpatia por essas vítimas, embora ela nunca tenha tido contato com elas.

Na adolescência e na vida adulta, algumas pessoas expandem o seu círculo de altruísmo, experimentando um profundo sentimento de "humanidade compartilhada" com outros seres humanos e empatia pelas pessoas que sofrem.

Nós selecionamos as práticas de educação que refletem nossos conceitos de infância. Se reconhecemos que as crianças nascem com uma propensão natural para a empatia e altruísmo, podemos estruturar a sua educação para acompanhar e facilitar o desenvolvimento dessa predisposição.

Uma educação sábia deve destacar a interdependência que reina entre as pessoas, animais e o nosso meio ambiente. Ao sermos ensinados a pôr mais ênfase na cooperação do que na concorrência, e no carinho em vez da indiferença, as crianças estarão melhor preparadas para contribuírem para uma sociedade mais altruísta.

Referências:

1. Warneken, F., & Tomasello, M. (2006). "Altruistic helping in human infants and young chimpanzees." Science, 311(5765), 1301; Warneken, F., & Tomasello, M. (2009). The roots of human altruism. British Journal of Psychology, 100(3), 455-471.

2. J. K. Hamlin, K. Wynn, and P. Bloom, "Social Evaluation by Preverbal Infants," Nature 450 (2007): 557- 59. Bloom, Paul (2013-11-14). Just Babies: The Origins of Good and Evil (Kindle Locations 2708-2709). Random House. Kindle Edition.

3. J. K. Hamlin, K. Wynn, and P. Bloom, "3-Month-Olds Show a Negativity Bias in Social Evaluation," Developmental Science 13 (2010): 923- 39. Bloom, P. (2013). Just Babies: The Origins of Good and Evil. Crown.

4. Aknin, L. B., Hamlin, J. K., & Dunn, E. W. (2012). "Giving leads to happiness in young children." PLoS One, 7(6), e39211.

5. Tomasello, M. (2009). Why we cooperate. The MIT Press.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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