OPINIÃO
10/12/2014 12:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Yoga e tradição

Jeremy Woodhouse via Getty Images

Dentro do Yoga, como em tudo, existe a tensão entre transformação e a permanência, a inovação e a manutenção dos costumes e tradições.

Tudo que existe neste mundo material e manifesto está sujeito à mudanças, como diz a máxima budista, "a única coisa permanente é a impermanência". Se tudo está sob o efeito do tempo, é natural que as mudanças ocorram. Dentro da manifestação dual do universo não há sequer uma coisa que não sofra a ação do tempo.

Isso pode ser visto na maneira como o conhecimento era transmitido no no passado, era feito oralmente do mais velho para o mais novo, isso ajudava inclusive no respeito ao mais velho, pois era ele que detinha o conhecimento.

O tempo passou e veio a escrita, que possibilitava que este conhecimento fosse armazenado sem que ninguém o memorizasse. Com certeza houve contestações sobre como a escrita iria acabar com a inteligência do homem, que não mais guardaria os dados ele mesmo, mas dependeria de um artifício externo para a memória.

Muitos foram os que se opuseram à escrita e, em culturas como a indiana, esta transição levou séculos para se efetivar. Ainda hoje se vê saudosamente a época dos Rishis (sábios) que eles sim detinham todo o conhecimento em sua memória. Mas esta mesma escrita que fez com que o homem não mais utilizasse a memória da mesma maneira, abriu espaço para que novas áreas do cérebro fossem utilizadas e possibilitou um universo novo em descobertas.

O que podemos dizer então da internet nos dias atuais, onde uma nova mudança se estabelece, não memorizamos mais nada, não temos mais as coisas escritas fisicamente por perto, livros etc... pois com algumas tecladas no Google acessamos conceitos, ideias, definições, que não mais serão memorizadas por nós, quem dirá pelas futuras gerações. O que fica deste e de inúmeros outros casos é que a mudança em si não é o problema e, se esta mudança existe, é porque há uma necessidade de adaptação de uma forma antiga para a atual.

Quando falamos em Yoga não poderia ser diferente. Na transformação de prakṛti (o mundo manifesto) os métodos e técnicas mudam, incorporam outros métodos e vivem esta mesma tensão entre tradição e inovação.

O mais interessante é que mestres de linhas ditas "tradicionais", defendidas por seus discípulos, foram grandes inovadores de seu tempo. Sri Krishnamacharya por exemplo, ensinou mulheres e teve contato com linhas de ginástica indianas e ocidentais, estas foram incorporadas ao seu método no tempo que estava a serviço do Marajá de Mysore. (Para mais informações ver: The Yoga Tradition of the Mysore Palace N. E. Sjoman - Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice by Mark Singleton)

Só como exemplo, já ouvi de professores ocidentais de Yoga, que não se deve fazer propagando, pois isto não seria tradicional, mas estes contraditoriamente têm seus nomes em sites que os divulgam e arranjam workshops e trabalhos, estes mesmos professores falam da tradição de Krishnamacharya e especialmente de alguns de seus discípulos, só esquecem de que sob o comando do Marajá de Mysore, Krishnamacharya liderava o seguinte programa de divulgação do Yoga pela Índia: "YOGA PROPAGANDA".

É isso mesmo, Sri Krishnamacharya viajou por toda a Índia com verdadeiros shows divulgando o Yoga, fazendo seu coração parar de bater e colocando crianças e jovens para fazer posturas acrobáticas e assim chamar a atenção da audiência e fazer propaganda pelo Yoga.

Não quero de maneira alguma dizer que então vale tudo e que toda mudança é ótima e que temos somente que transgredir. Temos sim é que refletir sobre o que fazemos e como fazemos e, se realmente faz sentido tentar repetir dogmaticamente algo simplesmente porque é tradicional, ou porque todo mundo faz.

Não precisamos ser tão duros como Albert Einstein: "A tradição é a personalidade dos imbecis". Mas ainda hoje em países da África, por "tradição" retira-se o clitóris das mulheres para que não sentindo prazer não possam trair seus maridos, são mais de 130 milhões de mulheres que foram e outras serão ainda submetidas a esta barbárie.

Tradições também podem surgir por meio de descobertas e com ótimas intenções, mas tendem a tornar-se ao longo do tempo maneiras de manipular e manter as pessoas sob controle do sistema. Como a frase que ouvi há bastante tempo: "Tradição Família e Propriedade", desde que por "Tradição a Propriedade seja da minha Família.

Do outro lado, o das novidades, temos misturas absurdas, tudo virou Yoga, os "Yoga-qualquercoisa". Mistura-se duas coisas aparentemente com bons resultados dentro de suas esferas, como se a mistura, o elemento desta fusão fosse ser muito bom. São inúmeras as novas técnicas de Yoga que surgem empacotadas nas pratereiras do consumo, estas vem dar vazão ao "espiritual-cool" e descolado, que se espalha por academias e espaços que vendem auto-conhecimento como bens de consumo. Sem desmerecer, é claro as exceções que existem no meio de toda esta loucura mercadológica.

Para resumir, não é porque é tradicional que é bom e não é porque é uma novidade que é ruim.

No Yoga Sutra de Patanjali (texto importante sobre o Yoga), por exemplo, encontramos muitas alusões ao equilíbrio entre os opostos complementares, abhyasa (prática, repetição) e vairagya (despego), ou sthira (firme) e sukha (confortável), creio que este equilíbrio também entre a "transformação" e a "permanência" é fundamental, levando-se em consideração a capacidade de adaptação de cada um. A rotina e a tradição que para um significa a liberdade, para outro significa a prisão.

Não importa o que façamos, inevitavelmente as novidades virão, a mudança acontecerá queiramos ou não. O que podemos fazer como yogues é observar as mudanças, não nos apegarmos a elas e cultivar o saber interior de que nosso "eu" está para além do espaço e tempo, que já somos eternos e livres de limitação, mas que as ferramentas maravilhosas que dispomos, por mais sagradas e reveladas que sejam, uma vez manifestas estarão sob a ação do tempo.

E independente de ser um transgressor ou tradicionalista, é fundamental respeitar e agradecer a todos os que vieram antes de nós e que possibilitaram que este conhecimento fosse passado adiante. Como diria Isaac Newton: "se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes".

Observe-se e pratique!

Namastê!

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