OPINIÃO
25/11/2014 11:30 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Carta a uma amiga

Eles nos dizem que hoje só engravida quem quer. Mas sabemos que não é assim, né? Você, que faz exames ginecológicos duas vezes ao ano, paga R$ 40 por mês numa cartela de anticoncepcionais e estudou muita biologia no ensino médio, sabe que as coisas não funcionam assim.

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Lembra aquele dia que você me ligou nervosa e eu fui pra sua casa? Aquele mês em que tudo deu errado e ela demorou uma semana pra descer. Você sempre toma a pílula, mas esqueceu um dia, estava cansada, trabalhando muito. Aí, não desceu. Você não parava de chorar, entre uma e outra promessa de nunca mais transar com ninguém. "Minha vida acabou", disse com tanta certeza. Felizmente, desceu e não foi dessa vez. Você era jovem e não estava pronta. Tinha acabado de entrar num novo emprego. Tinha acabado de sair da casa dos seus pais.

Eles nos dizem que hoje só engravida quem quer. Mas sabemos que não é assim, né? Você, que faz exames ginecológicos duas vezes ao ano, paga R$ 40 por mês numa cartela de anticoncepcionais e estudou muita biologia no ensino médio, sabe que as coisas não funcionam assim. Só quem nunca se desesperou por um atraso pode falar isso, ou seja, só quem não tem nada pra esperar descer todo mês...

Imagina quem não tem acesso a essas informações, quem não pode? Imagina o desespero? Há um tempo, vimos o caso daquela mulher, a Elizângela, que saiu de casa para fazer um aborto e nunca voltou. Encontraram-na um mês depois morta. Parece que esqueceram um tubo de plástico dentro dela. Deixou três filhos no mundo. Arrepiei frio. Imagina se fosse eu, se fosse você? Lembra quando você se apavorou em fazer a cirurgia de tirar os sisos? Imagina fazer uma cirurgia dessas, com quem você nem conhece, nem médico sabe se é... Li semana passada que a cada dois dias uma brasileira morre por aborto inseguro. Precisamos conversar.

Sua mãe te falou uma vez que "se é adulta para abrir as pernas, tem que ser adulta para aguentar as consequências". Ela esqueceu de falar isso pro seu irmão. Ele acabou engravidando uma menina que ele ficava, mas não visitou mais que três vezes o filho. Acho que isso também é um aborto, né...

Eles falaram que interromper uma gravidez é acabar com uma vida. E ninguém tem o direito de acabar com a vida de ninguém. Nem criança, nem adulto, nem adolescente - quando amarram ele num poste, nu... Mas me deram um panfleto de um bebê, todo bonitinho, ainda no útero, com os dedinhos e pézinhos. Que maldade seria... Mas lembra das nossas aulas de biologia? Aborto, normalmente, é feito até a décima ou décima segunda semana de gestação. Acho que tá na fase "mórula", é isso? Enfim, um montinho de células. Isso pode parecer vida para eles, mas para mim, amiga, não parece não.

Li que uma em cada cinco mulheres de 18 a 39 anos já fez pelo menos um aborto. Quantas mulheres você conhece nessa faixa etária? Será que elas abortaram? Por que elas não falam disso? Acho que pelo mesmo motivo que os familiares e amigos de Elizângela nunca saberiam, se ela ainda estivesse aqui: aborto é crime e dá até 3 anos de prisão. E pro "pai" do feto? Acho que não dá nada. Aliás, nem lembramos de perguntar quem é.

Você me disse uma vez que não importa se é um problema de saúde pública, aborto é errado. "E daí que um milhão de mulheres abortam ilegalmente por ano? Continua sendo errado". Na verdade, eu errei, amiga. Eu disse que sua opinião não importa, que elas vão continuam abortando. Eu estava errada, sua opinião importa sim. Importa para você e para todo mundo, na medida em que enquanto nós não conversarmos, só vamos passar por sustos ou pela infelicidade de uma cirurgia bem feita. Mas aquela moça que trabalha na recepção do seu escritório, que está tão assustada e desesperada quanto você naquela noite, não tem essa sorte. Ela não tem R$ 3.000 para enfrentar uma cirurgia bem feita. Ela toma um chá, que uma prima mandou, ou toma um remédio, que um amigo de uma amiga arranjou. E depois, é muita reza para chegar a tempo no SUS, caso dê - e sempre dá - alguma coisa dê errado. Ela é uma a cada dois dias.

A culpa não é sua, amiga. E nem minha ou dela. A sua opinião importa, precisamos conversar. Não é justo fechar os olhos e deixar passar, não é justo repetir o que sempre nos disseram, porque é mais fácil. Elizângela não é criminosa. Precisamos conversar. Ela não cometeu um homicídio, ela não matou ninguém. Ela não desejava uma gravidez naquele momento, e isso não seria justo com ela ou com o que viria a ser uma criança.

Sua opinião importa sim, amiga, e a minha também. Você tem todo o direito de decidir o que fazer com seu corpo. E eu também. Você tem o direito de transar com quem quiser, ou não transar. Você tem o direito à vida. Você tem inclusive o direito de decidir manter uma gravidez, simplesmente porque sim. A vida é sua.

A vida era da Elizângela também. A vida era de uma mulher que morre a cada dois dias. A vida é minha. Precisamos conversar.

#PrecisamosFalarSobreAborto

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