OPINIÃO
30/04/2015 15:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Como escapei depois de passar 12 anos preso dentro de meu próprio corpo

Courtesy Martin Pistorius

Primeira Parte

Minha mãe me olhou com lágrimas nos olhos. Eu queria poder tranquilizá-la, me levantar da cadeira de rodas e deixar para trás esse corpo, um invólucro que tinha causado tanta dor.

"Você precisa morrer", ela me disse, falando devagar. "Você precisa morrer."

Quando ela pronunciou essas palavras, o resto do mundo parecia ter ficado tão longe. Ela se levantou e me deixou no quarto silencioso. Naquele dia, tive vontade de fazer o que ela me pedia. Eu ansiava por abandonar minha vida.

À medida que o tempo foi passando, porém, fui aprendendo pouco a pouco a entender o desespero de minha mãe e perdoá-la. Cada vez que ela olhava para mim, só conseguia enxergar o fantasma do garoto que ficou para trás quando seu filho antes saudável adoeceu.

Em janeiro de 1988, com 12 anos de idade, voltei para casa com dor de garganta e nunca mais retornei à escola. Nos meses seguintes, parei de comer, comecei a passar horas dormindo todos os dias e a reclamar de dor quando andava.

Martin Pistorius ready for school

À medida que meu corpo foi se enfraquecendo, o mesmo acontecia com minha mente. Primeiro eu esqueci dados concretos, depois coisas familiares, como regar meu bonsai, e finalmente eu me esqueci dos rostos das pessoas.

Meus músculos foram definhando, meus braços e pernas começaram a se mover de modo espasmódico, meus pés e mãos se encurvaram, como garras.

Eu não reagia a nenhum estímulo. E os médicos não conseguiam diagnosticar a causa do problema.

Recebi tratamento contra tuberculose e contra meningite criptocócica, mas não foi feito nenhum diagnóstico conclusivo. Tentaram uma medicação depois de outra, em vão. Depois de mais ou menos um ano de exames, os médicos admitiram que suas opções tinham se esgotado. A única coisa que podiam dizer era que eu tinha um transtorno neurológico degenerativo e que meus pais, Joan e Rodney, deveriam me internar numa instituição e deixar que a doença seguisse seu curso natural.

Gentilmente e sem hesitar, os médicos desistiram de cuidar de mim e se isentaram de qualquer responsabilidade. Na prática, nos disseram para aguardar até que minha morte viesse libertar a nós todos.

Aos 14 anos, comecei a passar meus dias num centro de tratamento, voltando para casa todas as noites. Outros dois anos se passaram comigo perdido em meu mundo escuro, onde nada se enxergava.

Eu ficava deitado ali, como um invólucro vazio, sem ter consciência do que me cercava.

Então, um dia, comecei a reviver. Primeiro houve apenas clarões, quando minha mente começou a despertar.

Aos 19 anos, minha mente já estava completamente intacta; eu sabia quem era e onde estava, mas meus membros eram inúteis e minha voz não saía. Você já viu um daqueles filmes em que alguém acorda e descobre que virou fantasma, mas não sabe que já morreu? Era assim comigo, quando eu percebia que as pessoas olhavam em minha volta e através de mim, sem me enxergar. Eu não conseguia emitir um único som ou sinal para avisar às pessoas que tinha voltado a ter consciência das coisas. Eu era invisível - o menino fantasma.

Martin Pistorius - Ghost Boy

Pouco a pouco recobrei controle suficiente do meu pescoço para conseguir mover minha cabeça para baixo e para a direta, erguendo-a ocasionalmente e sorrindo em resposta a perguntas simples.

Mas as pessoas não percebiam o que significavam meus movimentos recém-conquistados: pensavam que eram sinais de um melhora apenas muito básica. Ninguém cogitava que a melhora de minhas reações pudesse significar que minha inteligência estava intacta.

Houve uma pessoa que me ofereceu uma saída segura de meu eu silencioso: Virna van der Walt, uma assistente no centro de atendimento que fazia massagens de aromaterapia. Ela tinha certeza de que eu entendia o que ela dizia, devido ao modo como olhava e sorria para ela. Em pouco tempo Virna convenceu meus pais que eu devia ser examinado para ver se havia alguma possibilidade de me comunicar.

Continua.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.