Opinião

Eu aos vinte e poucos

Outro dia achei por acaso um blog fechado, no estilo "querido diário", que escrevi entre os 19 e 22 anos. Tirei um tempinho pra lê-lo.
Esta postagem foi publicada na plataforma, agora fechada, do Colaborador do HuffPost. Os colaboradores controlam seu próprio trabalho, que são postados livremente em nosso site. Se você precisa denunciar este artigo como abusivo, envie-nos um e-mail.
Two girls lying in grass, one writing
Two girls lying in grass, one writing

Outro dia achei por acaso um blog fechado, no estilo "querido diário", que escrevi entre os 19 e 22 anos. Tirei um tempinho pra lê-lo.

Eu sabia que seria uma coleção de textos mimimizentos, a maioria sobre relacionamentos amorosos e o que fazer da vida profissional, com todo aquele desespero que só as pessoas de vinte e pouquíssimos têm. Mas, ainda assim, deu para me surpreender.

Santa Cher, como eu era dramática! Alguém me dava um pé na bunda e era O FIM DO MUNDO. A realidade da profissão que escolhi no vestibular não era bem o que imaginava e isso era O FIM DO MUNDO. Ai meu deus vou morrer sozinha infeliz deprimida na sarjeta com os gatos comendo minha cara.

Em suma, eu era um porre. Parabéns às pessoas que me aturavam naquela época. Aliás, talvez elas só me aturassem porque também fossem pessoas de vinte e poucos exageramente dramáticas.

Santa Cher, como eu tinha certezas. Lia meia dúzia de livros e blogs e achava que dominava um assunto. Achava que sabia a verdade. Tinha resposta pronta para tudo. Não tinha nuance. Não tinha "mas". É assim e pronto. Eu sei como é o mundo e pronto. Os outros são burros ou manipulados ou ainda não leram o que eu li. Não tinha pergunta sem resposta, não existia não ter opinião formada. Não tinha questão que "hmmm, complicado, né?". Não tinha "essa é sua perspectiva e essa é a minha perspectiva e ambas são válidas".

Às vezes eu caio na cilada de debater com radfems no Facebook e é bem desse jeito. Por isso quero acreditar que a maioria dessas meninas são bem novas. Daí essa coisa de ter tantas certezas, tanta fome pro combate e pouca abertura para o contraditório. Algumas de nós, véias, temos lamentado o rumo que a militância dazinternet tem tomado. Talvez seja apenas o caso de esperar um pouquinho.

(O quê? Não é? Me deixa acreditar, me deixaaaaaaa!)

Mas como, no fundo, todo sabe-tudo sabe que o mundo está cheio de pessoas mais estudadas, experientes e inteligentes que ele, eu me preocupava e esforçava muito em manter a imagem de inteligentona -- e morria de medo de ser desmascarada como "uma fraude".

Lia clássicos mais para "ser culta" do que por interesse genuíno. Sonhava em ser escritora publicada mais pela validação da editora do que por ter arte dentro de mim querendo ser expressa ou mesmo por acreditar que tivesse talento para a escrita. No fundo, não acreditava, não. Daí precisar realizar o tal sonho do livro próprio.

Saía com um rapaz que era cinéfilo (ai, só de alguém se definir com essa palavra, "cinéfilo", hoje em dia já me dá engulhos hahaha) e mentia que já tinha visto os filmes que ele mencionava, para que ele não me achasse burra, ignorante. Então vocês imaginem o estresse que não eram aquelas conversas, eu o tempo todo morrendo de medo de falar alguma coisa que me traísse.

E sabe o que eu não percebia? Que, enquanto eu assumia automaticamente que os filmes que o cara gostava fossem ótimos, afinal ele "sabia das coisas", toda vez que eu mencionava algo de que gostava, o moço fazia questão de diminuir aquilo. "Ah, cê gosta dessa banda? Que bosta". "Ah, cê gosta desse livro? Não achei grande coisa". E eu ficava lá, desesperada, tentando impressioná-lo, tentando ser mais culta. Ao ler esses trechos do diário, tinha vontade de gritar para a Marjorie de 20 anos: "ESSE CARA É UM BABACA E VOCÊ UMA IDIOTA, SAI DAÍ!!". Demorou para eu sair. Precisou o cara ultrapassar todos os níveis de babaquice (e eu, de falta de amor próprio) para sair.

