OPINIÃO
12/12/2014 15:58 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Dor e prazer não são objetivos das experiências

Nossa tendência, pelos nossos condicionamentos, é sempre repetir as experiências de prazer, criando apego, e de evitar a dor, criando aversão. Mas se conseguimos retirar nosso foco do resultado e usufruir da experiência, sem expectativa, será possível evitar limitarmos nossa trajetória à apego e aversão. Isso possibilita compreender de fato a experiência.

Tom Merton via Getty Images

Em nosso mundo atual felicidade e prazer são cada vez mais vendidos em um mesmo pacote.

Mais e mais experiências que satisfaçam os sentidos são oferecidas para que se encontre momentos de felicidade, mas que são na verdade momentos de prazer. É interessante observar que estes momentos por mais que tenham sido batalhados, que tenham provocado muito suor para serem conquistados, acabam por durar apenas alguns instantes, iniciando na sequência a necessidade de um novo prazer em busca de felicidade.

Atualmente, importantes neurocientistas como Antônio Damasio, ao analisar vida de organismos mais elementares, como o paramécio, percebem que os últimos tem mecanismos bem simples, mas semelhantes aos nossos de prazer e dor, que os tornam capazes assim de seguir rumo à perpetuação de sua espécie. A busca destes organismos primitivos é por aquilo que gera equilíbrio, é o que a ciência chama de homeostase. Algo importante que a neurociência nos diz é que a função da dor ou do prazer, jamais é a dor ou o prazer em si. Sempre há um propósito para além, em última instância a homeostase. O cérebro humano por exemplo, seria mais um mecanismo, apenas bem mais complexo, de busca da homeostase, do equilíbrio. Podemos supor que o conceito de felicidade, portanto, jamais seria a busca do prazer ou evitar a dor, mas sim quando conseguimos trilhar um caminho de harmonia, de equilíbrio, talvez o caminho do meio preconizado por Buddha.

Estas afirmações se assemelham ao que o Yoga demonstra desde a antiguidade: que dor e prazer não são objetivos das experiências, por isso, não devemos buscar experiências pelas sensações e nem exclusivamente pelo resultado, sendo ele prazeroso ou não, pois o propósito final da experiência é o conhecimento de si mesmo. Ainda fala mais, que a felicidade em vida é encontrada no caminho da equanimidade, da harmonia que possibilita a realização de quem somos de fato, pura consciência, longe das distrações dos sentidos. O caminho do Yoga trata-se de um caminho de aumento da qualidade Sattva (princípio da harmonia, ou da luz dos 3 Gunas, os outros são Rajas, movimento e Tamas, inércia). No Yoga o princípio de Sattva (harmonia) é o mais sutil dos princípios e é por meio da predominância dele que se desenvolve a inteligência. Assim podemos dizer que a inteligência, Buddhi, está a serviço desta, ou mesmo que é uma consequência desta harmonia, do equilíbrio.

O problema é que nossa tendência, pelos nossos condicionamentos (Vasanas), é sempre repetir as experiências de prazer, criando apego e de evitar as experiências de dor, criando aversão. Mas se conseguimos retirar nosso foco de atenção do resultado em si e usufruir da experiência, sem expectativa de prazer ou dor, será possível evitar limitarmos nossa trajetória à apego e aversão.

Isso possibilita compreender de fato a experiência, sem os ruídos que a expectativa e as sensações provocam. Ao buscar perceber a experiência em si e não reagir, conseguimos compreender o propósito da experiência criando discernimento e capacidade de escolha de nossos caminhos.

É por isso que o recolhimento dos sentidos (Pratyahara) torna-se tão importante. Ser comandado pelos sentidos é como se os cavalos da carruagem comandassem o caminho a ser tomado. Segundo Katha Upanishad, o "Ser" pode ser comparado a uma carruagem. Purusha, o espírito, é o passageiro; a carruagem é o corpo - Sharira; Buddhi, o intelecto, é o cocheiro; Manas, a mente, são as rédeas; Indrya, os sentidos são os cavalos; e a estrada e o mundo são seus objetos. Quem deve ter o comando é Buddhi, o intelecto, para o usufruto de Purusha, o passageiro (o espírito) e para isso os sentidos devem ser recolhidos, devem estar disciplinados pela mente (as rédeas) sempre sob o comando final do intelecto.

