OPINIÃO
13/05/2018 10:37 -03 | Atualizado 13/05/2018 10:41 -03

Espero o dia em que poderemos dar o presente de Dia das Mães que quisermos

A panela pode ser encarada como uma espécie de prisão. Mas será que estamos também abrindo mão de uma força?

Reprodução/blogs Anos Dourados e Anúncios de Antigamente
Menções a comida de mãe, se não são feitas com muito cuidado, correm o risco de soar ofensivas.

Não, eu não quero ganhar panela de presente no Dia das Mães. Até porque já tenho bastante — ou temos, eu e meu marido. Mas me entristece perceber que a cozinha segue associada a um lugar de opressão da mulher. Homem no fogão é bacana: um ser completo, senhor das forças da natureza, conhecedor das coisas boas da vida, homão da porra. Mulher no fogão... Melhor caprichar na atitude, nas tatuagens e nas hashtags se não quiser ser tachada de recatada e do lar, pobrezinha.

Claro, isso no lar. Nos restaurantes, é diferente: restaurante é rua, é profissão, então ainda temos que picar muita cebolinha para alcançar as mesmas posições que os marmanjos. Dá para contar em poucos dedos o número de restaurantes chefiados por mulheres estrelados pelo Guia Michelin Rio de Janeiro & São Paulo 2018, que acaba de ser lançado. Ao lado de 18 estabelecimentos comandados por chefs homens, está lá apenas o Maní, da Helena Rizzo, para evitar o vexame de uma constelação exclusivamente masculina.

Calhou que nesta mesma semana, além do lançamento do guia, também temos o Dia das Mães. Nessa data, a sensibilidade feminina em relação ao ato de cozinhar chega ao ápice. Menções a comida de mãe, se não são feitas com muito cuidado, correm o risco de soar ofensivas.

Eu, que trabalho resgatando receitas de família, sinto isso todos os dias, e ainda mais nessa época. Recentemente, quando sugeri dar cadernos de receitas para as mães, fiquei com vontade de acrescentar: vocês lembram que eu falei o mesmo no Dia dos Pais, certo? Não acrescentei, mas, ato falho, meti um #diadospais no fim de um post, logo corrigido.

Hoje uma amiga postou no Instagram: "Aviso aos filhos: domingo é Dia das Mães! Não confunda com chá de panela". Choveram comentários:

"Então vamos já consertar isso: chá de Zara, chá de Forever 21,chá de bota e sapato novo,chá de massagem relaxante, chá de viagem, chá de me chama de rainha o dia inteiro."

(O setor de serviços agradece.)

'"Se algum dia meus filhos me derem alguma coisa pra casa, eu soco na cara deles."

Doeu em mim.

Nunca demos um conjunto de panelas para a minha mãe (que eu me lembre...). Mas já dei para o meu marido, e ele gostou. Afinal, por que ele tem direito a esse prazer e eu não?

Entendo, existe um simbolismo: a panela pode ser encarada como uma espécie de prisão em que nos cozinhamos em fogo baixo, sem possibilidade de exercer nossas escolhas — ou algo assim. Mas será que, ao largar as ferramentas de cozinha, não estamos também abrindo mão de uma força?

A comida nos conecta. Ser capaz de alimentar o outro é algo poderoso. Os homens já perceberam isso. Mas demoraram, até. A indústria foi mais rápida.

Lá em meados do século 20, já nos ofereciam de bom grado soluções para quando estávamos cheias de trabalho, querendo ocupar novos espaços na sociedade e nos distanciar das obrigações de viver para o lar.

Eletrodomésticos que batiam, cozinhavam ou limpavam, leites condensados facilmente transformados em sobremesas, pós que viravam sopas, tudo isso veio para nos libertar. Exacerbadas que estávamos, aceitamos e agradecemos. Bem mais fácil que virar para os rapazes com quem estávamos casadas e dizer: a gente vai dividir as tarefas, amigão.

O tempo passou, nem nós nem os amigões somos os mesmos, ainda bem. Mas eu e várias outras mulheres percebemos que algo se perdeu no caminho. Ninguém tem que atrair homem pelo estômago — deus-me-livre-credo-cruz — e ninguém precisa cozinhar para ser mãe. Mas pode cozinhar. E cozinhar pode ser um prazer (como é para tantos homens). E cozinhar nos dá autonomia em relação às escolhas que a indústria gostaria de fazer por nós, nos dá a chance de criar momentos memoráveis e de lembrar de outros.

Neste Dia das Mães, não dê panela de presente. Mas espero chegar a um dia em que a gente vai estar tranquilo para dar o presente que quiser.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.