OPINIÃO
11/02/2015 14:09 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Seja quem você quiser no Carnaval. Só não seja um babaca

Todo ano é a mesma coisa. Me disseram que se quero pular carnaval, tenho que estar preparada para ter a infelicidade de sentir mãos por onde não gostaria, no meu cabelo, no meu corpo, na minha boca. E nem tente se defender ou se indignar, você corre o risco de levar uma mão fechada na cara ou, no mínimo, incomodar o resto do seu grupo de amigos. Em 2015, quero só pedir uma coisa a todas minhas amigas, tente. Você tem todo direito de se indignar. E aos que estejam do seu lado, peço um pouco de paciência e coragem. Não sejamos cúmplices de nenhum tipo de violência.

Eurritimia/Flickr

Na semana passada, fui a uma festa com uma amiga. Ela tinha recentemente pintado o cabelo de loiro platinado. Foi a primeira vez que saiu para uma balada sem ser morena. O lugar estava muito cheio, e nós tentávamos passar entre os grupos pra chegar um pouco mais perto da pista de dança. A cada passo que nós dávamos, era um grito ou um puxão a mais no cabelo dela. Eu andava logo atrás e a imagem era bizarra: parecia que minha amiga era mais uma atração da festa. Não tinha um grupinho de homens que não a chamasse de nomes ("loirinha" foi o mais inofensivo) ou alguém pra entrelaçar os dedos nos recém-platinados fios - como um namorado ou antigo amigo que tivesse intimidade pra tanto. Não preciso explicar porque duas horas depois saímos da festa para a barraquinha de cachorro-quente.

Ainda hoje quebro a cabeça tentando entender por que os fios mais claros despertaram tanto assédio (esse é o nome que se dá à "atenção" quando ela não é bem-vinda). Será que faz parte de um imaginário masculino? Será que é algum fetiche? Será que começou com a Marilyn Monroe em "Os Homens preferem as loiras" ou com a Sheila Mello como "A nova loira do tchan"? Só isso já dava um post. Mas hoje eu quero falar sobre outra coisa. O que mais passou pela minha cabeça desde que saímos daquela festa foi: imagina no carnaval.

Carnaval é aquela época do ano em que tudo é permitido: jogar purpurina na cara toda, voltar pra casa com suor em seu corpo que não é seu, fazer xixi na frente do prédio da sua avó, etc. Se é tudo permitido, me imagino o que não teriam coragem de fazer com minha amiga. Seria ela também mais uma atração do bloco? Tá ali pra ser tocada, pra interagir com o público mesmo. Fique à vontade.

Não, não fique à vontade. Só se for convidado pra isso.

Eu, minha amiga ou qualquer outra mulher que estiver no bloco, independente do tanto que purpurina que ela tiver na cara, independente do tamanho da saia dela, independente da fantasia dela ser uma princesa da Disney, Frida Kahlo ou uma enfermeira, ninguém tem o direito de tocar onde não tem permissão. Ei, não se engane, a saia curtinha dela, mostrando quase tudo, não é um convite.

Todo ano é a mesma coisa. Me disseram que se quero pular carnaval, tenho que estar preparada para ter a infelicidade de sentir mãos por onde não gostaria, no meu cabelo, no meu corpo, na minha boca. E nem tente se defender ou se indignar, você corre o risco de levar uma mão fechada na cara ou, no mínimo, incomodar o resto do seu grupo de amigos. Em 2015, quero só pedir uma coisa a todas minhas amigas: tente. Você tem todo direito de se indignar. E aos que estejam do seu lado, peço um pouco de paciência e coragem. Não sejamos cúmplices de nenhum tipo de violência.

Aí, caro leitor, longe de mim criar um manual de conduta para você. Quem sou eu para dizer como alguém deve agir? Só peço licença pra um pequeno guia de como não agir.

Você pode ser quem você quiser durante esse dias, só não seja um babaca - não ser nos outros 360 dias do ano, não te dá licença poética pra ser assim agora.

O óbvio deve ser dito: não se dê a liberdade de tocar quem você quiser. Chega de mata leão. Existe alguma tática mais medieval que essa? Guarde a manobra para suas brincadeiras com seu irmãozinho mais novo. Grata.

Ninguém é obrigado a nada. Não tente também aquele beijinho surpresa, em que você aproveita o momento em que ela vira pro lado para procurar alguém, e PLOC. Beijinho é só com consentimento da amiguinha. Não se preocupe, não se afobe, tem muita mulher no Carnaval cheia de consentimento pra dar - mas pode não ser essa ou pode não ser para você, respeite.

Neste Carnaval, seja criativo. É a única época do ano em que você pode usar as cantadas que não tem coragem no resto do ano - e elas podem dar certo! Agora, por favor, só não seja um babaca.

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