OPINIÃO
10/03/2014 16:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Cheiro de macho na TV depois de beijo gay

Depois de beijo gay na TV, agora é a vez de idolatrar os sobreviventes de uma espécie em extinção: o homem-homem. Afinal, há que ter colhões para defender um padrão de comportamento tão recriminado pelo politicamente correto.

O primeiro beijo gay no sagrado horário nobre da novela merece reverência por promover o avanço da sociedade no respeito às diferenças. Dito isso, vou defender o resgate do "cheiro de macho" que chega ao mercado nacional com a estreia da propaganda de lançamento da marca Old Spice, uma linha de produtos de higiene masculina, do portfólio da gigante Procter & Gamble. Afinal, há que ter colhões para defender um padrão de comportamento tão recriminado pelo politicamente correto. E isso, mesmo considerando que tudo não passa de uma bem-humorada criação sobre os clichês do macho alfa.

Hilária, nonsense e muito bem sucedida nos EUA, a série de comerciais - que lá se projetou com a mensagem "The Man Your Man Could Smell Like" - teve uma das maiores repercussões da publicidade mundial, não só pelo processo de criação engajado que inovou a maneira de fazer comerciais na era da internet, mas porque alavancou um rótulo em franca decadência entre os consumidores americanos. Envelhecida e sem capacidade de atrair novos públicos, a marca criada em 1938 perdia mercado ano a ano. Ao recuperar a imagem do homem que cheira feito homem, o comercial caiu no gosto da audiência e a marca voltou à liderança em sua categoria.

Por aqui, a versão nativa traz o desodorante com "partículas de cabra macho" e tem por protagonista o ator Malvino Salvador acendendo velas com lança-chamas. Coisa de maluco, mas que só galã de novela muito macho é capaz de fazer. Nada diferente dos anúncios que catapultaram a marca no mercado americano ao atingir em cheio o gosto popular, onde o também ator Isaiah Mustafa aparece em situações inusitadas enquanto fala sobre o que as mulheres podem esperar se seus homens começarem a usar o Old Spice. As situações são tão absurdas que geraram uma infinidade de paródias e garantiram mais de 60 milhões de visualizações na internet. No meio dos profissionais de propaganda, a série de comerciais ganhou a glória das glórias com os dois troféus Grand Prix no festejado festival de publicidade Cannes Lions.

No Brasil, duas agências, Grey e Wunderman, adaptaram o premiado conceito criado pela agência americana Wieden + Kennedy de Portland, e assinam o comercial que acaba de entrar em cartaz. Agora, é esperar que o comercial com o Malvino Salvador produza o mesmo enfeito obtido lá fora. Tenho dúvidas.

A Procter & Gamble adquiriu a Old Spice em 1990 e manteve a linha de comunicação original baseada em temas náuticos para produtos como cremes de barbear e loção pós-barba. A mudança de linguagem veio apenas em 2010, com o apelo do homem que cheira feito homem para a linha de desodorante, junto com os tais filmes publicitários repletos de nonsense, mas que se tornaram verdadeiros hits na internet.

Como no Brasil está a segunda maior base de seguidores de redes sociais online, a P&G tomou a decisão de manter a mesma irreverência que fez a marca líder na parte de cima do continente. O desodorante chega às prateleiras dos supermercados em três versões. Com mais de 100 produtos no portfólio internacional, que vai de sabonete líquido a barbeador, a linha Old Spice poderá chegar ao País, conforme a marca for apresentando resultados e se estabelecendo no gosto do brasileiro. E então, quem se anima a incentivar "um homem com cheiro de homem"?

(Texto publicado originalmente no meu blog)