OPINIÃO
10/06/2014 11:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A bola vai rolar e o país fica como sempre esteve

É lógico que o medo de protestos violentos paralisou muitos num primeiro momento. Como o inevitável se impõe, a ordem é comemorar o possível.

Ronaldo Marques

Na Farmácia Buenos Aires, enquanto aguardava para ser atendida no começo da semana, vi um lindo garotinho envergando a camisa 10 da seleção. Cena rara até às vésperas da tão ambicionada Copa do Mundo em terra brasilis. Naquele ambiente, assim como nas ruas, os torcedores andavam envergonhados, sem bandeiras, trajes verde-amarelos ou qualquer quinquilharia típica de torcedor. Cheguei a achar que o clima de insatisfação com o atual estado da coisa pública, sentimento explicitado à exaustão nas manifestações de junho passado, haviam realmente deixado um gosto amargo na boca da população e iriam esvaziar o ufanismo pátrio típico desses eventos. Em especial, porque, desta vez, a Copa vem associada à intensa guerrilha partidária pela cadeira presidencial. Porém, nada parece sufocar o Brasil de chuteiras.

A rebeldia, depois de os vândalos tomarem conta das ruas em ataques descontrolados a tudo e todos, tinha tudo para acabar em pizza. Pareceram exageradas as reportagens que divulgavam o movimento de empresas em reduzir exposição de suas marcas com medo de comprometerem a imagem das companhias. Soou até mesmo como mais uma tática para ocupar espaços de mídia e chamar ainda mais atenção junto ao público.

É lógico que o medo de protestos violentos paralisou muitos num primeiro momento. Só isso justifica um garotinho solitário envergar a camisa da seleção a menos de 10 dias da estreia da Copa. Agora, o incomodo vai sendo superado e calçadas, postes, janelas, carros e até cachorros estão se enfeitando. Vai ter Copa e o Brasil permanecerá como sempre esteve. Nada muda em um mês. E o tal legado não inverte um comportamento tão arraigado na cultura de um povo, como é o celebrado estímulo ao jeitinho. Ou alguém tem dúvidas que os atrasos nas obras não se dariam como estão se dando, com tapa buraco de última minuto?

Como o inevitável se impõe, a ordem é comemorar o possível. Quem pagou caro para faturar a festa entrou no clima. A Brahma resolveu assim amplificar a campanha que pretende levar o clima da Copa para fora dos estádios. Algo na linha do que, na Europa, recebeu o nome Fan Fests, realizadas durante as Copas de 2006, na Alemanha, e de 2010, na África do Sul. Durante a transmissão dos jogos, eventos aconteciam em locais badalados e ofereciam atrações com apresentações de artistas internacionais. No Brasil, a iniciativa coube à empresa líder do mercado cervejeiro Ambev ,que é dona da marca Brahma.

Serão 14 Arenas Brahma distribuídas em sete cidades do país como no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, ou no Marco Zero, em Recife. Aqui em São Paulo haverão dois espaços de comemorações, um no Jockey Club e outro no Estádio do Morumbi, que ficou fora das disputas do mundial.

A indústria cervejeira, assim como outras companhias, não se intimidou com os números divulgados sobre a aprovação de protestos contra a Copa, que indicavam quase 50% de apoio da população até o começo do mês. Lógico, que a situação foi abrandada com a clara a mudança de atitude na cobertura jornalística.

Quando a conhecida teoria da espiral do silêncio - usada em análises de comportamento da opinião pública - ganhou corpo, governo, anunciantes e veículos de comunicação correram para mostrar os encantos do campeonato de futebol. A tal espiral, iniciada por aqueles que no espaço público são capazes de proliferar a percepção que se torna socialmente mais aceita, estava atrapalhando os negócios. Era tempo de tirar o bode da sala. Emissoras de televisão, TV Globo à frente, puseram suas equipes nas ruas para angariar simpatia. Deu resultado. O país perdeu a vergonha de se colorir de verde e amarelo.

Texto publicado originalmente no blog Marili Ribeiro.

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