Mas como realizar tarefa tão difícil? Quando vemos estamos novamente indo atrás de satisfazer os sentidos e entramos no mesmo ciclo sem conseguir realizar o que nos propomos.

Para tornar possível atingir este estado de sabedoria, o sábio Patanjali dividiu didaticamente em 8 membros (Astanga: astau = 8 anga = membro) o corpo do Yoga. Esta divisão se dá no segundo capítulo dos Yogasutras,

Ao dividir Patanjali começa pela base, pelas relações éticas com a sociedade, que ele chama de Yamas, são cinco restrições, como não violência e verdade. Em seguida coloca cinco Nyamas, observâncias, estados internos como pureza e contentamento. O terceiro são ásanas, no sentido de assentar o corpo para a meditação. O quarto é Pránáyáma, que é a extensão e controle da energia vital. O quinto é Pratyahara, o recolhimento dos sentidos e os três últimos são Dharana, concentração, Dhyana, meditação e Samadhi, ou contemplação.

Importante ressaltar que "anga" (de Ashtanga) significa membro e não passo. Por isso, por mais que você deva desenvolver um membro antes de chegar ao outro, eles são também simultâneos e interligados. Você pode imaginar um corpo com 8 membros onde cada um será utilizado para o que o todo funcione, mas mesmo que um não esteja em seu funcionamento perfeito os outros podem ajudar neste desenvolvimento. A perfeição ideal de um dos Angas para então começar os outros, pode mais atrapalhar do que ajudar. O controle da respiração por exemplo, irá acalmar a mente para que você possa ser não violento, Ahimsá, o primeiro Yama.

Esta interdependência e harmonia entre os membros é fundamental, pois se eventualmente um dos membros não pode ser ativado, os outros podem compensar. Imagine um ser com 8 patas, cada uma tendo uma função na locomoção, se uma perna não funciona, há outras 7 para manter o caminho. Por exemplo, se você não pode fazer posturas, nem mesmo sentar-se, pois está com algum problema físico, ainda assim pode concentrar a mente, ou trabalhar com sua respiração.

No Hatha yoga, por exemplo, existe outra ordem, coloca-se o ásana no início, pois fortalecer o corpo e ter saúde podem ser pré requisitos fundamentais para afirmar Yamas e Nyamas. Também é muito difícil que alguém doente consiga dedicar-se à técnicas de respiração e meditação. Independente do sistema escolhido, Hatha Yoga, Raja Yoga (Patanjali), Bhakti Yoga (Yoga da devoção) ou outro, todos concordam que o a escravização da mente pelos sentidos impede que o estado de paz e harmonia estabeleça-se na mente.

Por isso, se você busca a felicidade, comece pela base, por não ser violento (primeiro Yama= Ahimsa) especialmente consigo mesmo, por exemplo em sua prática de Posturas (Ásanas). Procure purificar o corpo, a mente e aceitar suas limitações, traga o estado de contentamento para tudo o que faz (Nyamas, Saucha = Purificação e Santosha = contentamento). Observe a respiração, não a force, compreenda-a, dance com ela e assim harmonize-se com os ritmos da vida (Pránáyáma). Com isso você está construindo a base, Yama, Nyama, Ásana e Pranayama. Eles tornam a mente estável e ligada à inteligência, assim os sentidos voltam-se para dentro (Pratyahara), iniciando o verdadeiro autoconhecimento, o da visão interna que equilibra e possibilita a concentração da mente (Dharana). Surge assim o estado meditativo (Dhyana) que ao ser cultivado, tem como consequência, Samadhi, um estado de felicidade e plenitude, não mais baseada na busca do prazer, mas resultado do conhecimento de si mesmo. O conhecimento de que de fato já somos esta pura consciência que buscamos. Isto não pode ser ensinado apenas por palavras, tem que ser vivido, isto é Yoga!

Pratique, e seja ético!

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