OPINIÃO
22/09/2014 22:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Já deu: o turista x o viajante

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Eu, sendo iluminada e mais indie que você na montanha Vidova Gora, na Croácia

Se tem uma coisa que me dá bode toda vez que eu vejo, são textos diferenciando "o viajante" e "o turista". Você já deve ter caído num link assim. Basicamente estes textos discorrem sobre como, "Ó, os viajantes são seres iluminados e incríveis, que mudaram completamente sua vida, pois conheceram outras culturas e desapegaram dos bens materiais." Os turistas, ao contrário, só querem tirar selfies diante dos cartões postais, comer exatamente o que comeriam em seu país de origem e voltar para casa carregados de sacolas do Free Shop. O viajante, esse monge tibetano. O turista, esse pateta narcisista.

Não sabe do que eu tô falando? Pois pesquise "turista e viajante" no Google e veja quantos resultados vão sair. Essa diferenciação é uma tendência. E sabe como eu vejo esse tipo de texto? Como um monte de blablablá de classe média/alta privilegiada querendo se diferenciar de outro grupo da classe média/alta privilegiada por causa de seus padrões de consumo. Oê, oê, oê, eu sou mais indie que você.

Digo mais: acho que essa diferenciação está na moda devido ao crescimento da classe C no Brasil. Agora que a viagem internacional "orkutizou", agora que sua manicure e o porteiro do seu prédio também podem contemplar ir à Disney (pagando em zilhões de vezes, mas podem), não é mais "cool" viajar de pacote. Cool é fazer mochilão na Tailândia para descobrir o seu verdadeiro eu.

Viajar é legal? Muito. Sou da turma que acredita que este é o melhor investimento a se fazer na vida. Viajar amplia seus horizontes e tende a fazer de você uma pessoa mais tolerante? Sim. Você aprende muito sobre si mesmo viajando? Sim também. Mochilar se hospedando com nativos é uma experiência muito mais enriquecedora intelectualmente do que um pacote "Europa em cinco dias" ou uma maratona pelos outlets de Miami? Óbvio.

Mas, ao fim e ao cabo, o que o viajante e o turista estão fazendo é a mesmíssima coisa: consumindo. Eles só consomem nichos diferentes de turismo. São dois tipos diferentes de consumidor. E, se você não é um ser humano melhor do que o coleguinha ao lado porque seu celular é um iPhone e o dele é um Samsung (apesar de que tem muita gente que acredita mesmo que seja), viajar não vai fazer de você um ser espiritualmente iluminado em comparação com o coleguinha sacoleiro de Miami.

Não importa quão baratos sejam os albergues que você fica ou o quanto você faz Couch Surfing. Isso não deixa de ser experiência de uma classe privilegiada, que pode se dar ao luxo de, depois de pagar todas as suas necessidades básicas, ainda juntar algum dinheiro para explorar outros lugares. Quem são a maioria das pessoas nos albergues europeus? Jovens de países ricos ou das classes média e alta de países emergentes, muitos com dinheiro do papi. Quem são a maioria das pessoas no Couch Surfing? Jovens de países ricos ou das classes média e alta de países emergentes, que já não moram mais com o papi. Só jovens classe média falam inglês como segunda língua e têm sofás ou até mesmo quartos inteiros vagos em cidades turísticas.

Nada errado em ser classe média e desfrutar essas coisas. Se você deu a sorte de nascer com esse privilégio, aproveite. Viaje mesmo. Absorva tudo o que houver para absorver. Curta tudo o que houver pra curtir. Aprenda tudo o que houver pra aprender. Quando voltar, me conte as histórias, me mostre as fotos e me dê dicas, por favor. Só não volte escrevendo ou compartilhando um texto sobre como você descobriu o sentido da vida só porque você foi ali e voltou. Porque você não descobriu. Menos, bem menos.

Te dou um toque: quando você volta e escreve um texto sobre como seu estilo de viagem é muito melhor e mais edificante do que o dos "turistas", basicamente você está fazendo a mesma coisa que critica nessas outras pessoas: você está usando sua viagem para se mostrar melhor do que os outros, como se o que você consome fosse o que você é.

Vamos combinar que a única maneira de absorver realmente outra cultura é ficando no lugar durante anos e aprendendo a sua língua local? E olhe lá. Também é muito comum imigrantes e expatriados viverem numa bolha, convivendo mais com outros imigrantes e expatriados do que com os locais. Eu morei um ano e meio em Budapeste e estou na Holanda há quase dois -- e o que sei das culturas húngara e holandesa é ainda apenas um arranhão.

Texto publicado originalmente no blog Marjorie Rodrigues.

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