OPINIÃO
12/12/2014 18:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Três lições que podemos tirar do caso Bolsonaro

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Um jornal compartilha no Facebook matéria em que as ministras Eleonora Menicucci (Política para Mulheres) e Idelli Salvatti (Direitos Humanos) manifestam repúdio ao comentário do deputado Jair Bolsonaro (PP) de que não estupraria a deputada e ex-ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário (PT), porque ela "não merece".

O comentário mais popular aparece logo em cima, com quase quatro mil curtidas, e diz "Sou mulher e não me senti atingida, humilhada e reduzida em nenhum momento. Quem fala o que quer, ouve o que não quer. Me sinto diminuída sim, quando essa Maria do Rosário defende bandido."

Respiro fundo e clico para ver os demais. O nível não melhora e a barra lateral agora parece infinita. Ok, vamos lá, o que podemos aprender com essa história:

1. Nunca, jamais, sob hipótese alguma, leia comentários de notícias no Facebook. Faz mal, é sério.

2. Piadinha com estupro não tem graça, não é irônica, não é liberdade de expressão. É covarde. O que o deputado parece não compreender - e aparentemente, nem seus 400 mil eleitores - é que você falar que uma mulher merece ou não ser estuprada reforça a violência, como se em algum caso estupro fosse legítimo. Quando ela é feia, por exemplo, segundo Bolsonaro.

E, sinceramente, a última coisa que nós mulheres precisamos, senhor deputado, é de qualquer tipo de comentário leviano que reforce a cultura do estupro. Você não andou fazendo o dever de casa, mas eu te ajudo aqui: 50 mil mulheres são estupradas por ano e a cada 12 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência. Quando o parlamentar "ironiza" que "não estupraria porque ela não merece", ele não está se defendendo de uma suposta ofensa dela, mas está defendendo os milhares de estupradores que tem por aí. Porque em alguns casos, segundo ele, mulher merece sim ser estuprada.

Quais as implicações de um parlamentar, que tem um lugar de fala privilegiado, que supostamente representa centenas de milhares de brasileiros, fazer uma alegação dessas? É legítimo que ele promova a violência se ele tem um mandado e representa uma parcela da população? Bolsonaro passou dos limites. Mais uma vez. Como disse a ministra Menicucci, "É inaceitável que um deputado utilize seu posto para liderar um discurso de ódio a um crime que atinge, humilha e reduz as mulheres".

3. Por que a autora do comentário no Facebook deveria se sentir atingida, humilhada e reduzida com o que Bolsonaro disse? Primeiro, porque ela poderia ter sido e, infelizmente, ainda pode ser uma dessas 50 mil mulheres. A violência de gênero tem um público específico do qual ela, suas filhas e irmãs fazem parte. Você pode até não concordar com a agenda da Maria do Rosário e com o que ela defende, mas entenda que ninguém merece ser estuprada. Nem você, nem ela, nem ninguém. Solidariedade mandou um abraço.

Categorizar mulheres de acordo com um determinado padrão e definir quem merece e quem não merece ser estuprada é covarde, cruel e criminoso. Concordar, defender ou mesmo se omitir faz de você cúmplice. Parece que a internet está cheio deles...

(De novo: não leia comentários no Facebook, não leia, não leia, não leia).

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.