OPINIÃO
26/11/2015 12:20 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Na cama com o camarada amante: conversando com um "esquerdomacho"

Como pode um revolucionário que irá mudar o mundo oprimir suas namoradas, irmãs, amigas ou colegas de trabalho ou militância?

FlIckr.com/akrockefeller

Nas últimas semanas, dois acontecimentos me levaram os pensamentos para uma mesma direção: diretamente para o camarada amante.

O primeiro deles foi a campanha #meuamigosecreto, em que as mulheres denunciaram, nas redes, homens machistas do seu convívio social.

O foco?

Sabe aquele cara bacana, de esquerda, super liberal, que gosta de Chico Buarque e vai para o trabalho de bicicleta? Aquele, que te faz acreditar que é possível estar ao lado de um cara e ser tratada como parceira (ou companheira), no trabalho, na cama ou no bar? E que, ao fim, se mostra tão ruim ou até mesmo pior do que aquele babaca direitoso que te xinga de petralha quando a sua bicicleta atrapalha o caminho do carrão dele?

Então, é esse mesmo. O esquerdomacho. Ele é, muitas vezes, o "amigo secreto".

O segundo foi a leitura de um belo livro da nicaraguense Gioconda Belli, La mujer habitada. Gioconda apresenta o mundo de Lavínia, uma jovem arquiteta de família aristocrática, mas de coração selvagem, que retorna da Europa e inicia sua rebelião particular buscando viver de forma autônoma. Então ela conhece, em seu primeiro emprego no retorno a Nicarágua, outro colega arquiteto, chamado Felipe, e os dois acabam se apaixonando. A paixão por Felipe a leva a conhecer as barbaridades da ditadura de Somoza e o heroísmo dos sandinistas. Mas também a leva a conhecer o machismo desses libertadores.

A questão central da história não é a fórmula "história de amor em tempos de guerra". Mas a descoberta de Lavínia de que "duas coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo". Rapidamente, ela percebe que Felipe, apesar de seus ideais revolucionários, busca nela a beirada do rio, um remanso, em que possa ter um oásis de tranquilidade para repousar a cabeça no descanso do guerreiro. Uma mulher bonita e inteligente que lhe aguarda em uma casa asseada com mornas carícias. Felipe anseia, portanto, por um descanso dentro da ordem burguesa e machista da Nicarágua.

E é isso que esses dois acontecimentos têm em comum. Lavínia poderia fazer um post no facebook, com a hastag #meuamigosecreto. Da Nicarágua da década de 70 até os dias de hoje, o esquerdomacho vem desfilando como apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes. E sendo um dos maiores obstáculos para as mulheres que querem construir um mundo melhor se sentirem parte do anúncio desse mundo melhor. E isso seja em suas relações pessoais, seja na vida profissional ou política.

É possível falar sobre essa espécie tão corriqueira nos nossos meios em diversos aspectos. Mas é justamente o das relações amorosas que me fez pensar sobre esse tema. É o deitar na cama com o camarada amante.

Escrevendo essa linha paro e me ocorre um diálogo imaginário em que vários amigos meus levantam da mesa do bar, indignados, dizendo "mas vocês só acusam a esquerda de machismo! E a direita?". Amigos imaginários, entendam, foi a esquerda que nos prometeu o reino dos céus. E é dela que cobraremos que a nossa pauta vá além de "bom dia a todos e todas!".

Lembro de um namorado da minha adolescência, quando eu devorava livros sobre o marxismo e aguardava ansiosa meu engajamento nas fileiras revolucionárias. Ele, que já era um militante, para mim parecia uma espécie de Che Guevara de barba e charuto nos lábios. Eu, me preparava disciplinadamente para longos diálogos com ele sobre os rumos do socialismo contemporâneo, mas, quando começava a discorrer sobre minhas reflexões, ele me sorria, professoral, me dizia algumas palavras conclusivas, me abraçava e introduzia um assunto mais leve. Enquanto eu buscava nele o companheiro Che Guevara, ele buscava em mim a Penélope de Ulisses. Eu era a beirada do rio, como Lavínia. O remanso da vida do guerreiro.

Alguns capítulos depois, eu já havia saído da beirada e estava suficientemente mergulhada no rio. O ideal do amor com o camarada amante podia se realizar. Éramos nós, estreitos nós. Tocava Chico Buarque de fundo e, depois de ver algum filme latino-americano podíamos dedicar nossas madrugadas a beber vinho e, entre a volúpia do sexo, fumando um cigarro e discutindo a política nacional, o crescimento dos fundamentalismos e os desafios do socialismo no século XXI.

Mas isso nunca aconteceu. Os companheiros de ideais não eram companheiros no amor. Ora eles buscavam, insistentes, o remanso do rio. Ora, eles agiam de forma surpreendentemente mais violenta ou descuidada do que outros caras que você já tinha conhecido. Com a mesma falta de educação. Educação sentimental. Amor livre? Só se ele definir a regra do jogo. E sem avisar o time? Louça suja? Não sei. Não conheço. Violência psicológica? Papo de burguesa.

Em parte, tenho que admitir que nós estamos erradas. Nosso primeiro erro é deslocar os sonhos românticos da Disney para uma narrativa marxista dialética e substituir o príncipe encantado pelo camarada Lenin. A verdade é que não devemos querer fazer parte de clubes que não nos querem como sócias (subvertendo a máxima de Groucho Marx, já que os homens nunca souberam muito sobre nós, mulheres).

Mas o ponto central dessa discussão não está em nós, eles versus elas. Está no significado dessa ação. É possível assumir o compromisso com projetos de mudanças da sociedade sem questionar todos os aspectos do nosso cotidiano e das nossas relações? Em benefício de projetos estratégicos e abstratos negligencia-se as práticas do dia a dia e se esquece que a mudança está mais perto do que se imagina. Porque está em nós mesmos(as). Como pode um revolucionário que irá mudar o mundo oprimir suas namoradas, irmãs, amigas ou colegas de trabalho ou militância?

Mais central ainda é: qual é o sentido que as mulheres possuem nesse projeto de mudança? São companheiras de segunda classe? "Todos(as)" podem falar 2 minutos na reunião, mas além das vozes delas valerem menos, na hora que os "todos" se levantam da mesa, sobrará para as "todas" recolherem os restos da pizza da reunião e lavarem a louça. Ou são como um divertimento barato das noites insones enquanto se espera o dia da revolução? Todos(as) podem viver o amor livre, desde que as regras do jogo sejam estabelecidas conforme as vontades do camarada amante.

E é assim que, da Nicarágua até o ano de 2015, ainda precisamos ter tantos amigos secretos, Lavínia. Até que nos levantemos, saiamos da beira do rio ou do canto da cama e digamos que não é possível mais, camarada amante. A sua revolução não é a nossa.

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