OPINIÃO
12/05/2015 12:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

'A revolução mindfulness deve andar junto com a revolução altruísta'

Quando a mente está agitada e confusa, quando a nossa percepção da realidade é altamente distorcida por pensamentos primitivos como o ódio, o desejo, a inveja e a arrogância, o sofrimento surge. A mindfulness pode ser uma maravilhosa ferramenta que nos ajuda a perceber quando esses pensamentos destrutivos surgem e impedir que invadam ainda mais as nossas mentes.

Matthieu Ricard

A prática de mindfulness ("atenção plena", em português), baseada especificamente no método da Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), foi desenvolvida por Jon Kabat-Zinn e tornou-se extremamente bem-sucedida.

Nos últimos 30 anos, a prática ganhou reconhecimento mundial e despertou interesse, não apenas na área médica, onde foi aplicada pela primeira vez, mas também em sistemas de ensino e no mundo corporativo.

Quando instrutores qualificados como Jon Kabat-Zinn, ele mesmo uma pessoa muito compassiva, ensina a prática mindfulness, as principais mensagens que vêm à mente são de benevolência, altruísmo e compaixão.

No entanto, nem sempre é assim. Um professor pode deixar de fora esse importante componente na sua apresentação ou método. Quando a bondade e a compaixão não estão claramente presentes no treinamento, há sempre o risco de usar a mindfulness meramente como ferramenta para aumentar a concentração e o foco, com o objetivo de atingir metas eticamente questionáveis.

Quando a mente está agitada e confusa, quando a nossa percepção da realidade é altamente distorcida por pensamentos primitivos como o ódio, o desejo, a inveja e a arrogância, o sofrimento surge. A mindfulness pode ser uma maravilhosa ferramenta que nos ajuda a perceber quando esses pensamentos destrutivos surgem e impedir que invadam ainda mais as nossas mentes.

No entanto, a prática da mindfulness por si só é suficiente? É um pouco otimista demais acreditar que a mindfulness transformará você automaticamente em uma pessoa mais compassiva.

Uma mente calma e clara não é em si garantia para um comportamento ético. É possível que existam atiradores e psicopatas capazes de ter uma atenção plena, mantendo uma mente calma e estável. Mas não é possível que existam atiradores e psicopatas compassivos.

Ao praticar a atenção plena, ou mindfulness, com compaixão, ganhamos dois pelo preço de um, já que, a fim de cultivar a compaixão, precisamos estar atentos e conscientes. Quando nossa mente está em todas partes, não estamos cultivando nada.

Para proteger essa prática de qualquer desvio, um componente claro de altruísmo precisa ser incorporado desde o início. Precisamos chamá-la, sistematicamente, de

"mindfulness compassiva".

Ao fazermos isso, oferecemos uma maneira muito poderosa e secular de cultivar a benevolência e promover uma sociedade mais altruísta, ao mesmo tempo cultivando a atenção plena a qualquer momento. Para ser totalmente transformadora, a revolução mindfulness deve andar de mãos dadas com a revolução altruísta.

Foto por Matthieu Ricard.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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