OPINIÃO
10/02/2016 12:41 -02 | Atualizado 12/02/2020 15:17 -03

'Sororidade' é palavra que traz a lição mais importante do feminismo

O termo nada mais é do que o principio básico de solidariedade feminina.

LaylaBird via Getty Images
"Partindo do princípio de que toda mulher desconhecida é uma inimiga em potencial, você está dificultando - e muito - o tal do feminismo."

Agora podemos dizer com toda a certeza que, apesar das (muitas) tragédias, os últimos anos têm sido importantes para o feminismo. Surgiram campanhas novas e tantas outras se consagraram. Pela primeira vez, muitas meninas se identificaram com a causa e não tiveram vergonha e/ou medo de usar a palavra feminista.

Aprendemos que chega de fiu fiu; que, independente do tamanho da saia, a culpa nunca é nossa; meu corpo, minhas regras; piada machista não tem graça; e, finalmente, reclamamos por liberdade individual e sexual, não por ser um capricho, mas sim um direito.

Se eu pudesse escolher um item da minha lista de resoluções seria, certamente, que esse “samba” não morresse nunca. Para isso, é preciso uma segunda lição de feminismo e, para mim, a mais importante: sororidade.

Que nome esquisito, né? Não, não tem nada a ver com as sororities de filme americano. Aliás, tem um pouco sim. Aquelas casas de meninas em universidades americanas, na essência, são para criar um laço entre elas.

Tornam-se irmãs por escolha, por toda a vida. Sororidade nada mais é do que o principio básico de solidariedade feminina. Agora que você já aprendeu a amar seu corpo e a não aceitar ser tratada como um objeto, está na hora de fazer isso com a coleguinha do lado.

Como feministas sempre apontaram, um dos maiores problemas do feminismo é que muitas mulheres não se identificam com a luta. É mais fácil uma patroa se identificar com um homem de classe média, do que com a moça que trabalha na sua casa. Tem alguma coisa de errado.

Criaram (quem será?) um mito de que mulheres são cobrinhas umas com as outras. “Mulher é foda”, escutei minha vida toda. Em parte, foi um pouco verdade. Quando uma menina nova chega na balada, no trabalho ou numa festa, as primeiras pessoas a comentarem qualquer coisa, normalmente, são outras meninas.

Nas palavras de Simone de Beauvoir, em O segundo sexo:

″[As mulheres] Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social a certos homens - pai ou marido - mais estreitamente do que as outras mulheres. Burguesas não solidárias dos burgueses e não das mulheres proletárias, brancas, dos homens brancos e não das mulheres pretas”.

Sim, pasme: isso foi escrito na metade do século passado. Ninguém que nasce com cromossomos XX tem uma predisposição genética a falar mal de mulher.

Nos ensinaram a estar sempre em alerta constante contra as inimigas, aquela que quer roubar seu namorado, aquela que fala mal, mas é sua fã incubada. Para, que está feio.

Partindo do princípio de que toda mulher desconhecida é uma inimiga em potencial, você está dificultando - e muito - o tal do feminismo. Não adianta amar seu corpo e transar com quem você quiser se você chama a outra de gorda ou puta.

Outra coisa, pare de desacreditar, questionar o lado feminino, sempre que ouvir uma história (agressões, brigas são casos clássicos). Isso deslegitima completamente a nossa fala, como mulheres.

Não estou dizendo para sempre acreditar em tudo que uma mulher falar, só estou dizendo que às vezes, sem perceber, você tem mais propensão a questioná-la.

Se pergunte porquê isso está acontecendo. Portanto, a segunda lição, e mais valiosa, que podemos tirar dessa luta é que ela é nossa. Que tenhamos um ano de muito amor e solidariedade, que descubramos muitas e novas irmãs.