OPINIÃO
29/09/2015 20:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A mensagem de uma mãe furiosa aos publicitários das cavernas

O que será que nossos publicitários estão bebendo? Em que ano será que eles pararam? Às vezes acho que em meados dos 80, todos sentados numa mesa de bar enferrujada, ainda vendo as gostosas passarem e pensando numa puta ideia pra uma propaganda.

Senhor publicitário,

Um dos vários defeitos que tenho como mãe, nos dias em que meu cansaço ultrapassa o limite do aceitável, é trocar brincadeiras e livros infantis por me jogar em frente à TV com as crianças.

Para aliviar a culpa -- e também porque considero uma experiência antropológica --, assisto a tudo muito atenta e sempre conversando com os pequenos para tentar pescar pelo menos um pouco do que suas cabecinhas podem estar pensando, especialmente, na hora das propagandas.

Dia desses -- pelo avançado da hora, acompanhada apenas do primogênito de oito anos de idade -- fui brindada com uma das peças publicitárias mais preconceituosas e ofensivas dos tempos atuais.

Trata-se do detergente Mr. Músculo que, em todas as suas peças publicitárias, aborda o produto como sendo o "melhor amigo" da mulher, o detergente que "ajuda a mamãe" (porque tem a fórmula mais concentrada ou coisa do tipo).

Em uma das 'brilhantes' peças, eles se atrevem a contar uma história: "era uma vez um menino que queria passar mais tempo com sua mamãe e, por isso, criou uma nova fórmula de detergente".

Ao ver que o formato da peça sugou totalmente atenção do meu filho, tive que explicar para ele que, ANTIGAMENTE, as mulheres ficavam mais em casa enquanto os homens iam trabalhar e que, talvez, o publicitário que teve a genial ideia de fazer tal propaganda ainda não tenha percebido que isso mudou faz tempo.

Mas deixo a pergunta: até quando nós mulheres teremos que ser agredidas dessa forma, e o pior, sentadas no nosso sofá, da nossa casa, depois de um longo dia de trabalho (no qual não utilizamos nenhum tipo de detergente!)?

Com esse mesmo filho (calma, ele é uma criança feliz, eu converso sobre outros assuntos também hahaha), quando ele tinha uns três ou quatro anos, tive a triste experiência de assistir a uma propaganda de um brinquedo que era uma pia de lavar louças, até bem legal: com água e espuma de verdade.

Mas o texto feito pelo senhor publicitário dizia "lavando louça igual à mamãe".

Eu, com muita paciência, expliquei ao meu jovem menino que havia algo de estranho naquela propaganda já que, na casa dele, ao lavar louça, ele estaria imitando um hábito do pai e não da mãe.

Destaquei ainda que querer comer e beber em pratos e copos limpos é um desejo de todos os habitantes da casa e não apenas da "mamãe".

Eu não lavo louça e também não cozinho. Ao longo da semana, além de trabalhar o dia inteiro, assumo quase que integralmente funções cansativas, como fazer dever de casa, estudar para prova, cortar 40 unhas (são duas crianças, logo, faça as contas), arrumar mochila, desembaraçar cabelos, enfim, a lista é infinita.

Não acho justo no fim de semana ainda ser eu a responsável pela louça. E pronto.

Os tempos mudaram e, hoje em dia, as coisas são mais justas, as funções são mais divididas e é muito raro encontrar uma mulher que esteja disposta a não exigir esse senso de justiça.

Me lembrei de outra do Mr. Músculo:

Menino diz:

"Minha mãe é especialista em tudo o que ela faz! Quando ela limpa a casa (WTF?!?!?), fica tudo LINDO e o perfume que ela deixa... Hummmmmmm."

Cenas de uma mulher passando rodo no chão...

"Quer saber qual é o segredo da minha mãe?".

Sim, claro, é o Mister Músculo, agora numa versão que agrega um aroma incrível daqueles que toda mãe quer para o seu lar, já que é uma função da mãe, e unicamente dela, manter a casa limpa e perfumada.

Que carga pesada essa que os senhores, publicitários, insistem em nos fazer carregar.

Não percebem que estamos aí dentro dos escritórios, trabalhando como vocês?

Ou acham que a função de limpar o chão nós devemos exercer após o expediente? Ora, limpem vocês!

Se a nossa geração já não foi criada com esse objetivo, imaginem essa de agora.

Acordem ou serão atropelados.

Acho que falo em nome da maioria de nós, também, ao lembrar ao senhor publicitário que, hoje em dia, os sonhos e anseios de uma mulher estão muito além de fazer a feijoada perfeita.

Em outra brilhante peça, que está no ar atualmente, uma mulher está dormindo e tem um pesadelo: ninguém da família, nem mesmo o marido, gostou da feijoada que ela fez!!!

Ela acorda sobressaltada, mas logo recebe a dica da Fátima Bernardes: com o kit feijoada Seara não tem erro, todos vão amar sua 'feijuca'.

Nossa, que alívio, vou agora mesmo comprar isso... Ora, faça-me o favor, senhor, quantas mulheres você conhece que têm esse tipo de pesadelo?

Nós, mulheres, temos contas a pagar e filhos a criar, com muita dificuldade, para que eles cresçam com o mínimo de senso crítico e não repitam esses mesmos erros.

Existe luz no fim do túnel? Sim, lógico.

O Boticário inovou mais uma vez ao fazer uma publicidade em que dois homens invejam um terceiro que está acompanhado de uma lindíssima e chiquérrima mulher.

Na hora de ir embora com ela do restaurante, o manobrista surge com um super carro importado e a dupla de invejosos logo pensa "está explicado", mas, para surpresa de todos, o carro é entregue para a mulher, ou seja, o carro é dela, ela não está saindo com ninguém por causa do carro, ela tem seu próprio carro!!!

Uma coisa tão simples e banal no nosso dia a dia, uma mulher que tem seu próprio carro, é uma raridade no mundo da propaganda nacional.

Todas as peças são sempre tão carregadas de machismo que uma propaganda tão simples acaba se destacando positivamente, não por ser inovadora, mas simplesmente por condizer um pouco mais com a nossa atual realidade (faço apenas uma ressalva para a mulher escolhida para esse comercial que é a verdadeira personificação da Barbie: magra, alta e loira, como aproximadamente CINCO POR CENTO da população brasileira).

O que será que nossos publicitários estão bebendo? Em que ano será que eles pararam?

Às vezes acho que em meados dos 80, estão todos eles sentados numa mesa de bar enferrujada, de alguma propaganda de cerveja da década retrasada, ainda vendo as gostosas passarem e pensando numa puta ideia pra uma propaganda.

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