OPINIÃO
14/05/2014 19:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Banana verde, com efeito cênico

O rapaz comeu a banana em campo. Foi uma boa sacada, mas que fique bem claro: o ato racista era só brincadeira. A reação também não passou de diversão. E todos os que posaram de bananinha na mão estavam só querendo tirar uma onda. Nada muito sério.

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O rapaz comeu a banana em campo. Foi uma boa sacada, não há dúvida, uma reação instintiva que virou uma espécie de ato pacífico contra o racismo tão arraigado em nosso cotidiano. Ok. Simpático. Mas uns espertinhos resolveram aproveitar a cena e posar em "apoio" à causa do combate ao preconceito. Afinal, na foto bem armada, todos podem ser contra. Aí a história, em tempos de conexão global, ganhou repercussão instantânea. Comer banana na foto não dá o mínimo trabalho. A tal campanha viralizou como rastilho de pólvora e o outro rapaz, o que jogou a banana, perdeu o emprego. Pode ser o único saldo do episódio. Ou alguém tem notícia de que o atacante Neymar, que bombou a oportunidade, doou alguns de seus milhões para o movimento de negros por direitos iguais aos brancos? Não só ele, diga-se de passagem, mas qualquer outro famoso fisgado pela graça de se deixar fotografar com uma banana madura tomou alguma atitude mais concreta no combate ao racismo? Não até o momento. Para passos mais consistentes, a banana estava verde.

Pior, toda a mobilização não só vai acabar em bananada, como ainda destampou o outro lado, já que desencadeou movimentos de apoio ao algoz na Espanha, um claro indicativo que a causa do combate ao racismo não é assim tão universal como pareceu nas redes sociais, programas de televisão e capas de revistas. Na última sexta-feira (09/05), o lateral brasileiro Daniel Alves, do Barcelona, pediu que o jovem que jogou a banana em sua direção no campo do Villarreal recupere o trabalho. Lógico, dadas às devidas proporções que o caso tomou, o brasileiro fez o que sempre se costuma fazer: contemporizou. "Minha única preocupação é que o garoto perdeu o emprego e eu não queria isto. Não queria prejudicar ninguém, ele fez uma brincadeira e as pessoas ficaram revoltadas", declarou o jogador em uma rádio catalã. Então, que fique bem claro: o ato racista era só brincadeira. A reação também não passou de diversão. E todos os que posaram de bananinha na mão estavam só querendo tirar uma onda. Nada muito sério.

O imprudente jovem trabalhava com as equipes de base do Villarreal, que proibiu seu acesso pelo resto da vida às instalações e ao estádio do clube. Na prática fez o jovem engrossar o já enorme contingente de desempregados na Espanha. David Camapayo Lleo, além de banido pode ainda ser condenado pela Justiça a uma pena de um a três anos de prisão pelo ato de racismo. Após campanha criada no Twitter por amigos e familiares, o torcedor que jogou a banana vem ganhando apoio de centenas que foram às ruas para protestar contra a punição. Um porta-voz da família do jovem declarou à imprensa espanhola: "Uma coisa é o erro que ele cometeu. Tem que pagar. A outra é esse linchamento que está recebendo de uma maneira totalmente desproporcional".

Até mesmo a polêmica em relação à contratação de Neymar pelo Barcelona voltou a ser lembrada como uma das razões dele ter decidido abraçar a tal causa #somostodosmacacos. Dizem que isso poderia render uma visibilidade positiva na mídia e, por isso, havia profissionais de marketing atrás da reação dele. A agência de propaganda Loducca bolou a estratégia e tinha tudo engatilhado esperando apenas uma banana madura cair na rede. Ou melhor, no gramado. Como antecedente a toda essa trama há uma recente entrevista ao canal noticioso CNN, onde Neymar exibiu mágoa com a forma como o seu time anterior no Brasil, o Santos, lidou com a situação de sua venda e aproveitou para negar que essa história (a de que o pai do atleta teria levado dinheiro por fora na compra de seu passo pelo time espanhol) prejudica seu rendimento no Barcelona: "Não acredito que isso tenha afetado. Estou acostumado a deixar todos os problemas de lado. Neste momento estou relaxado. É algo vergonhoso quando todo mundo fala de coisas que não são verdade, mas isso não me afeta em campo", disse Neymar ao programa.

A campanha antirracismo iniciada por ele no Instagram e no Twitter, com uma foto dele e do filho devidamente acompanhada de bananas, dividiu logo de cara a opinião pública e muitos se frustraram pelo fato de o movimento não ter uma origem espontânea. Oportunista ou não, para a conservadora revista americana Time, Neymar e Daniel Alves "são garotos-propaganda perfeitos para uma campanha antirracismo" pelo fato de ambos terem projeção internacional e milhares de seguidores. A revista fez na matéria críticas diretas à FIFA por sua inoperância em reduzir o racismo no futebol. Afinal, diz a publicação, nada surte resultados porque não há punição para investidas preconceituosas nos estádios, como tem sido os casos de torcedor que jogam bananas. Pois é, ao que tudo indica todo o barulho midiático pode dar em nada. Talvez, se da próxima vez tentarem uma mobilização com um cacho inteiro...

Texto publicado originalmente no blog da Marili Ribeiro.

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