OPINIÃO
08/07/2014 15:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Parados, sim. Mas crescendo em brasilidade

Passada a euforia virá à crítica sobre as perdas econômicas com a falta de atividade nesses dias de Copa do Mundo. Há quem contabiliza 12, outros 16 dias parados. Com isso, a economia perderia a injeção de 17 bilhões a 32 bilhões de reais.

Daqui a pouco o País para. Basta ver a foto acima, feita por um amigo da mais paulista das avenidas, durante o último jogo do Brasil. Passada a euforia virá à crítica sobre as perdas econômicas com a falta de atividade nesses dias de Copa do Mundo. Não há como rebatê-la. Os atentos moços das estatísticas jogam as contas na casa dos muitos bilhões de reais. Há quem contabiliza 12 outros 16 dias parados. Com isso, a economia perderia a injeção de 17 bilhões a 32 bilhões de reais. É uma contabilidade baseada em projeções. O que não vendeu, o que não produziu. Seja como for, ninguém contesta que negócios deixam de ser feitos. Mas, bem nesse ponto me pergunto: será que outro negócio também não se constrói com toda essa paradeira? Quanto vale o sentimento de brasilidade crescente, que é um ativo intangível, mas que ganha holofote?

Isso fora o ganho em termos de imagem para o Brasil. A promoção da imagem do país que a mídia global está dando ao país com intermináveis imagens, textos e vídeos da alegria made in Brazil, não tem preço. E isso, com todo o drama retratado pelas obras incompletas e as dificuldades de mobilidade que a imprensa local martelou sem qualquer dó ou paixão. Não é que o Brasil tenha passado por uma metamorfose súbita na Copa. Os dias parados promovem de certa forma o conceito embutido no tal ócio criativo tão difundido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi. Afinal, ele é uma experiência harmônica e única, que proporciona sempre uma melhor readaptação para todas as necessidades da sociedade proporcionando mais alegria.

De Masi classificou os modelos de civilização encontrados hoje no mundo: o norte-americano e seu "fundamentalismo do consumo" e o fundamentalismo árabe em sua exagerada devoção à religião. Para o escritor há extremos em ambos: "enquanto o primeiro modelo é rico em recursos, o outro vive na mais completa miséria". O terceiro modelo que ele aponta é greco-latino, que exalta a comunicação entre as pessoas, a alegria e a sensualidade. Seria a cultura do equilíbrio. Pronto, o Brasil parado vive em sua intensidade à cultura do equilíbrio para Di Mais. Então que as ruas fiquem vazias e que a pátria vista chuteiras, ainda que por algumas horas.

Sim, os problemas virão. E não serão poucos. Em entrevista na Folha de São Paulo o cientista político Jules Boykoff, professor da Pacific University, nos EUA e estudioso do impacto das Copas e das Olimpíadas nos países-sede, fala em Capitalismo de Celebração. Upa! "Celebração é um estado de exceção, em que regras normais são suspensas, e a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos são celebrações. O que ocorre durante esse período é que o público paga enormes quantias para realizar os eventos, e as empresas é que saem com os lucros. Ou seja, o dinheiro do contribuinte é direcionado para esses eventos e, depois, os políticos afirmam que é necessário apertar os cintos, implementar medidas de austeridade, cortar programas, porque todo aquele dinheiro foi gasto".

Que venham as contas. Com ou sem futebol, é o povo que sempre vai pagá-las.

Texto publicado originalmente no blog Marili Ribeiro

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