OPINIÃO
20/03/2015 18:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

A polêmica capa de Batgirl #41 e o que aprendemos com isso

Assim que a capa foi divulgada na internet, a recepção foi imediata: a comunidade começou uma campanha utilizando a hashtag #ChangeTheCover, pedindo para a DC Comics alterar a arte, considerada ofensiva e com apologia ao estupro.

Na semana passada, surgiu uma grande polêmica na indústria das HQs: a capa variante de Batgirl #41, feita pelo brasileiro Rafael Albuquerque. Nela, temos o Coringa apontando para a personagem de forma ameaçadora enquanto segura uma arma. Além disso, a heroína está chorando assustada. A capa faz parte de uma série comemorativa com o vilão, que completa 75 anos em 2015 e para quem conhece o histórico entre os personagens a capa remete à clássica história "A Piada Mortal", de Alan Moore e Brian Bolland.

Na graphic novel em questão, o Coringa aleija Barbara Gordon dando um tiro em sua espinha, fato que mudou a vida da personagem para sempre e é considerado um clássico na história das HQs.

Assim que a capa foi divulgada na internet, a recepção foi imediata: a comunidade do Tumblr e Twitter (público-alvo da revista) começou uma campanha utilizando a hashtag #ChangeTheCover, pedindo para a DC Comics alterar a arte, considerada ofensiva e com apologia ao estupro.

Logo em seguida, surgiu outra hashtag, a #SaveTheCover, com fãs defendendo o desenho batendo na tecla da liberdade e na questão da homenagem. Um longo debate aconteceu nas redes sociais, com cada lado defendendo seus pontos de vistas, até que o artista brasileiro solicitou para a editora não publicar a capa.

A história virou manchete global e a discussão ainda está rolando nas redes sociais. Mas afinal, não publicar a capa foi justo ou injusto?

Antes de tudo, é preciso entender todo o contexto envolvendo a personagem. Assim que tomou o tiro e ficou paraplégica, Barbara Gordon sofreu um longo e doloroso processo de recuperação, ficando incapaz de sair pelas ruas como a super-heroína Batgirl. Com isso, ela acabou ajudando os heróis de outra forma, como Oráculo, oferecendo suporte computadorizado a qualquer momento.

Em 2011, a DC relançou a sua linha de heróis por meio de um reboot e a personagem voltou andando de boas (depois foi explicado como ela voltou a se locomover) para a alegria dos fãs. No final do ano passado, a revista tomou um rumo criativo diferente, com troca de autores e prometendo um foco mais voltado para o público adolescente, frequentador das redes sociais, e com uma pegada feminista e inspiradora para essa faixa etária.

Assim que saiu a edição #35 com a nova fase, o sucesso foi instantâneo: milhares de críticas positivas, muitas adolescentes e a crítica especializada apoiando o novo direcionamento. Além de mudar o tom da HQ também houve uma mudança de uniforme na heroína, um visual mais voltado para os tempos atuais, fugindo do tradicional e normalmente apelativo uniforme que as heroínas têm.

Esse uniforme novo foi outro sucesso imediato e que inspirou vários cosplayers a criarem a roupa nova e divulgar pela internet. A personagem passou a ser um modelo de inspiração para o jovem público feminino, que enfim encontrou uma personagem atualizada para os tempos modernos e com quem pudessem se identificar.

E aí veio a capa com o Coringa.

Para quem é macaco velho no mundo das HQs, a referência foi óbvia. Mas para um público de 14-17 anos, não. Esse público não tem a obrigação de saber da história, eles estão entrando agora nesse mundo. Uma revista voltada para adolescentes não pode ter uma capa com uma temática tão pesada como essa. Batgirl tem como missão inspirar leitores carentes de personagens fortes e atualizadas, que elevem a autoestima feminina e mostrem que sim, elas podem.

Ao publicar essa capa a DC Comics enviaria uma mensagem totalmente contrária. Ela foge da proposta original, mostrando uma personagem oprimida e sem reação.

Claro que dá pra entender os defensores da publicação da capa, são leitores antigos da indústria de HQs. Eles entenderam a referência e homenagem. Beleza, mas eles não são o público-alvo da publicação. É preciso perceber o contexto e compreender a situação.

A questão aqui nem é a liberdade de expressão, opressão ou algo parecido. É deixar de lado certas verdades absolutas e se por no lugar de uma menina que iria comprar a revista: você se sentiria bem em ver a sua heroína favorita em uma situação daquela?

Logo de cara eu achei a atitude por parte dos envolvidos errada. Mas estava pensando como leitor antigo de HQ. Parei pra pensar e vi o cenário maior, deixando de lado a cabeça de leitor velho.

Rafael Albuquerque e a DC Comics agiram muito bem nesse caso. O bom senso prevaleceu aqui. Ainda bem.