Santa Cher, como eu colocava uzômi no centro do meu universo. Como eu era sedenta por aprovação masculina. E olha que já tinha descoberto o feminismo e já achava que sabia tudo sobre ele, héin? Me achava a empoderadona. A questionadorazona. E, no entanto, os rapazes me faziam de gato e sapato, pois eu morria de medo de ficar sozinha. Eu ainda tinha no fundo da alma a narrativa da princesa que vai ser salva. Achava que um relacionamento feliz me salvaria do turbilhão que se passava na minha cabeça naquele começo de vida adulta. Me salvaria das inseguranças. Me salvaria das frustrações com a carreira escolhida. Me salvaria de não saber direito o que fazer.

Tolinha.

Santa Cher, como eu era escrota. Natural, né? Desespero, insegurança e achar que sabe tudo são apenas três sintomas de ensimesmamento. O que mais me consumia era eu, o que eu queria ser agora que tinha crescido, o que eu queria que as pessoas achassem de mim, o que eu queria que meus crushes sentissem por mim, eu eu eu eu eu eu. Então eu era uma pessoa que achava cool ser "sarcástica" e "blasé", falando com certo desdém dos outros. Isso era meio moda no começo dos anos 2000, gente. Aí cê chega perto dos 30 e se dá conta de que o mundo não é a porra do seu Toddynho gelado. Todo mundo está vivendo seus problemas, suas questões internas. Então pára (ou pelo menos tenta parar) de julgar e seja legal com as pessoas, porra. Ah, e suas piadinhas misântropas não tem a menor graça.

Santa Cher, como eu me forçava a fazer coisas que não gostava, não queria. Era uma tímida se forçando a ir a todas as baladas e cervejadas, se forçando a falar com a galera quando isso me tira muito mais energia do que às outras pessoas. Era muito fingimento, sabe. Dava um trabalho do cão. Fingir que as festas eram divertidíssimas, fingir que gostava de cerveja, fingir que era inteligentona, fingir que sabia o que estava fazendo. Affe.

Hoje, aceitei que sou reservada mesmo, caseira mesmo, na minha mesmo. E não tem nada de errado com isso. Ser tímido não é doença -- desde, claro, que não te impeça de fazer o que você quer ou de viver em sociedade, coisa que nunca foi meu caso. Então a Marjorie de quase 30 finalmente está super em paz com o seu temperamento e não força mais sua natureza. Ser tímido também não é um molde, uma forminha na qual todas as pessoas tímidas se encaixam. "Como assim você se diz tímida, mas faz teatro? Como assim é tímida, mas trabalha com comunicação? Como assim é tímida e faz canal no YouTube?". Pois é, é perfeitamente possível não se sentir à vontade com certas situações, mas ser de boa com outras. Eu não gosto muito de festonas e almoços de firma e grandes socializações, mas amo fazer palhaçada em cima de um palco. Deal with it.

Por fim, Santa Cher, como eu era ingênua! Confiava quase que instantaneamente nas pessoas. Não que hoje eu desconfie da própria sombra, mas leva mais tempo até eu me convencer de que Fulano é mesmo o que parece. Ter cruzado com algumas peças me fez aprender que gente RUIM é uma realidade.

Outra realidade: gente psicopata, nefasta mesmo. Quando somos novinhos, achamos que a mãe da gente está exagerando quando nos manda ter cuidado com algumas pessoas. Existe sim gente que prejudica os outros de propósito, sem nenhum remorso. Gente que engana e manipula, que sente prazer na desgraça alheia. Gente que cria várias personalidades. Gente maluca de tudo.

***

Constatar tudo isso me deu ainda mais vontade de viver. Se me aceitar mais, ter mais empatia, me estressar menos com os pepinos da vida e não ser capacho de homem foi o que aprendi aos 20, o que não aprenderei aos 30? E 40? Viver dá trabalho, a gente paga mico, a gente é bem idiota. Mas é legal demais.

Então escrevam diários, gente. Não estou falando de blogs nem de status de Facebook. Estou falando de escrever só para você mesmo. Sem filtro. Sem edição. Sem a ideia de um leitor na cabeça.

Teria sido bacana se eu tivesse continuado com esse blog secreto entre 2011 e 2015. Que foi bem o período em que me mudei sozinha para o exterior. Ou seja: milhões de coisas que eu poderia ter registrado para morrer de vergonha depois, e não fiz.

Vou tentar retomar o tal blog secreto diarinho, então.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:

Personagens Disney como jovens adultos