OPINIÃO
25/10/2014 11:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Um adolescente chamado Brasil

reprodução

Da infinidade de dados com que os pesquisadores do Instituto Ipsos podem se deleitar na hora de projetar estudos sobre o Brasil, um instigou ilações sobre o atual cenário nacional: 68% dos jovens da chamada nova classe média do País têm escolaridade mais alta do que seus pais tinham. Visto assim, apenas como um frio número, parece até pouco expressivo. Quando contextualizado com outros elementos estudados na coleção inédita que o instituto pretende implantar analisando os caminhos que o Brasil traça, esse dado conceitua uma personalidade adolescente para o país. Fato ganha expressão em ano eleitoral e, de certa forma, ajuda a explicar a intensa oscilação na atual disputa presidencial.

"O Brasil vive uma crise de valores entre herança e mudança", diz Flavio Ferrari, diretor do Ipsos.

Tatuar o corpo para exprimir compromissos sociais, usar a mídia social de forma tão intensa como se faz por aqui, bem acima da média de muitos países para compartilhar conteúdo, e participar de protestos, como os que ocorreram recentemente e se esparramaram em ações como até os famosos "rolezinhos" em shoppings, são alguns dos elementos simbólicos da atitude adolescente. "Faz parte dessa busca da própria identidade. Algo como estar a procura de si mesmo", pondera Ferrari.

A jovem democracia nativa começa a se consolidar apoiada ainda em várias contradições. Há uma sociedade, com maior escolaridade, que se posiciona como moderna na ponta de consumo, porque corre atrás de todos os modismos anunciados na internet, mas que, por outro lado, ainda se comporta de forma conservadora. Basta ver o crescente número de evangélicos e a disparidade de discurso entre os que se dizem simpáticos aos direitos LGBT e o que efetivamente aceitam a aprovação de leis igualitárias para os pensam formas de famílias diferentes dos moldes tradicionais.

Todos esses indicadores são considerados no Ipsos Flair Brasil, lançado com o codinome "Brasil 2015, Crítica e Progresso", que reúne artigos de 23 experts da companhia que avaliam aspectos da cultura brasileira e registram a contestação não só política, mas também as consequências de como um nível de maturidade maior dessa nova classe média leva ao questionamento da autoridade.

A rebeldia adolescente faz com que esse novo consumidor se comporte como um adolescente contestador, apartidário e disposto a questionar a autoridade. Não é de estranhar que influencie na hora de votar. Nos últimos dados divulgados da pesquisa eleitoral do Ibope, 73% do eleitorado que vai às urnas não têm partido preferido e 67% opinaram que debates tiveram ataques demais.

A cada porrada que os presidenciáveis distribuem na telas da tevê, os eleitores, em especial os da nova classe média - essa que começa a se ilustrar e ter acesso a crédito e consumo - se espanta e muda de posição. "O povo brasileiro está mais exigente e isso vai se retratar também na forma de votar", acredita Lawrence Mills, um dos especialistas que analisou o comportamento da classe emergente no estudo.

Para 2015, esse país adolescente vê reduzir o grau de otimismo em que sempre pautou o espírito da nação. Ou, pelo menos, as pesquisas sempre difundiram como inerente ao comportamento nativo. "O consumidor está mais crítico, acabou o inocência de um país criança", pondera outro analista do Ipsos, Dorival Mata-Machado. "Nesse cenário, o ano que vem se desenha tenso. Haverá muita movimentação. O adolescente muda rápido de opinião e, como somos um país adolescente, enfrentaremos muita oscilação".

A dificuldade de definir quem ocuparia a cadeira presidencial foi um aperitivo desse comportamento que deve se ampliar daqui para frente. O que se viu na disputa eleitoral é tendência. A disseminação de ideias e opiniões nas redes sociais ajuda - há cerca de 76 milhões de usuários no Facebook (abaixo apenas, da Índia e dos EUA); 41 milhões no Twitter (apenas atrás dos EUA); 38 milhões de usuários no WhatsApp; e 58 milhões de vídeos assistidos no país por mês através do YouTube. É muito canal e muita gente que aprendeu a ter voz querendo se expressar.

Esse texto foi publicado originalmente no blog de Marili Ribeiro

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