OPINIÃO
14/07/2014 16:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Falta ginga, mas sobra RP. Uma aula.

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foto de Maria Helena Souza feita da tevê

Simpatia, quem diria, se soletra em alemão na festejada como a mais calorosa das Copas do Mundo graças ao espírito acolhedor do povo brasileiro. Sim, porque eles mostraram fora do Maracanã porque mereceriam a glória dentro do reverenciado templo do futebol nacional. E tudo começou já no desembarque, quando escolheram a Vila de Santo André (BA) para se instalarem. Lá conheceram os índios Pataxós. Rolou um clima de empatia. Os jogadores aprenderam a "dança da sorte" com estudantes da Escola Indígena Pataxó de Coroa Vermelha e fizeram o ritual em treinos no campo de futebol. Surpresa, sob o olhar encantado do mundo após a dura batalha contra a Argentina, repetiram a coreografia aprendida tendo ao meio a Taça conquistada pelo tetracampeonato no sagrado solo do estádio carioca. Reverência aos ancestrais desse País.

Bastaria. Mas não. Foram bem mais longe. Na tarde da disputa final, veicularam nas redes sociais um vídeo de agradecimento pela acolhida por aqui. Arriscaram até desajeitadas frases em português e, desta vez, dispensaram o uso de música de fundo do repertório nacional. Talvez como forma de evitar problemas como o com a mulher de Caetano Veloso, que encrencou com uso indevido de Tieta em outro filme compartilhado por eles sobre a convivência com os habitantes na Vila de Santo André. Episódio chato. Mas contornado com elegância. Tiraram o vídeo do ar. Uma pena ainda mais agora que são campeões do mundo!

Em outro gesto de simpatia no dia derradeiro, bem no final do jogo, a comissão técnica exibiu camisa com a inscrição nas costas: "Obrigado Brasil pela Copa maravilhosa". Sem dúvida, ganharam ainda mais adesão ao movimento que já rolava nas redes sociais: "Como não torcer por eles?" E isso apesar de terem sido os algozes do selecionado brasileiro (o fatídico 7X1). Além, lógico, de terem fama de frios e não serem os reis da ginga social.

Essas sacadas provocaram entre profissionais de marketing um alerta sobre a necessidade de estudarem o caso. Com razão. A Federação Alemã de Futebol (Deutscher Fußball-Bund - DFB) fez um trabalho de ponta em matéria de Relações Públicas (RP) em tempos de mídia online. Usaram os recursos disponíveis para cativar exposição positiva espontânea com suprema habilidade. Reportagens sobre o assunto, publicadas em jornais e sites, já explicam que as ações foram estruturadas com antecedência, quando equipes vieram fazer o reconhecimento da área aonde os jogadores iriam se preparar. Além dessas, que contam com grande plasticidade e significado, a Federação Alemã de Futebol doou €10 mil para a tribo Pataxó que os acolheu.

Mais um detalhe precioso: o funcionário da Federação que cuida há quatro anos, com esmero e competência do conteúdo exposto nas redes sociais sobre o selecionado alemão, é o jornalista de origem judaica Roy Rajber. Para um país que tem uma passagem histórica difícil com o povo judeu, há também certo simbolismo nesse fato. Nascido em Munique, de família israelense, Rajber comentou à Folha de São Paulo o fato de um judeu ser hoje responsável por divulgar uma boa imagem alemã para o mundo: "Meus avós são sobreviventes do Holocausto. Nasci e cresci na Alemanha, e o fato de hoje eu trabalhar para a seleção alemã diz tudo sobre a vida dos judeus na Alemanha atual".

Há seis meses, investidores alemães compraram um terreno na Bahia, onde construíram um hotel, um centro de saúde, um campo de futebol e uma estradinha para interligar esse pequeno universo. A Federação deles não trouxe funcionários alemães, contratou pessoas da cidade. Quando a seleção chegou treinou duro, como se espera da fama associada à rígida disciplina alemã, mas, nas horas vagas, os jogadores se socializaram com a comunidade local. Participaram de festas e até vestiram a camisa do Bahia, time da torcida da região. Mais ainda, diante da vitória escandalosa contra o Brasil, no intervalo do jogo, eles combinaram diminuir o ritmo para não "humilhar a seleção anfitriã". Nada de tripudiar. Depois, declararam que seus ídolos são os jogadores brasileiros do passado. Parte do que foi erguido na Bahia ficará para a população da cidade. Já o centro de treinamento denominado Campo Bahia continuará funcionando como condomínio cujas casas serão vendidas e funcionará no sistema de condomínio-hotel. #comonãotorcerparaeles?

Este texto foi publicado originalmente no blog da Marili Ribeiro

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