OPINIÃO
07/10/2015 12:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

'Bandido bom é bandido morto': Como combater tese defendida por metade dos brasileiros

Vivemos um círculo vicioso: quanto menos o Estado Democrático de Direito funciona, menos a população se sente protegida ou vê sentido nisso. E mais essa mesma população se revolta de maneira visceral.

Montagem/Reprodução/Youtube

Recentemente foi divulgada uma nova pesquisa de opinião pública que mostra uma triste realidade no Brasil: 50% das pessoas entrevistadas concordam com o pensamento de que 'bandido bom é bandido morto'.

Embora essa seja uma péssima e preocupante realidade, embora esse tipo de pensamento seja o grande alicerce para os níveis alarmantes de violência policial no País, com o extermínio principalmente de jovens, negros e moradores das periferias e favelas, é preciso buscar entender essa situação para combatê-la.

A indignação e a revolta contra esse tipo de pensamento é algo totalmente compreensível, principalmente por parte das maiores vítimas dessa lógica genocida.

Mas se continuarmos apenas tachando metade da população brasileira de 'doente' e 'fascista', sem buscar as causas desse tipo de pensamento e sem combatê-las de forma eficaz e produtiva, continuaremos todos os anos lamentando pesquisas como essa e assistindo às terríveis consequências disso.

Os que pensam dessa maneira seguem uma determinada lógica, por mais deturpada, desinformada e catastrófica que ela seja, por mais que siga, na verdade, muito mais uma reação visceral e irracional que uma resposta adequada e minimamente embasada.

Pensam assim pois encontram nessa lógica uma resposta, uma maneira de lidar com a sua realidade cotidiana. Pensam assim porque têm enraizada em si de forma profunda a lógica da escravidão e do colonialismo, que infelizmente ainda marca o presente, o cotidiano da vida no Brasil.

E quantos que pensam assim não são as próprias vítimas dessa mesma lógica?

O Estado Democrático de Direito, a convivência social pacífica e harmoniosa, a igualdade, a justiça etc não são coisas que brotam do nada, são resultado de processos sociais muitas vezes longos e que demandam muito trabalho e construção, muita luta e perseverança.

Por outro lado, a violência e a opressão não são processos superficiais que podem ser parados da noite para o dia.

A violência, quando se torna moeda corrente, meio cotidiano nas relações sociais para se atingir objetivos e resolver conflitos, tende a se perpetuar, a não ser que se aja para reverter e desconstruir a sua lógica.

A violência como meio totalmente banalizado é uma característica extremamente enraizada na sociedade brasileira, não vem de hoje e não irá sumir sem um processo profundo de transformação, ou mesmo construção do tecido social, das normas e valores mais profundos, elementos que são a verdadeira base para as instituições numa democracia.

A compreensão de que o Estado pode usar de quaisquer meios para garantir uma suposta 'ordem', para garantir a integridade física e o patrimônio dos que pensam dessa maneira, precisa ser desconstruída de maneira profunda. É preciso esclarecer essa situação, desfazer esse engodo no qual infelizmente muitos ainda caem, e há de se encarar a realidade, definitivamente não apenas a elite e a 'classe média'.

A verdade é que boa parte das pessoas no Brasil simplesmente não entende e não compra, o sentido do Estado Democrático do Direito, não compreende nem minimamente que os direitos humanos 'para bandidos' garantem os seus direitos mais básicos, o direito mais elementar à própria possibilidade de viver sem constantes ameaças, sem que possam simplesmente sumir com você sem que nada aconteça -- o que acontece todos os anos principalmente com jovens, negros e moradores das favelas e periferias do país, o que acontece todos os anos com mais de 50 mil vítimas de homicídio, dos quais a esmagadora maioria termina sem esclarecimento.

Vivemos um círculo vicioso: quanto menos o Estado Democrático de Direito funciona, menos a população se sente protegida ou vê sentido nisso. E mais essa mesma população dá base para a cotidiana destruição de qualquer possibilidade de construção e avanço de um efetivo Estado Democrático de Direito, de instituições que deem conta de mediar os conflitos sociais, de garantir os direitos e a integridade de todos, e de uma sociedade baseada na solidariedade, na confiança, numa convivência produtiva e harmoniosa que possibilite um desenvolvimento social e humano igualitário.

Ainda que a pesquisa do Datafolha mostre uma situação bastante grave, o fato de que os mais jovens tendem a apoiar menos esse tipo de pensamento traz alguma esperança e mostra um caminho possível de construção de uma nova compreensão sobre o tema de segurança pública. Para isso é preciso buscar dialogar e conquistar principalmente esses mais jovens, que têm mais potencial de serem os propulsores dessa mudança.

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